segunda-feira, janeiro 16, 2017

"Os sinais não são bons. A veterana jornalista Claire Hollingworth morreu dia desses, aos 105 anos. Finian Cunningham comentou a morte dela e a amnésia que acomete todos sobre o que significa a OTAN reunir 1.000 de seus tanques no leste da Europa: "Evidência dessa aparente amnésia coletiva viu-se por ocasião da morte da veterana jornalista britânica Clare Hollingworth, que morreu essa semana aos 105 anos. Hollingworth é autora do "furo do século", em 1939, quando foi a primeira voz jornalística a noticiar a invasão dos nazistas à Polônia, que deflagrou a 2ª Guerra Mundial. Manchete de sua matéria original publicada dia 29/8/20139 no britânico Daily Telegraph: "1.000 tanques estacionados na fronteira polonesa." Postado por Yonatan | Jan 15, 2017 12:43:14 PM | 3



"Não acontecerá aqui" – Revolução Colorida à força

14/1/2017, Moon of Alabama

Dos Comentários ao postado, na página de MoA

"Os sinais não são bons. A veterana jornalista Claire Hollingworth morreu dia desses, aos 105 anos. Finian Cunningham comentou a morte dela e a amnésia que acomete todos sobre o que significa
a OTAN reunir 1.000 de seus tanques no leste da Europa:
"Evidência dessa aparente amnésia coletiva viu-se por ocasião da morte da veterana jornalista britânica Clare Hollingworth, que morreu essa semana aos 105 anos.

Hollingworth é autora do "furo do século", em 1939, quando foi a primeira voz jornalística a noticiar a invasão dos nazistas à Polônia, que deflagrou a 2ª Guerra Mundial. Manchete de sua matéria original publicada dia 29/8/20139 no britânico Daily Telegraph: "1.000 tanques estacionados na fronteira polonesa." Postado por Yonatan | Jan 15, 2017 12:43:14 PM |
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A estratégia do "Donald Trump ama a Rússia" e "Rússia é do mal" foi propagandeada pela campanha eleitoral de Clinton. Cresceu sempre, desde o constante incitamento dos EUA contra Rússia depois que o golpe dos EUA na Ucrânia fracassou parcialmente e depois que a Rússia postou-se ao lado do governo de Assad na Síria. Hillary Clinton como secretária de Estado foi a principal força que moveu adiante a campanha anti-Rússia. Quando Clinton foi derrotada por Trump o tema foi mantido, então já conectando Trump e a Rússia, e
ativado por alguns setores da comunidade de inteligência dos EUA.

O Department of Homeland Security (DHS) [Departamento de Segurança Nacional] e o FBI publicaram um relatório de propaganda 'denunciando' o que seria nefanda ciberatividade dos russos durante a eleição, sem apresentar prova de coisa alguma. O relatório apareceu junto com a
expulsão de 35 diplomatas russos pelo governo Obama. Na sequência, o DHS plantou no Washington Post uma falsa história de uma ciberinvasão russa numa instalação em Vermont.

O Diretor da Inteligência Nacional, Clapper, deu andamento à história com um 'relatório' de suposta interferência dos russos nas eleições. Até Masha Gessen, putinófoba empenhadíssima,
considerou a coisa peça de propaganda de má qualidade. O DIN então ajudou a publicar um "relatório" do MI6 " de 'agentes' inventados, todos 'comprovando' a influência dos russos sobre Trump. E em movimento sem precedentes em termos de escalada bélica, o Pentágono manda uma brigada completa e outros agentes para a fronteira da Rússia.

Agora, o diretor da CIA 'manda' o presidente eleito "segurar a língua". Alguém algum dia ouvir falar de precedente, de um desses paus mandados da "inteligência" ameaçar nesse tom o presidente eleito, três dias antes da posse?

Tudo considerado, trata-se de atenta campanha de propaganda para reforçar o esquema que La Clinton e seus capatazes vêm promovendo já há bastante tempo: a Rússia é do mal e representa perigo. Trump é aliado da Rússia. É preciso fazer alguma coisa contra Trump, mas, mais importante, contra a Rússia.

Propaganda funciona. A campanha está obtendo
alguns efeitos:

Os norte-americanos estão mais concentrados do que antes de a campanha presidencial começar, atentos à ameaça potencial que a Rússia representaria contra o país, segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na 6ª-feira. A pesquisa, que entrevistou gente entre 9-12/1, registrou que 82% dos norte-americanos adultos (84% Democratas, 82% Republicanos) descreveram a Rússia como uma "ameaça" em geral aos EUA. É mais gente que os 76% em março, quando foram propostas as mesmas perguntas.

