domingo, outubro 15, 2017

A Quem Serve A Justiça Nacional 1



sexta-feira, outubro 13, 2017

Educação Privada à moda EUA não entrega o que promete



8/10/2017, Seth Ferris, 
New Eastern Outlook

"É feito deliberadamente, porque quanto mais execrada e desacreditada é a educação pública, mais pais e alunos buscam as empresas de educação privada, o que gera mais desigualdade e estimula as maiorias pobres a crer que, quanto mais o cidadão é pobre e explorado, mais ele/ela tem de se agarrar a, e defender, qualquer coisa que já tenha, por imprestável e envenenada que seja."______________________________

Não existe o tal de sistema educacional neutro. Ou a educação ensina a comprar sem questionar o que o status quo lhe vende e a apoiar esse arranjo, ou a educação treina para solucionar problemas que capacitem para mudar o status quo. Por isso governos estrangeiros quase sempre estimulam a controvérsia em torno de ações em países que eles estejam trabalhando para influenciar. Quanto mais as pessoas reclamem das posições políticas das forças invasoras/de ocupação e polemizem em torno de quem faz o que contra quem e para quê, menos atenção elas dão à educação, 3ª coluna das forças de ocupação.

Onde embaixadas e agências de ajuda 'humanitária' mandam, o que jamais falta é reforma educacional e escolar. São incontáveis. Mas ninguém fala muito disso, porque as recompensas potenciais de explorar o sistema – encontrando a pequena porta na Matrix – são tão grandes, que as pessoas desistirão de praticamente qualquer coisa em nome da progressiva destruição das gerações futuras.

Que benefícios trazem as tais reformas? Mais ajudam ou mais prejudicam um país em transição?

As pessoas tendem a ver as mesmas coisas de diferentes modos em diferentes partes do mundo. Cidadãos de monarquias compreendem os princípios da monarquia, cidadãos de repúblicas em geral sonham com voltar a ser república. Isso se deve em grande medida a diferenças na educação: o que parecia natural em gerações anteriores, por exemplo a conquista de povos "primitivos" no além-mar para benefício deles, hoje já soa esquisita, porque mudanças na educação levaram as pessoas a ver as coisas desse outro modo, sem para isso terem de examinar a questão 'tecnicamente', ou de bem perto.

As políticas públicas e o modo como a ajuda é distribuída nos dizem muito sobre a atitude profunda real, não só sobre a atitude declarada, que países mais importantes têm em relação a outros ditos menos importantes. Mas os países maiores também se servem de outra alavanca de influência, menos notável porque poucos têm a coragem necessária para ver que é usada como alavanca.

Os culpados de sempre

Considere-se, por exemplo, a 
República Democrática da Geórgia, quase sempre ignorada quando se discutem políticas para a educação. A Geórgia é aliada dos EUA, e todos perguntam o que fazem lá os EUA, quem os EUA apoiam e que relação há entre os princípios dos EUA e o que os norte-americanos fazem realmente na Geórgia. Mas os que se opõem a coisas como o dinheiro da ajuda ser desviado para financiar a corrupção política, mesmos assim continuam a desejar para os filhos, na Geórgia, aquela educação baseada nos EUA, porque creem que ela os ajudará a chegar a locais controlados pelos mesmos EUA.

Geórgia tem pouco a oferecer aos seus cidadãos pobres, em termos de educação. Citando uma ex-aluna, Anna Simonishvili, "as escolas georgianas não estão garantindo o conhecimento e as competências necessárias para que os alunos sejam bem-sucedidos na vida acadêmica e profissional. O nível de educação sequer é suficiente para que os candidatos passem nos exames de escola e nacionais ou consigam entrar nas melhores universidades na Geórgia."

Mas, apesar disso há sempre mais e mais ajuda disponível para instituições que forneçam educação à ocidental, do que para as que fornecem educação à georgiana. Há sempre candidatos excedentes para programas de intercâmbio internacional, e poucos dos recursos nacionais alocados no país são usados para elevar os georgianos a nível aceitável de formação e educação. Mesmo os que se dedicam a criticar fortemente o modelo de educação à norte-americana na República da Geórgia ficam sem alternativa que não seja a própria educação à moda EUA na Geórgia, concebida para fazê-los esquecer-se do que ainda haja neles de georgiano.

