quarta-feira, dezembro 12, 2012

Um texto que o presidente do PT deveria ler urgentemente


O artigo abaixo foi publicado no site do deputado 
Rui Falcão, presidente do PT.
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Mensalão é página virada para o PT – Raymundo Costa
Interpreta acertadamente quem acha que a última reunião do Diretório Nacional do PT representa uma virada de página. A página do mensalão e de seu julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Eventuais manifestações contrárias às condenações podem ocorrer aqui ou ali. A Constituição assegura a liberdade de expressão. Mas não terá formalmente o aval do PT que, virada a página, já dispõe de uma agenda pronta para 2013, quando o partido completa 33 anos de idade, dez dos quais no exercício da Presidência.
As datas serão festejadas pelo PT e o Instituto Lula. Haverá uma exposição de fotos, provavelmente no corredor da Câmara destinado a esse tipo eventos. A agenda política prevê o estreitamento do apoio ao governo, a preparação para a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a organização do congresso de novembro, que deve reeleger seu atual presidente, Rui Falcão.
Presidente acidental, pode-se dizer que Rui foi a cara do PT, em 2012. Expondo-se nos momentos mais críticos, como a defesa dos acusados de integrar o esquema do mensalão, Rui consolidou-se internamente. É favorito em novembro... http://ruifalcao.com.br/mensalao-e-pagina-virada-para-o-pt-raymundo-costa/

Enquanto isso: 
Nas ondas eletromagnéticas já rola o MENSALÃO 2...

Presidente Rui Falcão,
melhor seria publicar:

De Vargas a Dilma: o parto de um novo ciclo
Assim como as vantagens comparativas na economia, a relação de forças na sociedade não é um dado da natureza, mas uma construção histórica. E precisa ser exercida politicamente; não é uma fatalidade sociológica. A emergência de novos atores nas entranhas da economia não cria automaticamente novos sujeitos históricos.Quem faz isso é a ação política.

Os neoclássicos, os neoliberais aqui e alhures, gostariam que o mapa das vantagens comparativas fosse um pergaminho lacrado e blindado em tanque de nitrogênio. Facilitaria a relação de forças favorável à hegemonia conservadora.

Por eles, o Brasil até hoje seria uma pacata fazenda de café. Ou uma usina de garapa.

Getúlio Vargas rompeu o interdito dos interesses internos e externos soldados na economia agroexportadora. Isso aconteceu em meados do século passado. Até hoje o seu nome inspira desconforto nos sucessores da casa grande; nos intelectuais que enfeitam seus saraus e nos 'canetas' que lhes servem de ventríloquos obsequiosos.

Em 1930 Vargas derrotou a todos. Desobstruiu assim os canais para lançar as bases de um Estado nacional digno desse nome.E abriu as portas a novos sujeitos históricos.

Em 50, no segundo governo, transformaria esse aparelho de Estado em alavanca capaz de assoalhar a infraestrutura da economia industrial que somos hoje.

Ao afrontar o gesso das vantagens comparativas , Vargas alterou a relação de forças na sociedade. Mas não tão sincronizado assim, nem tão solidamente assim, como se veria pelo desfecho em 24 de agosto de 54.

O desassombro daquele período, no entanto, distingue Nação brasileira de seus pares em pleno século XXI.

O Brasil é hoje uma das poucas economias em desenvolvimento que dispõe de uma planta industrial complexa.

A ortodoxia monetarista engordou a manada especulativa no pasto da Selic na década de 90 - o que valorizou o câmbio, a ponto de afogar o produto local em importações baratas até recentemente. Afetou o tônus da engrenagem fabril. Mas não a destruiu; ainda não a destruiu.

É ela ainda que poderá irradiar a inovação e a produtividade reclamadas pelo passo seguinte do nosso desenvolvimento. Não só para multiplicar empregos com salários dignos. Mas sobretudo, para extrair do pré-sal o impulso industrializante e tecnológico que ele enseja, gerando os fundos públicos requeridos à tarefa da emancipação social brasileira.

Não fosse o lastro fabril, a potencialidade do pré sal não apenas seria desperdiçada, terceirizada e rapinada. Ela conduziria a um duplo salto mortal feito de fastígio imediatista e longa necrose econômica: aquela decorrente da doença holandesa e da dependência externa absoluta. Faria pior: devastaria a relação de forças adequando-a ao domínio conservador.

Foi a industrialização que gerou a organização operária desdenhada pelo conservadorismo como mero ornamento populista.Até que surgiu o PT. E que o PT levou um metalúrgico à chefia da Nação; e não uma vez, duas; ademais de eleger a sua sucessora, em 2010.

Os protagonistas progressistas ganharam nervos e musculatura, mas ainda não se cumpriu a travessia evocada por Vargas no célebre discurso do 1º de Maio de 1954, talvez a sua fala mais contundente,mais até que a Carta Testamento deixada tres meses depois:

"A minha tarefa está terminando e a vossa apenas começa. O que já obtivestes ainda não é tudo. Resta ainda conquistar a plenitude dos direitos que vos são devidos e a satisfação das reivindicações impostas pelas necessidades (...) Como cidadãos, a vossa vontade pesará nas urnas. Como classe, podeis imprimir ao vosso sufrágio a força decisória do número. Constituí a maioria. Hoje estais com o governo. Amanhã sereis o governo"

A seta do tempo não se quebrou. Mas estamos diante de uma nova esquina histórica.

A exemplo daquela enfrentada por Getúlio, nos anos 50, a dobra seca está cercada de desafios e potencialidades interligados por uma relação de forças delicada.

Getúlio talvez tenha percebido tarde demais a necessidade de ancorar a travessia econômica em uma efetiva organização política correspondente. Quando atinou, o bonde já havia passado --cheio de golpistas. Mas não só ele demorou a ouvir as advertências da perna econômica da história.

O descasamento tortuoso entre enredo e personagens daquele período pode ser sintetizado no paradoxal comportamento dos comunistas do Partido Comunista Brasileiro.

Em outubro de 1953 Vargas sancionou a lei do monopólio estatal do petróleo.Criou a Petrobrás sob o açoite da mídia.O jornal o 'Estado de São Paulo' faria então um editorial emblemático do obscurantismo conservador. O texto vaticinava a irrelevância daquele gesto, dada a incapacidade (congênita?) de um país pobre como o Brasil,asseverava, desenvolver um setor então de ponta, a indústria petroleira.

Era uma tentativa de conservar o país num formol de vantagens comparativas subordinadas à reação interna e ao apetite imperial externo.As semelhanças com a grita demotucana contra a regulação soberana do pré-sal não são mera coincidência.