Campanhas assim caras e amplas não acontecem por acaso. Elas têm objetivos e alvos maiores.

Originalmente, a campanha foi dirigida só contra a Rússia com o objetivo aparente de reacender uma guerra fria (muitíssimo lucrativa). Vista com algum distanciamento, a campanha agora já tem todos os sinais típicos de preparação para uma típica
revolução colorida induzida pela CIA:

Em muitos casos, não em todos, massivos protestos de rua depois de eleições muito disputados, ou 'convocação' para 'eleições justas', levaram à renúncia ou a derrubada de governantes que seus inimigos e a oposição haviam definido como autoritários.


Ainda faltam nos EUA as manifestações de rua e tumultos violentos entre a população civil.

Diferente das revoluções coloridas que a CIA disparou na Geórgia (2003), na Ucrânia (2004) e em outros pontos, as mais recentes "revoluções coloridas" instigadas pelos EUA (tentativas de golpes de estado putschistas) sempre vieram acompanhadas do uso de força pelos "manifestantes pacíficos".
Revoluções coloridas desse tipo, com uso de força armada foram instigadas na Líbia, na Síria e na Ucrânia.

Um denominador comum de todas elas são os primeiros ataques armados que partem do "lado do bem", contra o "lado do mal", ao mesmo tempo em que a propaganda repete que "o lado do mal" teria começado o tiroteio e a violência. O "lado do bem" sempre estava "em manifestação pacífica", até quando morrem soldados e policiais "do mal".

Foi o que aconteceu na Líbia, onde os EUA e seus procuradores do Golfo usaram jihadistas de Benghazi aliados da al-Qaeda como "manifestantes pacíficos" contra o governo; na Síria a Fraternidade Muçulmana apoiada por OTAN e pelo Golfo matou policiais e soldados nas "manifestações pacíficas" em Deraa; e na Ucrânia atiradores fascistas adestrados, do alto do telhado de um hotel controlado pela oposição' mataram manifestantes e policiais. Três eventos ocorridos quando Hillary Clinton era secretária de Estado.

Houve avisos sobre revolução colorida em marcha nos EUA, vindos de diferentes grupos extremistas em todo o espectro político. Antes da eleição, o neoconservador Jackson Diehl
clamava que "Putin" estava preparando uma revolução colorida contra a presidenta eleita Clinton, para entregar o trono a Donald Trump. Com a vitória justa e acachapante de Trump sobre Clinton, aquele enredo deixou de fazer sentido. Depois da eleição Wayne Madsen, sempre promotor de conspirações, imediatamente "descobriu" que Clinton e George Soros estavam lançando uma revolução colorida contra Trump.

O que não falta nos EUA são lunáticos dispostos a
atirar contra multidões. Nas atuais circunstâncias, ninguém precisa de furiosas teorias de conspiração ou de enredos nefandos para considerar algumas questões do tipo "e se...?" [Fim do trecho traduzido. Absolutamente NÃO É HORA de dar ideias a McCains, Clintons, Kissingers, Brzezinskis, Obamas & outros malucos.] *****

Teatro de sombras: O Novo Grande Jogo na Eurásia

10/1/2017, Pepe Escobar, Asia Times Online

Então ali, no coração de Bali, ainda fascinado depois de uma conversa séria com um dukun — mestre espiritual —, a ideia surgiu-me: aqui deve ser a nova Ialta, perfeito cenário para uma reunião Trump-Xi-Putin que fixe os parâmetros adiante para o sempre mutável Novo Grande Jogo na Eurásia.

Na cultura balinesa, sekala é o que nossos sentidos podem discernir. Niskala é o que não pode ser sentido diretamente, só pode ser "sugerido". Mas não se demarcam diferenças entre o secular e o sobrenatural. Mudanças geopolíticas massivas à frente não poderiam estar mais envoltas em niskala.

Prisioneiro da vertiginosa velocidade do aqui e agora, o Ocidente ainda tem muito a aprender de uma cultura altamente evoluída que prosperou há 5 mil anos ao longo das margens do rio Sindhu — agora, Indus — em terras que atualmente são o Paquistão, e migrou do império Majapahit em Java para Bali, no século 14, sob pressão do Islã rampante.