Por tudo isso, há um lucrativo mercado para escolas privadas que oferecem educação que extrairá crianças da Geórgia e as despachará para outro estado-vassalo dos EUA, e de fato lhes ensinará algo útil hoje, quando a educação pública georgiana foi reduzida a nada, para abrir espaço para o mercado 'educacional'. Poucos podem pagar por essa educação 'de qualidade', mas quanto menor o número dos que possam pagar, mais prestígio a escola assegura e mais dinheiro pode cobrar. Ninguém ousa questionar o que é ensinado ou por quê, ou que trilhas abrem-se para os que compram essa 'educação', porque muitas perguntas podem espantar para longe também essa última chance, deixando os georgianos médios sem nenhuma 'educação'.

Escola nova, velhos truques

Considerem-se a New School e a American High School em Tbilisi, sempre listadas como lugares óbvios para educar jovens georgianos ambiciosos. As duas estão entre as muitas escolas que desapontaram levas sucessivas de pais e alunos. Como em outros casos, não precisaria ser assim. Mas as escolas desapontam deliberadamente os próprios clientes, porque se realmente entregassem a boa educação que propagandeiam os georgianos seriam realmente formados como cidadãos do mundo, iguais aos demais, com chances iguais a jovens de outros países... Precisamente o que os patrocinadores estrangeiros de 'educação' entendem que precisam evitar que aconteça, e custe o que custar.

A New School é escola pequena, com talvez 30 professores estrangeiros e menos de 50 funcionários georgianos. Oferece vagas aos que querem obter certificado escolar que lhes permita sair da Geórgia – e custe esse certificado o quanto custar. A escola portanto trata a clientela como público cativo.

Na New School e outras, o American Way, disfarçado sob uma máscara de educação europeia/internacional, é o único way à venda. Se você não concorda, adeus futuro. Se concordar, fará qualquer coisa que a escola o mande fazer. Ninguém precisa chantagear políticos ou quem peça e receba 'ajuda' educacional, se o alvo da 'ajuda' já foi persuadido, desde bem antes, de que nunca teve nem terá arma alguma para resistir.

A propaganda da 
New School na Geórgia oferece programa de "International Baccalaureate (IB), com superior rigor acadêmico e ênfase no desenvolvimento pessoal dos estudantes", mas nem por isso se sente obrigada a cumprir todas as exigências do IB. A coisa é simplesmente metida lá na fachada, como se se tratasse de verdadeira escola IB, para atrair mais dinheiro. Mas é tudo, sempre, uma isca. Se você pagar, logo começará a aceitar qualquer coisa que lhe digam, em troca dos benefícios que você espera obter. Inevitavelmente significa que você será adestrado para ver as coisas como os norte-americanos as veem – porque até o curriculum já chega pronto. Mas... e que vantagens reais adviriam disso?!

Atualmente, quase tantos georgianos vivem no país, quanto no exterior. Quantos georgianos proeminentes você poderia citar, que vivem em outros países? Os poucos que alguém talvez lembre são pessoas que fizeram carreira no esporte ou na arte, áreas nas quais as qualificações educacionais não são prioridade.

Bem poucos conseguem um bom emprego no ocidente, simplesmente porque 'pensam' como um norte-americano, porque continuam a ser georgianos. A matrix norte-americana, como é adotada nas escolas IB, torna os georgianos dependentes para sempre, sempre precisando do Tio Sam para indicar-lhes como fazer coisas que, antes, faziam sozinhos sempre que podiam fazer – e essa é precisamente a razão pela qual foram escolhidos em primeiro lugar para serem doutrinados.

Quanto pior a realidade, melhor o sonho

Os pais alegam que foram atraídos para os ginásios privados por panfletos coloridos e discursos escorregadios, dos Relações Públicas, RPs, os marketeiros das escolas – gente especializada em manipulação, de integridade questionável, em tudo assemelhados aos 'especialistas' midiáticos que o governo da Geórgia emprega e põe na mídia, como Patrick Worms, leitor assíduo dos meus artigos. Os pais reclamaram que os filhos mal sabem escrever, e que o programa de matemática foi-se convertendo em desastre absoluto com o passar do tempo.