Em dezembro, Vargas foi além. Atacou a farra das remessas de lucros do capital estrangeiro. No início de 1954 decretou em 10% o limite para as remessas de lucros e dividendos. Sucessivamente, criaria a Eletrobrás e elevaria em 100% o salário mínimo. Novo fogo cerrado de mísseis por parte da mídia e dos interesses contrariados. Lembra muito a reação atual a cada iniciativa do governo Dilma na transição para um novo modelo de desenvolvimento: queda da Selic; aperto no spread da banca; IOF contra o capital especulativo; mudança na regra da poupança --trava 'popular' do rentismo; forte incremento dos programas sociais; fomento do BNDES ao setor industrial; PAC; preservação do poder de compra dos salários etc

Em dezembro de 1953, conforme recorda o historiador Augusto Buonicore, o PCB abstraia a realidade e conclamava a resistência a...Vargas. Assim:

“O governo Vargas tudo faz para facilitar a penetração do capital americano em nossa terra, a crescente dominação dos imperialistas norte-americanos e a completa colonização do Brasil pelos Estados Unidos (...): “O povo brasileiro levantar-se-á contra o atual estado de coisas, não admitirá que o governo de Vargas reduza o Brasil a colônia dos Estados Unidos. O atual regime de exploração e opressão a serviço dos imperialistas americanos deve ser destruído e substituído por um novo regime, o regime democrático e popular”.

Isso quando a direita já escalava os muros do Catete e os jornais conservadores escalpelavam a reputação de quem quer que rodeasse o Presidente --e a dele próprio. Por todo o país ecoava o o alarido udenista pela renúncia ou golpe, que Vargas afrontaria com o suicídio, em 24 de agosto de 1954. Só o esquerdismo não ouvia.

Mutati mutandis, trata-se agora de inscrever no Brasil do século XXI uma revolução de infraestrutura e fomento industrial de audácia e desassombro equivalente a que Vargas esboçou há 58 anos.

Foi essa tarefa que Lula retomou no seu segundo governo, e Dilma aprofunda nos dias que correm.

Repita-se, não se trata de uma baldeação técnica.Não se faz isso dissociado de uma relação de forças correspondente. Essa travessia não é um dado da natureza, ela precisa ser construída.

Lula tirou 40 milhões de brasileiros da pobreza. Os novos protagonistas formam hoje a maioria da sociedade. Mas serão sujeitos de sua própria história? Fossem, a coalizão das togas midiáticas e o udenismo demotucano estariam fazendo o que fazem?

Urge que se avance na travessia da relação de forças. Essa é a tarefa que grita nas advertências dos dias que correm; nas investidas cada vez mais desinibidas das últimas horas. Elas não serão revertidas, à esquerda, com uma cegueira histórica equivalente a do PCB em 1953. Mas o governo também não pode mais fechar os olhos para o perigo que ronda a sua porta. Ele não será afrontado com o acanhamento amedrontado diante de palavras como 'engajamento', 'mobilização' e pluralismo midiático.

Se o que tem sido testado e assacado nas manchetes não é um ensaio para tornar insustentável o governo Dilma até 2014, então somos todos crédulos dos propósitos republicanos do senhor e senhora Gurgel, dos Barbosas & Fux e da escalada midiática que os pauta e ecoa.

Simples coincidência que a orquestra eleve o naipe dos metais exatamente quando solistas como a The Economist disparam setas de fogo contra o 'excessivo intervencionismo de Dilma' nos mercados?(Leia aqui: 'O Brasil perdeu o charme, diz o rentismo')

A resposta é não. E até para analistas insuspeitos de simpatias petistas, como o professor da FGV, ex-secretário da Fazenda de Mário Covas, Ioshiaki Nakano.

Trecho de seu artigo desta 3ª feira no jornal Valor:

"os especuladores financeiros, que tinham lucros fantásticos com simples arbitragem de juros, perderam 5,25 pontos da sua remuneração. Perderam mais, pois com o Banco Central administrando a taxa de câmbio e a Fazenda buscando a equalização da taxa de juros interna com a internacional por meio do IOF, a possibilidade de apreciação da taxa de câmbio, pela simples ação dos especuladores, desapareceu e, com isso, os ganhos acima do juros".

A 'expressão lucros fantásticos' não é ornato do texto. Estamos falando de uma longa sangria de bilhões de dólares embolsados automaticamente nos últimos anos, apenas com um giro do dinheiro barato tomado lá fora e aplicado a juros siderais no mercado brasileiro, de títulos públicos, sobretudo.

As perdas e danos gerados pela mudança na regra da jogatina justificam a advertência embutida no arremate do articulista moderado:" Reverter as expectativas de longo prazo e mudar as 'convenções' não é tarefa fácil".

Mais que uma tarefa difícil, é preciso repetir à exaustão,ela requer atores correspondentes. Engajados.

Para não desaguar em tragédia ou golpe, como tantas vezes na história, essa relação precisa ser construída com passadas largas, hoje maiores e mais velozes que as requeridas ontem.

Ou a transição econômica buscada pelo governo Dilma não ocorrerá.

À esquerda e aos movimentos sociais cabe sacudir a letargia burocrática e refletir sobre o desconcertante esquerdismo do PCB nos anos 50,quando os comunistas lutavam a batalha do dia anterior contra Vargas. E o golpe campeava escrito nas ruas, nas manchetes, nos discursos, nos astros, nos despachos e nas bulas. Só o esquerdismo não via,não lia, não reagia.

Ao governo petista cabe igualmente despir-se da esquizofrênica receita de ativismo econômico, de um lado, e alucinado menosprezo ao engajamento político, do outro.

Vargas que a vulgaridade conservadora reduziu a mero estancieiro gaucho empurrado pelas circunstâncias, até ele - se quiserem assim - pressentiu onde estava o coração da disputa pelo destino do seu governo e do país.

Eleito em 3 de outubro de 1950, logo em seguida incentivou Samuel Wainer, que conhecera como repórter dos “Diários Associados”, de Assis Chateaubriand, a criar um poderoso aparato de imprensa diária.

Queria pressa. Pediu a Wainer um antídoto ao que antevia, premonitoriamente, como 'um pacto de silêncio' da grande mídia contra seu governo, que dele "só trataria para denegrir".

A história não se repete. Mas 60 anos depois, Dilma --e o PT-- não tem mais o direito de ignorar as suas lições.

Entre outros atores emergentes do novo período encontra-se, por exemplo, a mídia progressista --esmagada e discriminada por critérios de audiência que perpetuam a 'vantagem comparativa' do dispositivo conservador na repartição das campanhas publicitárias federais de interesse público.Isso até Vargas já havia superado.