Na concepção hindu-balinesa da estrutura cósmica, o homem é uma espécie de modelo em escala do universo. A ordem é personificada pelos deuses; a desordem, pelos demônios terrestres. Trata-se sempre de dharma e adharma. No que tenha a ver com o Ocidente, adharma reina sem rival.

Na filosofia religiosa hindu-balinesa, há um contrapeso que equilibra cada uma e todas as forças positivas, uma força negativa. As duas são inseparáveis – coexistindo em equilíbrio dinâmico. O dualismo ocidental é tão sem sofisticação, comparado a isso.

No Suthasoma — um grande poema épico budista mahayana composto na região central de Java, ao tempo em que o budismo misturava-se alegremente com o hinduísmo sivaísta[1] —um verso destaca-se: Bhineka tunggal ika ("é diferente, mas é um").

É o lema da Indonésia, impresso no escudo do país, sob o pássaro dourado mítico
Garuda –, uma mensagem de unidade, como o lema norte-americano e pluribus unum [lat. "De todos, um"]. Hoje, o lema da Indonésia parece mais um presságio da integração eurasiana costurada pelas Novas Rotas da Seda. Não por acaso, Xi Jinping lançou oficialmente na Indonésia, em 2013, a Rota Marítima da Seda.

Mapa: Um homem que passa lança sua sombra sobre o mapa que ilustra o megaprojeto da China "Um Cinturão, Uma Estrada", no Fórum Financeiro Asiático em Hong Kong, China, dia 18/1/2016. Foto: Reuters/Bobby Yip

Com a era Trump marcada para começar daqui a dias, nossa conjuntura geopolítica parece ser e a sentimos como um Wayang kulitteatro de sombras balinês – tamanho gigante.

A origem histórica do teatro de sombras está muito provavelmente na Índia, embora exista por toda a Ásia. Bem e mal coexistem nas peças do teatro de sombras – mas o hinduísmo procura apresentar a luta como uma espécie de parceria não ortodoxa.

Kulit significa pele, cobertura. Wayang é o boneco, feito de couro de vaca, pintado e montado em varetas que o dalang — o mestre dos bonecos – manipula à vontade.

Cada 'peça' do Wayang kulit é uma história contada por um dalang mediante diferentes vozes (que ele tem de encarnar), sombras sobre uma tela e música para criar diferentes atmosferas. O dalang — uma espécie de sacerdote — faz todos os personagens e têm de conhecer de cor as histórias que narra.

No ocidente, só uns poucos seletos qualificam-se como dalangs — especialmente na esfera geopolítica. Os reais dalangs são completamente invisíveis – mergulhados em profundezas de niskala. Mas há os emissários deles, visíveis, hábeis no uso das mídias, dalangs tratados como deuses pelas mídia-empresas. Em um minuto de New York voltamos a eles.

O touro branco e a moça da Ásia

Compare-se o teatro de sombra balinês – que manifesta sekala e sobretudo niskala — com a abordagem made-in Ocidente, o fio de Ariadne que talvez possa, talvez, extrair-nos do atual labirinto geopolítico, valendo-se de uma mercadoria super super mal usada nesses tempos: lógica.

Primeiro, voltando a fita: voltemos para o nascimento do ocidente, na Europa. Reza a lenda que um belo dia Zeus pôs seu olhar errante numa moça de grandes olhos brilhantes: Europa. Pouco depois, numa praia da costa fenícia, um extraordinário touro branco apareceu. Europa, intrigada, aproximou-se e começou a acariciar o touro, que, claro, era Zeus disfarçado. O touro então anexou a Europa e disparou para o mar.

Zeus teve três filhos com Europa — e deixou com ela um dardo que jamais errava o alvo. Um desses filhos, como todos sabemos, foi Minos, que construiu um labirinto. Mas sobretudo, o que a lenda ensina é que o ocidente nasceu de uma moça – Europa – vinda do oriente.

A questão agora é quem encontrará o fio de Ariadne para nos extrair do labirinto pelo qual, mais de cinco séculos depois de uma Era dos Descobrimentos liderada pelo ocidente, chegamos ao Declínio do Ocidente, com o líder Obama dessa vez, à frente.