Os professores georgianos têm salários inferiores para o mesmo serviço, para encorajar os alunos a preferir os estrangeiros ("mais valiosos"), não os professores georgianos. Plágios e traições são frequentes, mas tratados como parte da forma mental cultural coletiva, de modo que as mesmas práticas, no futuro, podem ser usadas contra os georgianos. De fato, os alunos são encorajados a fazer qualquer coisa, sem qualquer punição, para assim criminalizar todo o país na pessoa de seus mais brilhantes representantes. Assim se 'demonstra' que georgianos do "baixo nível" são inerentemente ainda piores que suas 'elites'.

A New School faz de tudo para entregar o certificado DP [Diploma Programme , para alunos de 16-19 anos], custe o que custar, sem qualquer consideração aos méritos do aluno. Essa é uma das principais razões pela qual a New Scholl mantém seu status, apesar da concorrência de outras escolas. Como acontece com qualificações paquistanesas de profissionais engenheiros, o diploma em si nada vale. Apenas mostra que o aluno é filho da classe 'certa', conhece as pessoas 'certas' e está satisfeito com a corrupção à volta dele, desde que lhe renda as vantagens 'certas'.

Se você examina os líderes políticos georgianos pró-EUA, todos eles se distinguem por precisamente essas características aos olhos do público georgiano. Os raros políticos georgianos que são pobres quando chegam ao Parlamento pela primeira vez, logo aprendem que o título "Deputado" ou "Senador" aposto ao seu nome gera riquezas misteriosas, inexplicáveis. O sistema funciona assim, e os clientes zelam para que continue a funcionar. Não importa quantas manifestações haja contra 'as políticas dos EUA', nenhum manifestante morderá a mão que o alimenta, sobretudo quando nenhuma outra mão poderá jamais alimentá-lo, porque todos são produto da mesma política educacional.

A atitude dos EUA diante da Geórgia torna à prova de tudo, o modelo de negócio da New School. A escola cobra preços altos dos pais, para garantir que os filhos saiam de lá com o diploma DP, mas na sequência cria condições nas quais é impossível ensinar/aprender adequadamente. Assim sendo, as crianças não terão condições para prestar exames legítimos e obter legitimamente o mesmo diploma, em outra escola.

Ou você joga o jogo sujo, ou perde tudo. Onde todos saibam que você aceitou a escroqueria, o que faz de você um escroque a mais, como são todos os egressos da tal escolas, você fatalmente terminará sem credibilidade e sem salário – embora com o diploma. Mas quanto mais isso acontece, mais pais abraçam a única estrada que essa política deixou para eles, na esperança de que, ninguém sabe como, a tragédia não acontecerá com os filhos deles.

Muitos professores estrangeiros acabam por se dar conta de que são usados para dar uma pátina de legitimidade a esse sistema de distribuir diplomas inúteis para ricos tolos, empregados exclusivamente para satisfazer pais ricos que querem professores estrangeiros para os filhos.
Não podem fazer o que poderiam talvez fazer, porque estão em posição precaríssima, mas têm de assinar exames fraudadas e avaliações internas fraudadas e ignorar as mentiras e os testes sem qualquer controle. Se alguém é por acaso descoberto (o que, parece, nunca aconteceu até hoje), o coordenador dos diplomas IB/DP e a escola, certamente dirão que a culpa é do professor.

Se um professor autentica exames ou testes de ingresso que sabem que foram adulterados, seu nome está arruinado para sempre. Se não "mantém o programa e segue adiante", não só e demitido como vê seu nome incluído numa lista negra dos demitidos daquela escola, o que implica dizer que o professor perde sempre, não importa o que faça.

Os EUA é um dos países que cuida de manter seus embaixadores em perpétua circulação, para evitar que sejam 'contaminados' pelos locais, se permanecerem num local por muito tempo. Assim também os professores da New School, não permanecem por mais de dois anos. Essa falta de estabilidade, além das insustentáveis condições para lecionar e garantir instrução inadequada, contribui para manter os alunos sempre abaixo do nível de competência que se poderia esperar deles em todos os campos acadêmicos, praticamente sem nenhuma culpa dos alunos. Se a Geórgia deseja permanecer no nicho que lhe cabe entre aliados dos EUA, e enquanto os georgianos aceitarem fazer concessões cada vez maiores, a coisas são assim, porque é assim que devem ser.