E não custa sugerir ainda: por que o governo não convoca uma Conferência Nacional,a exemplo daquelas temáticas e setoriais,mas desta vez sobre os novos rumos do desenvolvimento brasileiro? Uma grande mobilização com capilaridade local para discutir o país ao longo de todo ano de 2013 e desembocar em uma plenária histórica em Brasília, no segundo semestre de 2014? A ver.
Postado por Saul Leblon às 05:51

terça-feira, dezembro 11, 2012

Da série: assombrações do passado





 
 
 

segunda-feira, dezembro 10, 2012

O Mensalão da Midiatrix


O Mensalão e a agenda setting: a "Matrix" na prática

Muito discutida e ainda pouco compreendida, a essência do filme “Matrix” (a hipótese da virtualidade do real) talvez já esteja presente no nosso dia-a-dia mais do que imaginamos. A pesquisa “Agenda Setting e a Cobertura dos Casos Mensalão e Cachoeira” feita por estudantes de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi São Paulo como conclusão do curso “Estudos da Semiótica” apresenta a constatação de que a mídia corporativa não tem mais o poder de eleger presidentes ou forçar impeachments como no passado, mas ela é eficiente em estabelecer pautas e agendas como a do atual julgamento do chamado “Mensalão”.  Se a hipótese da agenda setting for correta, o que chamamos de “realidade” poderia ser uma construção a partir de percepções e cognições fornecidos por um ambiente midiático em que vivemos.

Virtuosismo tecnológico, capas pretas, bullet time e todo o visual ciberpunk marcaram as representações dos mundos virtuais em filmes como “Matrix”: humanos enredados nos véus da ilusão criada por computadores/demiurgos que nos escravizam. Mas descontando todo esse sensacionalismo hollywoodiano em torno da hipótese da virtualidade do real, podemos nos surpreender ao descobrir que a essência do tema de Matrix já está presente em nosso dia-a-dia, tão diluído nos temas das nossas conversas e na indústria de informação e entretenimento que nem nos damos conta: mais do que uma figura retórica, já há muito tempo experimentamos a Matrix na prática!
        
      Isso é o que demonstra a pesquisa “Agenda Setting e a Cobertura dos Casos Mensalão e Cachoeira”, trabalho de conclusão da disciplina Estudos da Semiótica da Escola de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi – UAM/São Paulo (veja video abaixo). O grupo formado pelos estudantes da graduação em Jornalismo Ana Carolina Cassiano, Cainã Ito, Camila Albino, Gustavo Carratte e Renata Corona analisou as capas e primeiras páginas dos principais veículos de imprensa de alcance nacional e chegou a uma constatação empírica: até o início do segundo semestre o foco dos veículos como jornais “O Globo”, “Folha de São Paulo”, “O Estado de São Paulo” e de revistas como “Veja”, “Isto É” e “Época” “estava concentrado nas repercussões das denúncias envolvendo o contraventor Carlinhos Cachoeira. O julgamento do chamado Mensalão ainda era pouco comentado”.


Quase nada de Cachoeira e 
exaustiva cobertura do mensalão
       Com a proximidade das eleições municipais, esse foco midiático foi invertido: “quase nada de Cachoeira e exaustiva cobertura sobre o escândalo envolvendo o Partido dos Trabalhadores (...) Cachoeira permanecia envolvido em acusações, mas já não tinha seu rosto exposto por tanto tempo na TV, jornais, revistas e sites, tampouco era comentado nas rádios”.

          “Tomando como exemplo a revista Veja seis de suas capas no segundo semestre de 2012, quando já estavam próximas as eleições municipais, foram sobre o caso envolvendo o PT. Além destas, mais três tiveram destaque na capa, com chamadas para ler mais denúncias páginas adentro”.

          Para além dos evidentes exemplos de manipulação no enquadramento e seleção dos acontecimentos – desde a tendenciosa pergunta da pesquisa Datafolha no início de agosto (“os acusados do Mensalão deveriam ser enviados para a cadeia?”) e todo o exagero da cobertura que invertia os princípios básicos da Justiça (“que obriga os promotores a comprovarem a culpa do réu e não o contrário”) – a pesquisa associou a inversão da cobertura no segundo semestre ao fenômeno conhecido como “agenda setting” ou agendamento: a mídia não apenas manipula a realidade, mas, principalmente, altera a nossa percepção da realidade. Pode parecer uma diferença sutil a existente entre os termos “manipulação” e “percepção”, mas ela é decisiva por ser mais insidiosa e profunda.

A Hipótese do “agendamento”: já vivemos na Matrix


          Embora o conceito de “agenda setting” tenha sido formulada somente na década de 1970 pelos pesquisadores norte-americanos Maxwell McCombs e Donald Shaw em estudos que analisavam a influência das mídias nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 1968, seus princípios básicos começaram a ser traçados em 1922 pelas teses levantada pelo jornalista Walter Lippmann.

          Para Lippmann a opinião pública não reagia diretamente aos fatos do mundo real, mas vivia em uma espécie de “pseudoambiente” formado principalmente por “imagens em nossas cabeças” (LIPPMANN, W. Public Opinion). A mídia teria um papel central na estruturação desse pseudoambiente e fornecimento das imagens.

Em 1963 Bernard Cohen deu uma premissa moderna a essa ideia esboçada por Lippmann: “Na maior parte do tempo a imprensa pode não ter êxito em dizer aos leitores o que pensar, mas é espantosamente exitosa em dizer aos leitores sobre o que pensar” (COHEN, B. Press and Foreign Policy). Em outras palavras, a mídia seria péssima em impor conteúdos ou persuadir a opinião pública a tomar um posicionamento “A” ou “B”, mas ela seria ótima em criar uma hierarquia de temas supostamente com pertinência social para ser discutida.

Dessa maneira, Cohen destacou a onipresença da mídia como eficiente modificadora e formadora de opinião a respeito da realidade. Em consequência da pauta de temas criados pelas mídias o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia certos elementos dos cenários públicos. As pessoas tendem a incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que as mídias incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público pode atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelas mídias aos acontecimentos, problemas e às pessoas. A pauta de fixação feita pelos meios de comunicação perdura no público. Os assuntos nela evidenciados serão comentados pelas pessoas que acabarão julgando os fatos de acordo com essa pauta e percebendo uma realidade social diferenciada.

O filme “Obrigado por Fumar” (Thank You For Smoking, 2005) apresenta didaticamente essa estratégia que está além da manipulação simples pela imposição de determinado posicionamento ideológico: se as pessoas querem ou não fumar cigarro, essa seria uma questão que a mídia teria muito pouca influência. Mas ela seria eficiente em fixar a pauta do tabagismo como tema pertinente para a opinião pública. O filme ironicamente apresenta como a indústria tabagista estaria por trás tanto de pesquisas que demonstrem os malefícios como as que refutam os danos maiores do cigarro. O que importa é que o tema tabagismo ganhe espaço e visibilidade midiática.

Guerra de percepção e sociedade do espetáculo


Pela hipótese da agenda setting não se trataria mais discutir se a mídia influencia ou não determinados conteúdos ideológicos, mas a forma como ela molda a percepção da própria realidade. A pesquisa do grupo de estudantes de jornalismo da UAM destaca: “a mídia já não tem força para decidir quem vai ser o próximo presidente, nem para eleger e forçar oimpeachment como no caso de Collor. Mas isso não significa que a mídia corporativa não siga buscando seu intento, através da agenda setting, como agora ao conseguir colocar em pauta o mensalão do PT”.