Todo o projeto da União Europeia enfrenta colapso absoluto. O mito da superioridade cultural e política europeia/ocidental – cultivado ao longo de cinco séculos – está na poeira, no que tenha a ver com "todas as vagas imensidades asiáticas" [ing.
All Asiatic vague immensities], como Yeats escreveu em "The Statues". Esse século está destinado a ser o século eurasiano.

Via firme e confiável adiante teria sido aquela que
Putin propôs faz tempo, em 2007 — um empório de comércio continental unificado de Lisboa a Vladivostok. Adiante os chineses pegaram a ideia e a ampliaram via o conceito de Um Cinturão, Uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)].

Não. Em vez disso o governo Obama, liderando o ocidente "pela retaguarda", contra-atacou com pivô para a Ásia (leia-se: para conter a China) e Guerra Fria 2.0 (demonização da Rússia).

Entram os dalangs ocidentais

E isso nos leva, à véspera de uma possível nova era geopolítica, ao que os dalangs ocidentais sobretudo mais visíveis podem estar cozinhando em niskala.

Sekala faz exibição de histeria descontrolada 24 horas por dia todos os dias da semana em setores do estado profundo nos EUA, por causa dos feitos "maléficos" dos russos, com os remanescentes do governo Obama empurrando a Guerra Fria 2.0 rumo aos limites máximos. No niskala, onde operam Henry Kissinger e o Dr. Zbigniew "Grande Tabuleiro de Xadrez" Brzezinski, é onde há ação (conceitual) de verdade.

Não é segredo que
Kissinger, o "urbano", o "cerebral", o "legendário" opera agora como conselheiro de Trump. A estratégia de longo prazo pode ser caracterizada como um "Dividir para Governar" clássico, apenas levemente remixado: nesse caso, uma tentativa para quebrar a aliança estratégica Rússia-China, aliando-se ao nodo – teoricamente –mais fraco, Rússia, para melhor conter o nodo mais forte, China.

De um momento "Nixon na China" para um momento "Trump em Moscou".
Não é difícil compreender que sicofantas fátuos do tipo Niall Ferguson sagrarão a esperteza de Kissinger em rios de hagiografia – sem considerar que Kissinger pode estar ativo num show colateral muito mais lucrativo, na forma de contratos e mais contratos para seu escritório de consultoria Kissinger Associates Inc., atapetado de nomes estelares no ramo, e que é membro do Conselho de Comércio EUA-Rússia [ing. US-Russia Business Council, com cadeira ao lado e ExxonMobil, JPMorgan Chase e Pfizer, âncora da Big Pharma.

Assim sendo, em resumo: sai a mudança de regime, entra a contenção benigna. Aqui está
Kissinger na sua Conferência Primakov, há quase um ano, já esquematizando o modo como Washington deve negociar com Moscou: "Os interesses de longo prazo dos dois países exigem mundo que transforme a turbulência e o fluxo contemporâneos num novo equilíbrio que é cada vez mais multipolar e globalizado (...). A Rússia deve ser vista como elemento essencial de qualquer equilíbrio global, não basicamente como uma ameaça aos EUA."

Kissinger multipolar exaltando Rússia que "não ameaça" –, e fica-se a pensar por qual motivo a máquina de Clinton não denunciou o velho, expondo-o também como refém das trampas e amizades coloridas de Putin.

Também meses antes da vitória de Trump, mas em marcado contraste com Kissinger, Brzezinski estava em modo de alerta vermelho profundo, alarmado pela "erosão das vantagens técnico-militares dos EUA" como se detalha por exemplo
nesse relatório do Center for a New American Security, CNAS.

Brzezinski melancolicamente reafirma o óbvio – que EUA militarmente inferiorizados "sinalizam o fim do papel global dos EUA" e o resultado local será "muito provavelmente" "caos global".

Propõe como solução então que os EUA "modelem uma política na qual pelo menos um dos dois estados potencialmente ameaçador seja convertido em parceiro na busca de estabilidade regional e depois de mais ampla estabilidade global, assim impedindo a superdistensão da menos previsível mas potencialmente a mais provável rival. Atualmente, quem mais provavelmente pode superdistender-se é a Rússia, mas no longo prazo pode ser a China."

Aí está, tudo outra e outra vez: Dividir para Governar, e assim contra-atacar as "ameaças" indisciplinadas.

Num ocidente previsível, sempre de olhos fixos no próprio umbigo, Brzezinski assume que a China pode não preferir ir contra os EUA como tal, "no seu interesse de pertencer à matilha dominante". Só que a "matilha dominante já não é os EUA: é a integração eurasiana.