Uma moeda de prata

A New School é apenas uma das muitas que oferecem educação à moda ocidental. Mas é a que tem mais longas listas de espera. Cada um decida por si o que são as outras, lendo sobre 
QSI European School.

A República da Geórgia fez algumas tentativas para reformar seu sistema público escolar. Mas na prática não passaram de reformas 'tamanho único'. Muito do que foi implementado não considerava as diferentes carências dos alunos e das comunidades, nem tradições culturais nem a natureza de cada economia local.

É feito deliberadamente, porque quanto mais execrada e desacreditada é a educação pública, mais pais e alunos buscam as empresas de educação privada, o que gera mais desigualdade e estimula as maiorias pobres a crer que, quanto mais o cidadão é pobre e explorado, mais ele/ela tende a se agarrar a, e a defender, qualquer coisa que tenha, por imprestável e envenenada que seja.

Na essência, a mensagem 'educacional que o Ocidente impôs à República da Geórgia é que tudo é permitido, contanto que você arranque alguma vantagem do próximo, qualquer próximo. Políticos e cidadãos da Geórgia foram obrigados a comprar esse sistema, e assim continuarão as coisas, dado que ninguém vê aí nada de errado. Nem teriam como ver, porque todas as escolas privadas operam do mesmo modo e todas as escolas públicas são forçadas a oferecer lixo, de modo a não interferir no projeto daquelas escolas privadas. Ninguém precisa de exército para invadir/ocupar, porque a população absolutamente não vê chegarem as forças invasoras/de ocupação.

Tudo se encaixa na Matrix – como no filme Matrix Revolution, no qual quem resistir acabará presa do agente Smith, agente do mal. Ele se apossa dos resistentes, como faz o Borg. O fato de a Geórgia ser estado independente, que produzia acadêmicos e profissionais respeitados antes de os EUA chegarem, já foi convenientemente apagado pelos que criaram essa situação, e continua apagado pelos georgianos que ainda esperam beneficiar-se desse apagamento.*****

terça-feira, outubro 10, 2017

" acalme-se e tenha boa pontaria. Você vai matar um homem."

Pepe Escobar
Ontem · 

The Last pic

" acalme-se e tenha boa pontaria. Você vai matar um homem."




sexta-feira, outubro 06, 2017

TODO GOLPE É BROXA

«A pessoa orgasticamente insatisfeita desenvolve um caráter artificial e um medo às reações espontâneas da vida; e assim, também, um medo de perceber suas próprias sensações vegetativas»
«É seu próprio corpo que o paciente esquizofrênico sente como seu perseguidor»
«As leis patriarcais pertencentes à religião, à cultura e ao casamento são predominantemente leis contra a sexualidade»
«É simples e parece até vulgar, mas eu sustento que toda pessoa que tenha conseguido conservar alguma naturalidade sabe disto: os que são psiquicamente enfermos precisam de uma só coisa — completa e repetida satisfação genital»
«O homem é a única espécie biológica que destruiu sua própria função sexual natural e está doente em consequência disso»
Wilhelm Reich - A função do orgasmo

segunda-feira, outubro 02, 2017

"Pobretologia" escondeu a luta de classes

Em entrevista especial à TV Afiada, a historiadora e professora da Universidade Federal Fluminense, Virgínia Fontes, fala sobre as decisões que o PT tomou ou deixou de tomar durante seu governo e também sobre as novas formas de organização do capitalismo. A entrevista foi gravada durante o seminário internacional "1917: o ano que abalou o mundo", organizado pela Boitempo Editorial em comemoração ao centenário da Revolução Russa. Saiba mais: www.revolucaorussa.com.br
 

