domingo, abril 27, 2008

Venha e veja, venha...


O colapso financeiro dos EUA acabará com a Guerra do Iraque
– E não serão os EUA a escolher o momento

por Mike Whitney

"Venha e veja nossas morgues transbordantes e descubra nossos pequeninos...
Poderá encontrá-los neste ou naquele canto, uma pequena mão espetada, a apontar para si...
Venha e procure por eles no entulho dos raids aéreos "cirúrgicos", poderá encontrar uma pequena perna ou uma pequena cabeça... a pedir sua atenção.
Venha e veja-os amontoados em montes de lixo, a catar restos de comida...
Venha e veja, venha..."

"Flying Kites", Layla Anwar

Os militares americanos venceram todas as batalhas que combateram, mas perderam a guerra.

As guerra são vencidas politicamente, não militarmente. Bush não entende isto. Ele ainda mantém a crença de que uma colonização política pode ser imposta pela força. Mas está errado. A utilização de força esmagadora só espalha a violência e aumenta a instabilidade política. Agora o Iraque é ingovernável. Era este o objectivo? Quilómetros de muralhas de betão a prova de dinamite agora serpenteiam Bagdad para separar as partes combatentes; o país está fragmentado em uma centena de pedaços mais pequenos, cada um deles dominado por comandantes da milícia local. Trata-se de sinais de fracasso, não de êxito. Eis porque o povo americano já não pode apoiar a ocupação. Ele está a ser prático, sabe que o plano de Bush não funcionará. Como disse Nir Rosen, "o Iraque tornou-se a Somália".

A administração ainda apoia o presidente iraquiano Nouri al Malik, mas al-Maliki é uma figura de proa sem significado que não terá qualquer efeito sobre o futuro do país. Ele não tem base popular de apoio e nada controla para além das muralhas da Zona Verde. O governo al-Maliki é meramente uma fachada árabe concebida para convencer o povo americano de que está a ser feito algum progresso político, mas não há progresso. É uma simulação. O futuro está nas mãos dos homens com armas; foram eles que dividiram o Iraque em feudos controlados localmente e são eles que acabarão por decidir quem dirige o Estado. No momento, o combate entre facções está a ser descrito como "guerra sectária", mas a expressão é intencionalmente enganadora. O combate é de natureza política; as várias milícias estão a competir umas com as outras para ver quem preencherá o vácuo deixado pela remoção de Saddam. É uma luta pelo poder. Os media gostam de retratar o conflito como um choque entre árabes semi-loucos – "nostálgicos desesperados (dead-enders) e terroristas" – que gostam da ideia de matar seus compatriotas, mas isso é apenas um meio de demonizar o inimigo. Na verdade, a violência é inteiramente racional; é a reacção inevitável à dissolução do Estado e à ocupação por tropas estrangeiras. Muitos peritos militares previram que haveria erupções de combates após a invasão inicial, mas as suas advertências foram ignoradas por políticos despistados e os media coniventes. Agora a violência deflagrou outra vez em Bassorá e Bagda, e não há fim à vista. Só uma coisa parece certa, é que o futuro do Iraque não será decidido na urna eleitoral. Bush garantiu isto.

Os militares estado-unidenses não dominam o Iraque nem têm o poder para controlar acontecimentos no terreno. Eles são apenas uma das muitas milícias que competem pelo poder num Estado que é dirigido pelos senhores da guerra. Depois de o exército efectuar operações de combate ele é forçado a retirar-se para os seus campos e as suas bases. Este ponde precisa ser enfatizado a fim de entender que não há futuro real para a ocupação. Os EUA simplesmente não têm a mão-de-obra para manter o território ou estabelecer segurança. De facto, a presença de tropas americanas incita à violência porque elas são encaradas como forças de ocupação, não como libertadores. Inquéritos mostram que a vasta maioria do povo iraquiano quer as tropas americanas saiam. Os militares destruíram demasiado do país e sacrificaram demasiadas pessoas para esperar que estas atitudes venham a alterar-se em qualquer momento próximo. A poetisa e bloguista iraquiana Layla Anwar resumiu os sentimentos de muitas das vítimas de guerra num post recente no seu sítio web An Arab Woman Blues - Reflections in a sealed bottle... .
"Às portas da Babilónia a grande, você ainda está a lutar, a combater, perseguir este ou aquele, deter, bombardear do alto, preencher morgues, hospitais, cemitérios e embaixadas e fronteiras com filas para vistos de saída.
"Nenhum iraquiano deseja sua presença. Nenhum iraquiano aceita sua ocupação.
"Levem a notícia aos FDPs, vocês nunca controlarão o Iraque, nem em seis anos, nem em dez anos, nem em 20 anos... Vocês trouxeram sobre si próprios o ódio e a maldição de todos os iraquianos, dos árabes e do resto do mundo... agora enfrentem a vossa agonia". (Layla Anwar; "An Arab Woman's Blues: Reflections in a sealed bottle")
Será que Bush espera mudar a mente de Layla ou dos milhões de outros iraquianos que perderam seus seres queridos ou foram forçados ao exílio ou viram o seu país e a sua cultura esmagados debaixo da bota da ocupação estrangeira? A campanha pelos corações e mentes está perdida. Os EUA nunca serão bem vindos no Iraque.