O mais perturbador nessa hipótese é a de que se a questão da mídia não é de conteúdo (informação), mas de forma (pauta, agenda etc.) pouco importaria se durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal ocorresse uma reviravolta, as chicanes jurídicas fossem derrotadas e o mensalão fosse desconstruído diante das câmeras: o mal já teria sido feito após a percepção da opinião pública ter aceito a pertinência do tema “mensalão do PT” como hierarquicamente superior a outros temas.

Filme "Obrigado Por Fumar": um
exemplo didático de "agenda
setting"
A pesquisa da UAM define a guerra pelos agendamentos das pautas nas mídias como a própria natureza da sociedade do espetáculo: embora seus resultados sejam ideológicos, os meios de comunicação seriam pouco afeitos a ideologias, conteúdos ou informações (conscientização, formação, inculcação etc.). Essa eficiência de influência ideológica talvez tenha existido nas antigas sociedades de massa dos tempos da Segunda Guerra Mundial. Hoje, com sociedades mais segmentadas e complexas onde a influência pessoal de líderes de opinião (não confundir com “formadores de opinião” das mídias) como filtros das mídias ganha mais força, a batalha passa a ser por agendas impactantes que alterem a percepção do que seja a realidade para as pessoas.

É claro que após o sucesso do agendamento de um determinado tema, os tradicionais mecanismos de manipulação da informação entram em cena, como ficou evidente na cobertura do caso do Mensalão e nos 18 minutos de espaço dado pelo Jornal Nacional da TV Globo para fazer um “resumo” do julgamento do STF. Isso seria um aspecto técnico-ideológico da edição da informação (que muitas vezes o público nem percebe criticamente) e que é mais compreendido por aqueles predispostos à opinião inquisitorial sobre o PT.

O mais importante é que, em uma sociedade do espetáculo, a conquista de uma pauta ou agendamento já é, em si, uma vitória ao fazer o público discuti-la seja a favor ou contra.

Um argumento contra a eficiência ou existência dessa hipótese seria que apesar de todo o agendamento do caso Mensalão desde 2005 na mídia Lula foi reeleito e fez seu sucessor, Dilma Roussef. Mas, poderíamos dizer: “é a economia, estúpido!”. Duas pautas contraditórias parecem disputar percepção da opinião pública: a moralista da corrupção versus a do crescimento econômico paradoxalmente partilhada até pela TV Globo, por exemplo, com o tema da “nova classe média” em novelas como “Avenida Brasil”.  

Se a hipótese da agenda setting for correta, o que chamamos de “realidade” poderia ser um constructu a partir de percepções e cognições fornecidos por um ambiente midiático em que vivemos. Essa talvez seja a essência do filme “Matrix”. Um filme muito discutido, mas ainda pouco compreendido.



http://cinegnose.blogspot.com.br/2012/11/a-hipotese-da-agenda-setting-matrix-na.html#more


quinta-feira, dezembro 06, 2012

DEMITA UM JORNALISTA TUKANO





O garrote da história: mídia interdita o debate e a solução da crise

Até que ponto o monopólio midiático é responsável pelo 'consenso' que jogou o mundo na pior crise do capitalismo desde 1929? A pergunta não é retórica, tampouco a resposta é desprovida de consequências políticas práticas. Imediatas, urgentes, imperativas.

Trata-se, por exemplo, de saber em que medida a formação do discernimento social, condicionado por esférica máquina de difusão de certos interesses, dificulta a própria busca de soluções para a crise.

Mais que isso. Se esse poder blindado que se avoca imune à regulação -- como se constata em tintas fortes hoje na Argentina, mas não só-- tornou-se um dos constrangimentos paralisantes dessa busca, um difusor de impasses e confrontos, como democratizá-lo?

É disso que trata o Especial de Carta Maior que emoldura o histórico '7 D' argentino com a amplitude e a urgência que o tema encerra em nossos dias (leias as reportagens e análises nesta pág)

Medicada com doses adicionais da poção que a originou, graças ao receituário reiterado pelo dispositivo midiático, a desordem neoliberal arrasta a humanidade para o seu quinto ano de arrocho e incerteza.

A rigor, não há qualquer sinal otimista de convalescença ou superação.
A OIT estima que o mundo cadastrável chegará ao final de 2012 com um exército de 200 milhões de desempregados.

O estoque não foi acumulado integralmente na derrocada iniciada em 2008, mas é ela que o robustece e realimenta.

Ademais de gerar sucessivas massas de demitidos, a desordem neoliberal torna irrealizável a tarefa projetada pelo organismo da ONU que inclui a criação de 600 milhões de vagas nos próximos dez anos --duzentos milhões para zerar o saldo acumulado; mais 40 milhões de novos empregos anuais para atender às gerações que chegam ao mercado de trabalho.

A colisão de longo curso que esses números condensam desvela a raiz política de um impasse que expõe a natureza imiscível da supremacia financeira com os requisitos indispensáveis à convivência compartilhada.O emprego e tudo o que ele adensa em nossa sociedade em termos de direitos e dignidade é um desses pontos de tensão inegociáveis. Inclua-se ademais o principio do escrutínio democrático dos conflitos, do qual o capital a juro se isenta, e o acervo de direitos que revestem o cristal da civilização --patrimônio humanista que o atrapalha.

Em nenhum outro lugar do planeta essa incompatibilidade revela um ambiente de conflagração tão eloquente e pedagógico quanto no cenário desconcertante da zona do euro.

Se os mercados doentes deles mesmos são capazes de reduzir o berço do Estado do Bem Estar Social a um matadouro de direitos, em que a classe média recorre a instituições de caridade para não passar fome, caso hoje da Espanha, o que pode esperar o resto do mundo premido pela mesma lógica?

A Europa paga em libras de carne humana o ajuste de competitividade entre economias pobres e ricas cobrado pelo esgotamento do ciclo de crédito barato e irresponsável.

A paridade intocável do euro revela-se assim o pelourinho de uma unificação subordinada aos desígnios dos mercados --e sobretudo da exportação e da finança germânica Em respeito a esse 'senhor' --e a sua senhora, Angela Merkel-- aciona-se o triturador de uma austeridade que reduz humanos a coisas, atribuindo-se às coisas a deferência que caberia aos humanos.

Saldo da reciclagem até o momento: mais de 19 milhões de desempregados na zona do euro; 119,6 milhões de pessoas -24,2% da população- no limiar da pobreza em toda a Europa; US$ 1,3 trilhão entregues aos bancos europeus para salvá-los deles mesmos, depois de se esponjarem em estripulias tóxicas e ativos podres.

O custo humano da inversão de papéis não sensibiliza a mídia conservadora.

Ela continua a rezar pela cartilha da autossuficiência dos mercados, mesmo depois de desautorizada nos seus próprios termos por cifras épicas como essas.

Para a lógica editorial predominante, vivemos sob a irrelevância das evidências. A narrativa hegemônica, ressalvadas as exceções de analistas honestos, não cede.