domingo, setembro 24, 2017

Escravidão, e não corrupção, define sociedade brasileira, diz Jessé Souza


Quem sintetizou a interpretação dominante do Brasil, que todos aprendemos nas escolas e nas universidades, foi Gilberto Freyre (1900-87). É a ideia de que viemos de Portugal e que de lá herdamos um jeito específico de ser. Para o autor de "Casa-Grande e Senzala" e para seguidores como Darcy Ribeiro (1922-97), essa herança era positiva ou, pelo menos, ambígua.
Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), outro filho de Freyre, reinterpreta a ideia como pura negatividade em registro liberal. Cria, assim, o brasileiro como vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto. Tal visão prevaleceu, e quase todos a seguem, de Raymundo Faoro (1925-2003), Fernando Henrique Cardoso e Roberto DaMatta a Deltan Dallagnol e Sergio Moro.
Essa é a única interpretação totalizante da sociedade brasileira que existe até hoje.
A "esquerda", entendida como a perspectiva que contempla os interesses da maioria da sociedade, jamais construiu alternativa a essa leitura liberal e conservadora. Existem contribuições tópicas geniais, mas elas esclarecem fragmentos da realidade social, não a sua totalidade, permitindo que, por seus poros e lacunas, penetre a explicação dominante.
A ausência de interpretação própria fez com que a esquerda sempre fosse dominada pelo discurso do adversário. Reescrever essa história é a ambição de meu novo livro, "A Elite do Atraso - Da Escravidão à Lava Jato" [Leya, 240 págs., R$ 44,90]. O fio condutor é a ideia de que a escravidão nos marca como sociedade até hoje —e não a suposta herança de corrupção, como se convencionou sustentar.
Para Faoro, por exemplo, a história do Brasil é a história da corrupção transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado. Nessa narrativa, senhores e escravos raramente aparecem e nunca têm o papel principal.
Essa abordagem seria apenas ridícula se não fosse trágica. Faoro imagina a semente da corrupção já no século 14, em Portugal, quando não havia nem sequer a concepção de soberania popular, que é parteira da noção moderna de bem público. É como ver um filme sobre a Roma antiga cheio de cenas românticas que foram inventadas no século 18. Não obstante, o país inteiro acredita nessa bobagem.
ESCRAVIDÃO
Os adeptos dessa interpretação dominante parecem não se dar conta de que, em uma sociedade, cada indivíduo é criado pela ação diária de instituições concretas, como a família, a escola, o mundo do trabalho.
No Brasil Colônia, a instituição que influenciava todas as outras era a escravidão (que não existia em Portugal, a não ser de modo tópico). Tanto que a (não) família do escravo daquele período sobrevive até hoje, com poucas mudanças, na (não) família das classes excluídas: monoparental, sem construir os papéis familiares mais básicos, refletindo o desprezo e o abandono que existiam em relação ao escravo.
Também no mundo do trabalho a continuidade impressiona. A "ralé de novos escravos", mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta.
Em outras palavras, os estratos de cima roubam o tempo dos de baixo e o investem em atividades rentáveis, ampliando seu próprio capital social e cultural (com cursos de idiomas e pós-graduação, por exemplo) e condenando a outra classe à reprodução de sua miséria.
A classe que chamo provocativamente de ralé é uma continuação direta dos escravos. Ela é hoje em grande parte mestiça, mas não deixa de ser destinatária da superexploração, do ódio e do desprezo que se reservavam ao escravo negro. O assassinato indiscriminado de pobres é atualmente uma política pública informal de todas as grandes cidades brasileiras.
A nossa elite econômica também é uma continuidade perfeita da elite escravagista. Ambas se caracterizam pela rapinagem de curto prazo. Antes, o planejamento era dificultado pela impossibilidade de calcular os fatores de produção. Hoje, como o recente golpe comprova, ainda predomina o "quero o meu agora", mesmo que a custo do futuro de todos.
É importante destacar essa diferença. Em outros países, as elites também ficam com a melhor fatia do bolo do presente, mas além disso planejam o bolo do futuro. Por aqui, a elite dedica-se apenas ao saque da população via juros ou à pilhagem das riquezas naturais.
INTERMEDIÁRIAS
Historicamente, a polarização entre senhores e escravos em nossa sociedade permaneceu até o alvorecer do século 20, quando surgiram dois novos estratos por força do capitalismo industrial: a classe trabalhadora e a classe média.
Em relação aos trabalhadores, a violência e o engodo sempre foram o tratamento dominante. Com a classe média, porém, a elite se viu contraposta a um desafio novo.