Brzezinski, depois da debacle da máquina Clinton/Obama, já não passa de perdedor ressentido. Então foi forçado a embaralhar ligeiramente as cartas. Diferente de Kissinger, e fiel à sua russofobia maníaca, o Dividir para Governar de Brzezinski é
centrado em seduzir a China, para atraí-la para longe da Rússia, por cujos meios "a influência norte-americana é maximizada".

À maneira previsível do ocidente, sempre de olhos no próprio umbigo, Brzezinski assume que a China pode não escolher atacar os EUA, 'porque' seria "do interesse dela incorporar-se à matilha dominante". Mas a "matilha dominante" não é mais os EUA: agora é a integração eurasiana.

Um Cinturão, Uma Estrada, ou as Novas Rotas da Seda, é o único projeto de integração geoeconômica/geopolítica de grande alcance no mercado. Se Kissinger pode talvez permanecer como o mais consumado dalang da realpolitik, o mentor de Obama, Brzezinski, só permanece como velho refém de Mackinder. A liderança chinesa, por sua parte, já está muito à frente de ambos, Mackinder e Alfred Mahan. A Novas Rotas da Seda visam a integram, pelo comércio e pelas comunicações, não só a
Terra Interior (Um Cinturão), mas também as Terras Franja (a Rota Marítima da Seda).

Uma parceria com a União Econômica Eurasiana (UEE) será essencial para todo o projeto. Poucos se lembrarão que, com a Guerra Fria rolando solta em setembro,
o Fórum Econômico Oriental fazia negócios em Vladivostok, com Putin propondo um "espaço de economia digital" sobre toda a Ásia Pacifico e China prometendo maior envolvimento nos projetos para desenvolver o Extremo Oriente russo.

Assim, o que temos agora é os, provavelmente, principais dalangs ocidentais fazendo o diabo para se adaptarem ao novo normal – integração eurasiana via Um Cinturão Uma Estrada/União Econômica Eurasiana — propondo versões conflitantes benignas de Dividir para Governar, com a inteligência dos EUA ainda precariamente pendurada, em desespero que nada tem de calado, ao velho paradigma confrontacional.

Quanto aos nodos chaves – uma Tripla Entente? — da integração eurasiana, Moscou, Pequim e Teerã estão muitíssimo conscientes de um estrangeiro que chega com presentes, envolto em niskala. Um estranho que conta, em momentos alternados, com Moscou entregar Teerã na Síria, e também com o acordo nuclear; Moscou separar-se de Pequim; Pequim entregar Teerã; e entre essas possibilidades, todos os tipos wayang de contenção/trocas do que seja pilhado.

Essa será a história chave a acompanhar mais a fundo pelas novas estradas (Rotas da Seda). Yeats escreveu, em verso memorável que "Espelho refletido em espelho, eis todo o show" ["mirror on mirror mirrored is all the show" (The Statues)] Seja como for, o show sempre tem de continuar – dalangs orientais e ocidentais soltem-se em niskala profundo. Bem-vindos ao
Torneio de Sombras do século 21.*****



[1] Essa é a grafia oficial em português do Brasil. Sobre o significado, parece haver informação interessante na Revista Aleph (esp.) [NTs]

domingo, janeiro 15, 2017

Vão privatizar a puta que os pariu

A senadora mexicana @LaydaSansores mandando seus colegas privatizarem "a puta que os pariu" é de lavar a alma.
“PRIVATIZAÇÃO | Se eu votasse no México / Si yo votara en México esta seria mi senadora - @LaydaSansores (vídeo de 2013, pero sigue actual!) https://t.co/86IxTpUSR5
TWITTER.COM|POR ROGÉRIO TOMAZ JR.

A segurança nacional estaria sendo ameaçada pelo Estado Paralelo, algo evidenciado pela ida do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, em fevereiro de 2015, aos EUA. Na ocasião, Janot foi entregar pessoalmente documentação sigilosa e sensível para os interesses do Brasil.

Por Bruno Lima Rocha
O alvo estratégico da relação EUA com os frutos das delações da Lava Jato, é o desmonte da Petrobras e das empresas de engenharia complexa operando a partir do Brasil.