No Brasil criou-se uma fronteira sanitária esquizofrênica. O noticiário internacional da crise não dialoga com a pauta local que ainda não virou o calendário anterior a 2008. O empenho em desqualificar o ativismo estatal dos governos petistas continua intacto, auxiliado pelo radicalismo golpista das editorias de política.

Hoje, a ênfase editorial, já colada à campanha tucana de 2014, consiste em provar a ineficácia das medidas contracíclicas que redefiniram o tônus da política econômica herdada do ciclo tucano neoliberal.

Incluem-se no alvo, naturalmente, a derrubada dos juros --ainda altos para o padrão internacional, mas no menor nível da história; a intervenção estatal indireta na banca, induzindo-a a cortar spreads pela concorrência agressiva das instituições públicas; as desonerações e subsídios ao setor produtivo, da ordem de R$ 45 bi (1% do PIB); a persistência de incentivos ao investimento, ao crédito e à construção civil e, mais recentemente, uma turquesa nos lucros indevidos das concessionárias de energia elétrica --impondo-lhes um desconto tarifário proporcional ao valor das amortizações consolidadas.

Três estados da federação sabotaram a medida reivindicada,entre outros, por associações industriais, como a Fiesp, de São Paulo. Os três estão sob o comando de governadores do PSDB.

Palavras de um deles que ilustra a mórbida reafirmação de um passado posto em xeque pela crise, cuja reiteração conservadora sonega o direito ao futuro aqui e alhures:

"A presidenta Dilma Roussef está fazendo uma profunda intervenção no setor elétrico a pretexto de reduzir a conta de luz".

A sentença condenatório dá pistas da sofisticação intelectual e do arrojado arcabouço político do novo delfim a suceder Serra na preferência conservadora à presidência da República em 2014, Aécio Neves.

Recapitulemos: estamos na maior crise do capitalismo em 80 ano, produzida pelo credo do Estado mínimo associado à celebração suicida dos mercados autorreguláveis.

Por 'profunda intervenção' entenda-se a prerrogativa do poder concedente de abrir o leque de alternativas à renovação de concessões, adicionando-lhes medidas de interesse do desenvolvimento do país e de sua gente em meio à hecatombe econômica mundial.

São esses os parâmetros de um confronto mediado por um dispositivo de comunicação todo ele alinhado ao atilado equipamento analítico do senhor Neves.

Transporte-se os mesmos personagens, o mesmo iimperativo de redefinição regulatória, a mesma rebelião das naftalinas para a discussão de uma outra concessão estratégica a reclamar a atualização dos seus termos: a área das telecomunicações, cujo protocolo de funcionamento remonta a 1962.

Não se trata de um exemplo aleatório.O que está em jogo é um incontornável requisito à superação da crise, cuja origem --o corpo de interesses e idéias que a engendrou- teve no monopólio midiático um pregador de eficiência implacável.

Coube-lhe acionar a britadeira da desqualificação e disparar os mísseis do interdito contra agendas, políticas, lideranças, plataformas, governos e países recalcitrantes ou insubordinados.

Ação equivalente registra-se agora na deriva do ciclo histórico demarcada pela falência do Lehman Brothers,em 2008.

A urgência democrática é clara e corre contra o relógio da restauração em marcha.

Trata-se de afrontar a espiral descendente da recessão mundial com uma nova hegemonia de forças e políticas que afrontem e superem a desordem dos mercados desregulados em sua derradeiro cobiça: fazer do colapso o 'novo normal' sistêmico, às custas da exceção permanente de direitos e conquistas sociais.

Os interesses ameaçados por esse mutirão progressistas, do qual Brasil --com os seus limites, que não são poucos-- é um dos protagonistas de peso, jogam hoje a rodada do vale tudo.

A expressão vale tudo descreve com fidelidade o que tem sido --e será, cada vez mais-- a rotina do noticiário não apenas econômico, mas político, judicial e policial dos últimos meses.

As ideias e interesses assim veiculados amplificam a sua força material graças à abrangência de um aparato de mídia sem rival no país --assim como acontece na Argentina pautada pelos interesses do polvo difusor que atende pelo nome de 'grupo Clarín'.

A superação dessa usina de consenso asfixiante não se dará exclusivamente no plano da luta ideológica.

Os partidos e forças que evocam a democratização das comunicações tem a obrigação de dar o exemplo prático em casa.

Urge, entre outras iniciativas, materializar a democracia na vida interna das organizações e, sobretudo, na gestão participativa da sociedade sob o comando de administrações progressistas, como será a da capital paulista.

Mas o empenho beligerante com que o dispositivo midiático assumiu a defesa dos interesses associados à crise não pode ser subestimado.

Ilude-se ao ponto da irresponsabilidade suicida o governante que ainda acredita ser possível superar o círculo de ferro do colapso mundial no plano exclusivo do êxito econômico.

Política é economia concentrada.

O espessamento político da crise tem na sabotagem tucana à redução da tarifa elétrica, e na forma como ela é noticiada, uma tênue ilustração do horizonte escuro que se prenuncia.

Quem tem a responsabilidade de liderar o passo seguinte da história não pode conceder à regressividade narrativa o monopólio do diálogo político com a sociedade.

A lição é clara e vem se juntar a uma montanha desordenada de escombros históricos originários de desastres causados pela hesitação e o acanhamento político diante do dia D --como o '7D' argentino, corajosamente agendado pela democracia do país vizinho.

Postado por Saul Leblon às 20:56

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Terrenos necessários de mobilização que o Lulismo precisa para ser atravessado pelo amor e pela vida e não reduzido, pela homologação ou pelo golpismo, a mais uma figura da monstruosidade do poder.



REDE UNIVERSIDADE NÔMADE

... todos aqueles que têm dedicado
o melhor de suas vidas à
luta por direitos e pela democracia
contarão sempre com a nossa solidariedade.