A classe média não é necessariamente conservadora. Tampouco é homogênea. O tenentismo, conhecido como nosso primeiro movimento político de classe média, na década de 1920, já revelava essas características, pois abrigava múltiplas posições ideológicas.
A elite paulistana, tendo perdido o poder político em 1930, precisava fazer com que a heterodoxia rebelde da classe média apontasse para uma única direção, agora em conformidade com os interesses das camadas mais abastadas. Como naquele momento os endinheirados de São Paulo não controlavam o Estado, o caminho foi dominar a esfera pública e usá-la como arma.
O que estava em jogo era a captura intelectual e simbólica da classe média letrada pela elite do dinheiro, para a formação da aliança de classe dominante que marcaria o Brasil dali em diante.
O acesso ao poder simbólico exige a construção de "fábricas de opiniões": a grande imprensa, as grandes editoras e livrarias, para "convencer" seu público na direção que os proprietários queriam, sob a máscara da "liberdade de imprensa" e de opinião.
A imprensa, todavia, só distribui informação e opinião. Ela não cria conteúdo. A produção de conteúdo é monopólio de especialistas treinados: os intelectuais. A elite paulistana, então, constrói a USP, destinando-a a ser uma espécie de gigantesco "think tank" do liberalismo conservador brasileiro, de onde saem as duas ideias centrais dessa vertente: as noções de patrimonialismo e de populismo.
LAVA JATO
Enquanto conceito, o patrimonialismo procede a uma inversão do poder social real, localizando-o no Estado, não no mercado. Abre-se espaço, assim, para a estigmatização do Estado e da política sempre que se contraponham aos interesses da elite econômica. Nesse esquema, a classe média cooptada escandaliza-se apenas com a corrupção política dos partidos ligados às classes populares.
A noção de populismo, por sua vez, sempre associada a políticas de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a importância da soberania popular como critério fundamental de uma sociedade democrática —afinal, como os pobres ("coitadinhos!") não têm consciência política, a soberania popular sempre pode ser posta em questão.
É impressionante a proliferação dessa ideia na esfera pública a partir da sua "respeitabilidade científica" e, depois, pelo aparato legitimador midiático, que o repercute todos os dias de modos variados.
As noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua tropa de choque.
Essas noções legitimam a aliança antipopular construída no Brasil do século 20 para preservar o privilégio real: o acesso ao capital econômico por parte da elite e o monopólio do capital cultural valorizado para a classe média. É esse pacto que permite a união dos 20% de privilegiados contra os 80% de excluídos.
A atual farsa da Lava Jato é apenas a máscara nova de um jogo velho que completa cem anos.
Em conluio com a grande mídia, não se atacou apenas a ideia de soberania popular, pela estigmatização seletiva da política e de empresas supostamente ligadas ao PT —o saque real, obra dos oligopólios e da intermediação financeira, que capturam o Estado para seus fins, ficou invisível como sempre. Destruiu-se também, com protagonismo da Rede Globo nesse particular, a validade do próprio princípio da igualdade social entre nós.
O ataque seletivo ao PT, de 2013 a 2016, teve o sentido de transformar a luta por inclusão social e maior igualdade em mero instrumento para um fim espúrio: a suposta pilhagem do Estado.
Desqualificada enquanto fim em si mesma, a demanda pela igualdade se torna suspeita e inadequada para expressar o legítimo ressentimento e a raiva que os excluídos sentem, mas que agora não podem mais expressar politicamente.
Assim, abriu-se caminho para quem surfa na destruição dos discursos de justiça social e de valores democráticos —Jair Bolsonaro como ameaça real é filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo.
O pacto antipopular das classes alta e média não significa apenas manter o abandono e a exclusão da maioria da população, eternizando a herança da escravidão. Significa também capturar o poder de reflexão autônoma da própria classe média (assim como da sociedade em geral), que é um recurso social escasso e literalmente impagável."
JESSÉ SOUZA, 57, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), é autor de "A Tolice da Inteligência Brasileira" e "A Radiografia do Golpe" (Leya), além de professor de sociologia da UFABC.


quinta-feira, setembro 21, 2017

Para quem falam os militares?



quarta-feira, setembro 20, 2017

Resposta de Moniz-Bandeira a Valter Pomar





Meu querido Valter,

insisto, em nada tenho ilusão. Sei que tudo pode acontecer, se houver uma intervenção militar. Mas o fato é que, se Dilma Rousseff foi deposta por um golpe de Estado, e de fato foi, não mais existe Estado de Direito nem democracia no Brasil. Acabou a Constituição.