E Cunha, insistindo que o emissário de Geddel não fosse de carro, estava provavelmente querendo dizer que a encomenda já estava no seu porta-malas. Geddel entendeu: “Maravilha.” O padrão é o mesmo do tráfico, que, em algumas circunstâncias, evita o transporte em avião de carreira.

Atuam como no tráfico de drogas
Pelo menos três nomes que aparecem na investigação da Polícia Federal sobre as traficâncias de Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha na Caixa Econômica…
DIARIODOCENTRODOMUNDO.COM.BR

Nos manuais estadunidenses as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média.

to deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida", escreve Pepe Escobar
Nos manuais estadunidenses as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média. Pepe Escobar* ...
OPERAMUNDI.UOL.COM.BR|POR DIÁLOGOS DO SUL

q roupitcha Dórinha?

E aí sr marketeiro, q roupitcha vai colocar em Dórinha, o prefeitnho de papel? Divirtam-se paulistanos:
“E aí sr marketeiro, q roupitcha vai colocar em Dórinha, o prefeitnho de papel? Divirtam-se paulistanos:”
TWITTER.COM|POR COMANDANTE JOTA

sexta-feira, dezembro 09, 2016

Voltando 131 anos no tempo. O GOLPE da plutocracia e a Lei do sexagenário

A Lei dos Sexagenários, também conhecida como Lei Sararaiva-Cotegipe, foi promulgada em 28 de setembro de 1885. Essa lei concedia liberdade aos escravos com mais de 60 anos de idade. A lei beneficiou poucos escravos, pois eram raros os que atingiam esta idade, devido a vida sofrida que levavam.

terça-feira, dezembro 06, 2016

O livro "O caso Lula: a luta pela afirmação dos direitos fundamentais no Brasil" será lançado hoje


O livro "O caso Lula: a luta pela afirmação dos direitos fundamentais no Brasil" será lançado hoje, em São Paulo. Diversos nomes do Direito analisam e explicam como a operação Lava Jato estaria empregando táticas de lawfare (manipulação do sistema jurídico para perseguir um inimigo) contra o ex-presidente Lula. O lançamento será na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, a partir das 19h.

O livro está em pré-venda: http://www.ciadoslivros.com.br/caso-lula-o-a-luta-pela-afirmacao-dos-direitos-fundamentais-no-brasil-745486-p627859

domingo, novembro 06, 2016

Conheça a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF)

ganhe quinze minutos e veja este comovente vídeo sobre a história da escola nacional florestan fernandes, do mst - a mesma que foi invadida esta semana, a tiros, pela polícia do governador geraldo alkmin.

ENFF - Uma Escola Em Construção from MST on Vimeo.

sábado, novembro 05, 2016

Em nota, MST pede por mais Reforma Agrária e pelo fim da criminalização do Movimento

O MST denuncia a “escalada da repressão contra a luta pela terra, onde predominam os interesses do agronegócio associado a violência do Estado de Exceção” após ação da Polícia Civil do PR nesta sexta.



Da Página do MST

Nesta sexta-feira (4), o MST amanheceu sobre os holofotes da criminalização. Uma ação truculenta da polícia, batizada de “Castra”, envolveu três estados, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, e teve como principal objetivo prender e criminalizar as lideranças dos Acampamentos Dom Tomás Balduíno e Herdeiros da Luta pela Terra, militantes assentados da região central do Paraná.

Em nota, o MST denuncia a “escalada da repressão contra a luta pela terra, onde predominam os interesses do agronegócio associado a violência do Estado de Exceção”.

“Lembramos que sempre atuamos de forma organizada e pacifica para que a Reforma Agrária avance. Reivindicamos que a terra cumpra a sua função social e que seja destinada para o assentamento das 10 mil famílias acampadas no Paraná”, afirma trecho da nota.

Em São Paulo, 10 viaturas da polícia civil invadiu a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema, São Paulo. Dois militantes foram detidos nessa ação.

De acordo os relatos, os policiais chegaram por volta das 09h25, pularam o portão da Escola e a janela da recepção e entraram atirando em direção às pessoas que se encontravam na escola. Os estilhaços de balas recolhidos comprovam que nenhuma delas são de borracha e sim letais.

Já no Mato Grosso do Sul, 3 viaturas policiais, com placas do Paraná, entraram no Centro de Pesquisa e Capacitação Geraldo Garcia (CEPEGE), em Sidrolândia. A ação policial procurava por militantes do MST do Paraná que, supostamente, estariam naquele centro. Os policiais permaneceram no local até, aproximadamente, 9h da manhã quando foram embora sem ninguém preso. Durante a ação foi impedida a utilização de celulares.