2 de dezembro de 2012 –
Dosimetria contra Democracia

1 – A “ação penal 470” amplia a corrupção e diminui a democracia.
A corrupção não é o desvio das regras das instituições de reprodução da sociedade
desigual, racista e violenta, mas seu modo normal de funcionamento. O processo transformado
em espetáculo no julgamento dessa ação é uma demonstração formal do que acabamos de dizer
em termos de conteúdo: o que é aplicado ao caso do PT não é aplicado ao PSDB mineiro e nem o
foi ao Collor. E as razões desse tratamento desigual não devem ser buscadas na suposta escala
das práticas comuns aos dois casos, mas antes num movimento mais profundo de reação
demofóbica aos projetos de inclusão levados adiante com a participação de alguns réus do caso
escolhido “a dedo”, orquestrada através da proximidade entre a grande mídia e as elites
nacionais.
O que é a corrupção? Toda corrupção política tem duas raízes estruturais: a material, que
é a desigualdade (não há corrupção possível numa comunidade de iguais) e a formal, que é a
própria representação (onde quer que poucos exerçam poder em nome de muitos, sem que estes
possam destituir aqueles a qualquer tempo, o princípio da corrupção está instalado). O resto é
moralismo hipócrita: uma arma da corrupção, inerente ao modelo desigualdade‐representação e
sempre pronta a ser usada contra quem ameace os reais esquemas de poder; o moralismo de
inspiração lacerdisto‐udenoide é o outro nome do golpismo na política brasileira dos últimos 60
anos. A corrupção da democracia está na redução da expressão dos muitos ao jogo formal da
representação voltado para a reprodução das relações de poder estabelecidas e favoráveis aos
poucos. Isto é, nosso regime político é a própria corrupção sistematizada.
Qual o mecanismo da corrupção? Aquele que produz efetivamente a inversão da relação
entre forma e conteúdo: o jogo formal das diferentes instâncias do poder (por exemplo, o STF) se
autonomiza de sua fonte viva e passa a decidir as condições nas quais a democracia pode se
manifestar: assim, um ministro do Supremo Tribunal Federal se sentirá legitimado de declarar
que “governo de coalizão não é bom”, ultrapassando as próprias instâncias constituintes e
representativas formais (assembleia constituinte, eleitorado em referendo, parlamento etc), que
são as únicas legitimadas – segundo o modelo que faz a própria corte suprema existir – a decidir
sobre as formas da política democrática. Contudo, a situação mais corriqueira dessa inversão é
aquela das forças de polícia que impedem uma manifestação de protesto e prendem alguns
manifestantes por desacato aos poderes constituídos: a renovação da fonte constituinte é
algemada pelo resultado constituído que passa a reprimir sua expressão.
Como a corrupção acontece? Pela substituição do principio constituinte (que está na
democracia dos muitos) pelo poder econômico (concentrado nas mãos dos poucos). No
Congresso Nacional, isso se chama lobby das empresas; nas comunicações, isso se chama
concessões estatais e concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos de poucas
famílias; no âmbito da cultura, isso se chama Lei Rouanet; e assim por diante. Já nos processos
eleitorais, isso se chama financiamento privado de partidos e candidatos, que em seguida
deverão retribuir; esse quadro, conjugado à dinâmica das coligações, produz acertos financeiros
entre partidos – as duas “aberrações” são tão inerentes ao modelo eleitoral representativo e
plutocrático que todos os partidos e governos as praticam, o que se pune ou não conforme a
posição dos mesmos diante do status quo.
A mesma tentativa de asfixia do constituinte pelo constituído está acontecendo
escancaradamente em casos como o do projeto do Marco Civil da Internet, cujo conteúdo foi
mudado com base na “pressão” (o que bem será a “força” dessa bendita “pressão”?!) do Lobby de
4 ou 5 companhias telefônicas. É a mesma coisa com a “bancada ruralista” e a “bancada
fundamentalista” que, com base no lobby e no poder econômico de agronegócio e igrejas
condicionam o jogo parlamentar sobre os temas do meio ambiente e dos direitos das mulheres.
Assim, a reprodução do poder das elites ‐ numa democracia representativa ‐ contém
sempre esses elementos de corrupção, por trás dos quais podemos facilmente enxergar suas fontes
autoritárias: a relação das elites com a ditadura não é espúria e tampouco episódica, mas
estrutural (por isso não querem a abertura dos arquivos da ditadura: para eles era uma
“Ditabranda”). A redução da democracia aparece imediatamente no amesquinhamento das suas
dimensões conflitivas e pluralistas em formas corruptas de consensos autoritariamente
construídos e pretensamente inquestionáveis (que constatamos em ação na promoção do
linchamento público do único Juiz que não participou do auto de fé judiciário). Enfim, o
verdadeiro “lance” do poder – por meio desses mecanismos – é de fazer com que para se chegar
“ao poder” seja preciso previamente tornarse
o que o poder já é. Não por acaso o “mensalão”
tucano é o pai e a mãe do “mensalão” do PT; é por isso que para ganhar em São Paulo é preciso
beijar a mão do Maluf e entregar o Rio de Janeiro aos interesses da cidade‐empreiteira.

2 A dosimetria das equivalências entre crimes e penas.
O processo da “ação penal n. 470” chega ao epílogo previsto, segundo o roteiro que rege
a telenovela reacionária do chamado “mensalão”: a condenação e prisão para os militantes do PT
que levaram Lula à Presidência da República ‐ com especial ingrediente de vingança de classe no
caso dos “Dois Zés”, jamais perdoados por sua participação na resistência à ditadura militar.
Após jogar aos leões da “opinião pública” o próprio conceito de “livre convencimento”
dos juízes e o direito ao dissenso, a mídia passou a discorrer sobre a dosimetria.
O julgamento, político e ideológico, com início e duração escandalosamente ajustados ao
calendário eleitoral e ao “horário eleitoral adicional” dos telejornais, abraçou as teses da “direita
penal” e a perspectiva do “direito penal do inimigo”, para isso atropelando aqui e ali as garantias
individuais e coletivas fundamentais do devido processo: direito à ampla defesa, presunção de
inocência, exigência de provas e não meros indícios ou testemunhos suspeitos para condenação,
etc. Se pensarmos no impacto disso para as próximas etapas da incessante “criminalização dos
movimentos sociais”, o quadro é bem preocupante. Para fundamentar a sanha acusatória e
condenatória procurou‐se lançar mão de teorias que se pretende sacralizadas pelo seu
germanismo, mas isso não deu certo. O próprio autor da teoria do “domínio funcional dos fatos”
(o alemão Claus Roxin, a quem a imprensa só deu voz depois das condenações, embora tivesse
dado entrevistas antes delas) deixou muito claro que por ela não se dispensa provas nem se
autoriza condenações com base em meras presunções.
A liturgia barroca dos Juízos ibéricos (que não dispensa o revelador detalhe escravocrata
de dispor de serviçais para ajudar os supremos togados a se acomodar nos seus tronos) foi
acionada na tentativa de sacralizar a prosaica operação de dosagem “política” da condenação
premeditada e anunciada contra pequena e tímida porém única – ao lado do governo Jango,
“punido” com o golpe, exílio, a morte ‐ mudança de natureza de classe pela qual passou o poder
executivo desde que o Brasil existe. Com isso, o STF subverte a finalidade formal que devia
justificar sua função. Ao invés de uma instância “superior, independente e imparcial” destinada a
zelar pelas garantias constitucionais, temos o cenário, subalterna e midiaticamente tutelado, da
judicialização da política e dos conflitos democráticos. O STF revela‐se como dispositivo superior
da elite dominante na concretização de mais uma “revolução pelo alto”. O partido virtual da elite
– a mídia ‐ já ensaia transformar o mais histriônico, intolerante e – por isso mesmo – midiático
torquemada num factóide eleitoral, uma espécie de versão reload do “Caçador de Marajás” de
1989.
Que os pobres voltem para o lugar de onde nunca deveriam ter saído! Estamos
exatamente no quadro do conhecido Sermão do Padre Vieira: “Os ladrões que mais própria e
dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões,
ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais ... roubam e despojam o
povo”.