O governo, que só conta com a simpatia de cerca de 3% da população, realiza reformas para as quais não teve mandato.

O Congresso, corrompido e desmoralizado, assumiu poderes constituintes para os quais não foi eleito.

Nada do que ocorreu e está a ocorrer é constitucional. Nada tem legitimidade.

E o golpe de Estado foi dado exatamente para a execução de tais reformas: trabalhista, previdenciária, terceirização, redução do Estado, com a venda das empresas públicas, impedir os gastos públicos por 20 anos etc.

E as forças econômicas, nacionais e estrangeiras, que estão por trás do presidente de fato Michel Temer e do seu sinistro ministro da Fazenda, o banqueiro Henrique Meirelles, farão tudo para que não haja retrocesso na execução do seu projeto, modelado pelo Consenso de Washington.

Falar em Constituição, agora, é que é uma grande ilusão.

As liberdades são relativas, como durante o regime militar, porém nem imprensa alternativa existe mais como naquele tempo. Toda a mídia repete o mesmo e o alvo é o ex-presidente Lula, com judiciário a condená-lo, sem provas, apenas para efeito de repercussão na imprensa e para desmoralizá-lo. Quanto mais ele cresce nas pesquisas mais me parece que as poderosas forças econômicas nacionais e estrangeiras, que sustentaram o golpe do impeachment da presidente Dilma Rousseff, tentarão tirá-lo de qualquer forma das eleições.

Tenho até dúvidas de que as eleições ocorrerão. Temer e demais cúmplices sabem que, ao descer a rampa do Planalto, sem imunidade, podem ser presos e enviado para a Papuda. A insatisfação no meio militar é enorme, conforme exprimiu o Antônio Olímpio Mourão. E teve toda razão o deputado Aldo Rebelo, do PC do B, quando recomendou o diálogo com os militares.

O proto-nazifascista Jair Bolsonaro não é representativo das Forças Armadas. É minoria.

A intervenção militar pode ocorrer. Como se desdobrará é difícil imaginar. O ideal seria que fosse como a do general Henrique Teixeira Lott em 1955. Mas não creio, em face do Congresso que aí está.

O importante é impedir que o patrimônio nacional – Eletrobrás, Eletronuclear, Petrobrás e pré-sal, bancos estatais – seja dilapidado, entregue aos gringos: é evitar que o desenvolvimento do Brasil, com a inclusão, não seja interrompido; é impedir a entrega aos gringos de uma parte da Amazônia maior que a Dinamarca.

Claro que não defendo regime de exceção, mas regime de exceção é o que já existe no Brasil, com um verniz de legalidade. O que ocorreu no Brasil, com a derrubada da presidenta Dilma, foi golpe de Estado, como, na Ucrânia, com a destituição do presidente Wiktor Yanukovytch, na madrugada de 21 para 22 de fevereiro de 2014, por uma decisão de um Congresso comprado.

A Constituição deixou de existir. Ilusão é pensar que, após realizar as reformas pretendidas pelo capital financeiro e o empresariado nacional, as forças que se apossaram do poder vão deixá-lo, sem ser por um golpe de força. E, infelizmente, as forças populares já demonstraram a sua impotência. A nada reagiram.

Não desejaria que ocorresse intervenção. Todos sabem como começa, mas não quando termina. Porém, não estou a ver outra perspectiva no Brasil. É necessário impedir o desmonte do Estado nacional. E há-de chegar um momento em que o impasse político, com o agravamento da situação econômica e social, terá de ser pela força.

Com afetuoso abraço, Moniz [Fim da carta]