De acordo com um inquérito publicado na revista médica britânica Lancet, mais de um milhão de iraquianos foram mortos na guerra. Outros quatro milhões foram deslocados internamente ou abandonaram o país. Mas os números nada nos dizem acerca da magnitude do desastre que Bush provocou ao atacar o Iraque. A invasão é a maior catástrofe humana no Médio Oriente desde a Nabka em 1948. Os padrões de vida declinaram abruptamente em toda a área – mortalidade infantil, água limpa, alimentação, segurança, fornecimentos médicos, educação, energia eléctrica, emprego, etc. Mesmo a produção de petróleo ainda está abaixo dos níveis anteriores à guerra. A invasão é o mais abrangente fracasso político desde o Vietnam, tudo deu errado. O coração do mundo árabe caiu no caos. O sofrimento é incalculável.

O problema principal é a ocupação; é o catalizador primário para a violência e um obstáculo para a arrumação política. Enquanto a ocupação persistir perdurará o combate. As afirmações que o chamado aumento repentino [de tropas] mudaram a paisagem política são altamente exageradas. O tenente-general reformado William Odom comentou acerca deste ponto numa entrevista no Jim Lehrer News Hour:

"O aumento repentino (surge) manteve a instabilidade militar e nada alcançou em termos de consolidação política. As coisas estão muito pior agora. E não as vejo a ficarem melhores. Isto era previsível um ano e meio atrás. E continuar a apresentar o verniz cozinhado das meias verdades confortáveis é enganar o público americano e faze-los pensar que não é a charada que realmente é... Quando se diz que está a ter lugar a libanização do Iraque, sim, mas não por causa do Irão e sim porque os EUA entraram e tornaram esta espécie de fragmentação possível. E ela verificou-se ao longo dos últimos cinco anos... O governo al-Maliki está agora em pior estado... A noção de que há alguma espécie de progresso é absurda. O governo al-Maliki utilizar o seu Ministério do Interior como uma milícia de esquadrão da morte. Assim, chamar Sadr de extremista e Maliki de bom rapaz é simplesmente não perceber a realidade de que não há bons rapazes". (Jim Lehrer News Hour)

A guerra do Iraque estava perdida antes de o primeiro tiro ser disparado. O conflito nunca teve o apoio do povo americano e o Iraque nunca representou uma ameaça para a segurança nacional dos EUA. Todos os pretextos para a guerra eram baseados em mentiras; foi um golpe orquestrado pelas elites e os media para executar uma agenda da extrema-direita. Agora a missão fracassou, mas ninguém quer admitir seus erros através da retirada; assim a carnificina continua sem interrupção.

Como acabará

A administração Bush decidiu adoptar uma estratégia que não tem precedentes na história americana. Decidiu perseverar numa guerra que já foi perdida moralmente, estrategicamente e militarmente. Mas combater uma guerra perdida tem os seus custos. A América está muito mais fraca agora do que quando Bush tomou posse para o seu primeiro mandato em 2000, política, económica e militarmente. O poder e o prestígio americanos continuarão a deteriorar-se por todo o mundo até que as tropas sejam retiradas do Iraque. Mas é improvável que isto aconteça até que todas as outras opções tenham sido esgotadas. As condições económicas em deterioração nos mercados financeiros estão a colocar enorme pressão baixista sobre o dólar. Os mercados de acções e títulos corporativos estão em desordem; o sistema bancário está a entrar em colapso, os gastos do consumidor estão baixos, as receitas fiscais estão em queda, e o país a caminho de uma penosa e prolongada recessão. Os EUA deixarão o Iraque mais cedo do que muitos acreditam, mas não o farão num momento escolhido por si. Ao invés disso, o conflito finalizará quando os Estados Unidos não tiverem mais capacidade para travar a guerra. Esse momento não está muito longe.

A Guerra do Iraque assinala o fim do intervencionismo estado-unidense durante pelo menos uma geração; talvez mais ainda. O fundamento ideológico para a guerra (apropriação/mudança de regime) revelou-se como uma justificação sem base para agressão não provocada. Alguém terá de ser responsabilizado. Terá de haver tribunais internacionais para determinar quem é responsável pelas mortes de mais de um milhão de iraquianos.


O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=8730

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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