3. José Dirceu e José Genoíno estão sendo condenados à prisão por terem sido peças
fundamentais do governo Lula, que aprofundou a democracia real.

A culpa de Dirceu e Genoíno é de ter aberto brechas reais no poder e assim determinado
uma redução da corrupção: aproximando a expressão dos muitos da representação estatal,
inclusive do STF, que passou a julgar de maneira favorável alguns dos grandes embates da
transformação social e política do País (Prouni, cotas, demarcação contínua da reserva indígena
Raposa Serra do Sol, união homo‐afetiva).
O crime dos “Dois Zés” é de ter reduzido a corrupção da democracia.
O nome do crime se chama “Lulismo”, um espectro que ronda pelo Brasil, das metrópoles
aos “grotões” antes impenetráveis à vida democrática.
O que o poder dos poucos quer de todo jeito eliminar é o Lulismo. O Lulismo tem a cara e a
voz dos pobres, mas não se limita a preparar a comida da elite, a engraxar seus sapatos nos
aeroportos e a alegrar seus camarotes na Sapucaí. O Lulismo é a valorização do salário da
empregada doméstica; o Bolsa Família como embrião de uma Renda Universal; a criança com
renda e escola; o Luz para Todos; os estudantes pobres e negros com o Prouni (na universidade
particular) e o Reuni (na universidade federal); os secundaristas com o Enem; as cotas sociais e
raciais; a demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol; o Programa Nacional de
Humanização do SUS; os programas federais que transformam a antiga benemerência da elite em
direitos de cidadania; o aumento contínuo do valor real do salário mínimo; a generalização do
uso do software livre pelo poder público; a política externa Sul‐Sul. Enfim, o Lulismo era também
a política de inovação democrática no MinC de Gilberto Gil.

4. Potências e limites do Lulismo

O Lulismo ganha as eleições e as faz ganhar! A Presidenta Dilma e o Prefeito Haddad que
o digam.
Por um lado, o Lulismo ganha porque foi “homologado” pelo poder: respeito aos contratos
das privatizações; pragmáticas coalizões eleitorais; compromissos com o agronegócio e as
empreiteiras. Um dos maiores exemplos de homologação do Lulismo ao poder são as nomeações
que fez no STF, e isso não porque agora os ministros que lhe devem assento o estão condenando,
mas porque o STF foi muito pouco ou quase nada atravessado pelas lutas dos índios, dos pobres,
dos sem terra, dos negros, das mulheres e dos familiares de desaparecidos, e tantas outras
“minorias” dos muitos. Com efeito, são os critérios das nomeações dos ministros que devem ser
democratizados para ficarem mais perto das fontes vivas do direito. Nunca será demais olhar
para a política de Direitos Humanos na Argentina dos governos Kirchner e como naquele país foi
renovada a Corte Suprema.
Por outro lado, o Lulismo afirma e mantém um grau de autonomia: na reeleição de 2006,
na eleição da Dilma e agora do Haddad e de centenas de prefeitos do campo lulista eleitos em
cidades do “interior profundo”, onde antes isso era impensável. Nesse sentido, o Lulismo é a
figura plebéia do devir‐príncipe da multidão dos pobres: o Lulismo conseguiu juntar a força e o
dinheiro a serviço das brechas abertas pela e para a democracia dos muitos. A representação
também foi atravessada pela expressão. O Lulismo nos mostra que a representação, por limitada
que seja, não é sempre igual. Para neutralizar isso foi acionado o espetáculo diário da
desqualificação de figuras do Lulismo durante o processo eleitoral, o que, em outras centenas de
cidades, fez com que o moralismo conservador pequeno‐burguês derrotasse candidatos lulistas
comprometidos com os pobres e elegesse figuras da mais velha e corrupta política oligárquica.
O Lulismo é atravessado por afetos contraditórios, por potências e ambiguidades. O
Lulismo conseguiu atravessar o poder, mas para fazer isso foi atravessado pelo poder. O Lulismo
são os pobres que se reconhecem nele e o digerem à sua maneira. Como toda forma de
representação , ele enfrenta um sem número de limites. Assim, o aprofundamento democrático
nas eleições de São Paulo se acompanha de uma fraquíssima mobilização social de crítica do que
está se processando na ação penal 470.
O primeiro limite do Lulismo diz respeito à questão da violência do poder: daí as
dificuldades em abrir os Arquivos da Ditadura, a omissão diante da matança, dos
desaparecimentos e das torturas perpetradas pelas polícias e nas prisões, as práticas do Sistema
Penal, sejam elas na segurança pública, política penitenciária ou atuação do Judiciário.
O segundo limite é constituído por incapacidade de leitura da nova composição social
nessa fase do capitalismo. A ideia de que a transformação social se resumiria na emergência de
uma nova classe média de consumidores o torna incapaz de apreender a multiplicidade das
novas formas de luta e trabalho. O PT e o governo Dilma parecem tomados por uma cegueira
quase total diante das novas dimensões das lutas dos indígenas, dos jovens operários das
barragens, dos moradores contra as remoções, dos povos ribeirinhos, dos quilombolas e mais em
geral da multidão dos pobres, dos imigrantes bolivianos, haitianos e até espanhóis, dos pobres
como uma multidão que não quer mais ser homogeneizada, mas luta pelo reconhecimento de
suas singularidades e pela remuneração de sua capacidade rica de produzir outros valores, por
exemplo transformando o Bolsa Família numa Renda Universal.
O terceiro limite foi não ter enfrentado a questão da democratização do setor das
comunicações: seja do ponto de vista da mídia que monopoliza as concessões de rádio e TV, seja
do ponto de vista das telecomunicações e da Internet.
O quarto limite foi enfim, a ideia de que os “fins justificam os meios”. Esse limite só
interessa desde o ponto de vista das lutas. Paradoxalmente, ele teve resultados particularmente
nefastos dentro do próprio PT: burocratizando seu funcionamento em torno dos efeitos de poder
econômicos que regem o processo de eleição direta e levando o partido a emular muito da
corrupção própria do poder que ele passou a exercer.
Temos dois casos que são emblemáticos desses limites e desse efeito dentro do próprio
PT: a sucessão do Ministério da Cultura (MinC), na passagem do governo Lula para o governo
Dilma e a política de habitação do PT no âmbito da Prefeitura do Rio de Janeiro.
A Secretaria Municipal de Habitação (SMH) do Rio de Janeiro não apenas participa de um
governo conservador pautado pelos interesses da especulação imobiliária, mas executa o
trabalho sujo de remover os pobres com “procedimentos democráticos institucionais” quais:
pichação das casas condenadas a remoção sem consulta ou informação dos moradores;
demolição de apartamentos em casas sobrepostas ou geminadas ainda habitadas; abandono
proposital do entulho no meio de ruas e vielas para infernizar a vida dos que resistem;
indenizações irrisórias; desrespeito geral à Lei Orgânica Municipal (LOM) com o reassentamento
dos moradores em localidades longínquas do lugar de onde saíram. Pior, quando o Defensor
Geral, em plena sintonia com essa política, desestruturou o Núcleo de Terras e Habitação (por
trabalhar demasiadamente pelos pobres), as instâncias dirigentes do PT carioca, inclusive
ignorando apelos de alguns deputados federais e de um vereador do partido, não falaram
absolutamente nada. E quando o PT do Rio impõe a substituição do Secretário de Habitação não
é para “reformar” essa política, mas para que ela seja mais funcional à reprodução da burocracia
burra e suicida.
A sucessão no Ministério da Cultura é do mesmo nível. A nomeação de uma figura
inexpressiva para a restauração conservadora do velho conceito elitista de cultura foi o resultado
de um duplo mecanismo: por um lado, um setorial petista de cultura produzido pela
mediocridade burocrática jogou no lixo oito anos de inovação democrática na gestão Gil. Não
apenas romperam a continuidade da gestão, mas não entenderam literalmente nada da inovação
radical que aquela experiência representou e continua representando. Pelo outro, a Presidenta se
manteve surda às mobilizações da multiplicidade dos movimentos da cultura como ela se
mantém surda diante das lutas dos índios e das populações atingidas pelas megabarragens na
Amazônia e em geral pelos megaeventos.
Assim, Dilma mostra sua indiferença à necessária abertura da relação entre governo e
movimentos, entre constituído e constituinte, e ao fato que hoje a cultura é o terreno da produção
de todos os valores. Pior, não vê que a cultura é “o” recurso em disputa para o “desenvolvimento”
de um “outro” caminho de desenvolvimento. Não se trata mais da cereja do bolo, mas de seu
fermento. Assim, boa parte do PT mostrou funcionar exatamente do mesmo modo que a
burocracia dos outros partidos, separando a lógica de reprodução da representação vis‐à‐vis dos
interesses da expressão dos muitos. A Presidenta também parece acreditar que somente existe o
valor intrínseco e determinista, isto é totalitário, do crescimento capitalista, ou seja o valor da
exploração capitalista dos homens e da natureza.

“Desfecho do fim desse final”: o retrocesso que o STF está executando a mando da elite nos
mostra que a questão do “Estado” não pode ser deixada ‐ apenas – ao pragmatismo das coalizões
e às contradições do Lulismo. Tampouco podemos apostar no moralismo que vem da esquerda
udenista. A questão do “Estado” precisa de uma nova geração de lutas e políticas de participação.
A mobilização democrática que tinha atravessado o Ministério da Cultura de Gil, Juca e Turino e a
militância pró‐pobres do Núcleo de Terra e Habitação da Defensoria Pública do Rio são exemplos
dos terrenos necessários de mobilização que o Lulismo precisa para ser atravessado pelo amor e
pela vida e não reduzido, pela homologação ou pelo golpismo, a mais uma figura da
monstruosidade do poder. Somente assim ele poderá continuar a ser uma forma de expressão
dos muitos: um instrumento de apoio à incessante produção de subjetividades constituintes,
parceiro nas lutas pelos direitos e pela radicalidade democrática, símbolo da expansão da
potência dos pobres. E todos aqueles que têm dedicado o melhor de suas vidas a fazer isso
contarão sempre com a nossa solidariedade. É nesse estar dentro e contra que poderemos
inventar as instituições do comum*.

*Este texto expressa um primeiro esforço de construção de uma pauta de debates a serem
enfrentados a partir deste momento. Sendo assim, tem um caráter provisório na medida em que
está aberto a novas contribuições que poderão surgir a partir destas
discussões.

Assinam:
ADRIANA VIDAL – Professora PUC‐Rio
ADRIANO PILATTI – Professor PUC‐Rio
ALANA MORAES‐ Antropóloga ‐ UFRJ / feminista
ALEXANDRE DO NASCIMENTO – Professor da FAETEC e do PVNC – Rio de Janeiro
ALEXANDRE FABIANO MENDES – Professor PUC‐Rio
BARBARA SZANIECKI – Pesquisadora UERJ
BRUNO CAVA – Blogueiro e Filósofo
BRUNO TARIN – Discente da Pós‐Graduação da ECO/UFRJ
CARLOS AUGUSTO PEIXTO JUNIOR – Professor PUC‐Rio
CRISTIANO FAGUNDES – Pesquisador – Rio de Janeiro
EDUARDO BAKER – Rio de Janeiro
EMERSON MEHRY – Professor UFRJ
FABIO LEITE – Professor PUC‐Rio
FABRICIO TOLEDO – Advogado – Rio de Janeiro
FRANCISCO GUIMARAENS – Professor PUC‐Rio
GABRIELA SERFATY – Psiquiatra – Rio de Janeiro
GISELE GUIMARÃES CITTADINO – Professora PUC‐RIO
GIUSEPPE COCCO – Professor UFRJ
HENRIQUE ANTOUN – Professor UFRJ
HOMERO SANTIAGO – Professor USP
HUGO ALBUQUERQUE – blogueiro e estudante de direito (SP)
IRINEU COPETTI DALMASO – Professor Santa Maria (RS)
JEAN TIBLE – Professor Fundação Santo André
JÔ GONDAR – Professora UNIRIO
JOÃO RICARDO DORNELES – Professor PUC‐Rio
JOSUÉ MEDEIROS ‐ Doutorando em ciência política pelo IESP
JULIA ALEXIM – Professora PUC‐Rio
LEONORA CORSINI – Psicóloga e Pesquisadora UFRJ
LEONARDO RETAMOSO PALMA – Agitado e botequeiro (RS)
LETICIA PAES – Professora PUC‐Rio
LUCIA COPETTI DALMASO – Advogada – Santa Maria (RS)
MARCIO TASCHETO DA SILVA – Professor Passo Fundo (RS)
MARCIO TENENBAUM – Advogado – Rio de Janeiro
MARTA KISS PERRONE ‐ Atriz e Diretora São Paulo
MAURÍCIO ROCHA – Professor PUC‐Rio
MARINA BUENO – Assistente Social e Pesquisadora Rio de Janeiro
PEDRO BARBOSA MENDES – Pesquisador ‐ UFRJ
RICARDO SAPIA – Pesquisador FAPESP/Unesp
SILVIO MUNARI – Mestrando UFSCar
SIMONE SAMPAIO – Professora UFSC
SINDIA CRISTINA MARTINS DOS SANTOS – jornalista, pesquisadora, Artista‐artesã (Rio)
TATIANA ROQUE – Professora UFRJ
TEREZA COPETTI DALMASO – Professora Santa Maria (RS)
THULA PIRES – Professora PUC‐Rio
TULIO BATISTA FRANCO – Professor UFF
VICTORIA DE SULOCKI – Advogada e Professora PUC‐Rio
VLADIMIR SANTAFÉ ‐ Professor da UNEMAT e cineasta


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