A militância que estava no CEPEGE realizava trabalhos de limpeza e manutenção do espaço.

Confira nota na íntegra:

Mais Reforma Agrária e fim da criminalização do MST

Mais uma vez o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é vítima da criminalização por parte do aparato repressor do Estado Paranaense. A ação violenta batizada de “Castra” aconteceu na nessa sexta-feira (04/11/2016), no Paraná, em Quedas do Iguaçu; Francisco Beltrão e Laranjeiras do Sul; também em São Paulo e Mato Grosso do Sul.

O objetivo da operação é prender e criminalizar as lideranças dos Acampamentos Dom Tomás Balduíno e Herdeiros da Luta pela Terra, militantes assentados da região central do Paraná. Até o momento foram presos seis lideranças e estão a caça de outros trabalhadores, sob diversas acusações, inclusive organização criminosa.

Desde maio de 2014, aproximadamente 3 mil famílias acampadas, ocupam áreas griladas pela empresa Araupel. Essas áreas foram griladas e por isso declaradas pela Justiça Federal terras públicas, pertencentes à União que devem ser destinadas para a Reforma Agrária.

A empresa Araupel que se constitui em um poderoso império econômico e político, utilizando da grilagem de terras públicas, do uso constante da violência contra trabalhadores rurais e posseiros, muitas vezes atua em conluio com o aparato policial civil e militar, e tendo inclusive financiado campanhas políticas de autoridades públicas, tal como o chefe da Casa Civil do Governo Beto Richa, Valdir Rossoni.

Salientamos que essa ação faz parte da continuidade do processo histórico de perseguição e violência que o MST vem sofrendo em vários Estados e no Paraná. No dia 07 de abril de 2016, nas terras griladas pela Araupel, as famílias organizadas no Acampamento Dom Tomas Balduíno foram vítimas de uma emboscada realizada pela Policia Militar e por seguranças contratados pela Araupel. No ataque, onde foram disparados mais de 120 tiros, ocorreu a execução de Vilmar Bordim e Leomar Orback, e inúmeros feridos a bala. Nesse mesmo latifúndio em 1997 pistoleiros da Araupel assassinaram em outra embosca dois trabalhadores Sem Terra. Ambos os casos permanecem impunes.

Denunciamos a escalada da repressão contra a luta pela terra, onde predominam os interesses do agronegócio associado a violência do Estado de Exceção.

Lembramos que sempre atuamos de forma organizada e pacifica para que a Reforma Agrária avance. Reivindicamos que a terra cumpra a sua função social e que seja destinada para o assentamento das 10 mil famílias acampadas no Paraná.

Seguimos lutando pelos nossos direitos e nos somamos aos que lutam por educação, saúde, moradia, e mais direitos e mais democracia.

Lutar, construir Reforma Agrária Popular.

terça-feira, novembro 01, 2016

Fellini e o Brasil de 2016





Fellini: Infantilismo e Fascismo na Sociedade Italiana





“A melhor e
scola de
cinema é ver filmes”

Bernado Bertolucci
cineasta italiano 




Federico Fellini inovou ao aborda
r em seus filmes o movimento liderado por Benito Mussolini, destacando-o daquele capitaneadpor Adolf Hitler. Ao contrário de Roberto Rossellini e do neo-realismo em geral, Fellini nãotratou da guerra em si, da catástrofe. Em vários de seus filmes, insere elementos que mostram a profunda imbricação entre as noções fascistas e a visão de mundo italiana. Para Fellini, a relação entre facismo e cinema também está ligada ao caráter de espetáculo das aparições do primeiro. Mais uma das lições do regime italiano; embora o nazismo também tenha se destacado nesse particular, não podemos esquecer que o facismo precedeu seu correlato alemão em 10 anos.

“Em Os Palhaços (1970), o chefe da estação apela para um oficial fascista, a fim de calar a bagunça dos colegiais. Evidenciam-se, então, na análise de Fellini, tanto a raiz doméstica, quanto o objetivo pedagógico do fascismo, como instrumento de dominação, adequado a uma população infantilizada” (1). Em Roma de Fellini (Roma, 1971), o diretor insere uma locução num jornal cinematográfico, onde o fascismo é apresentado como algo autenticamente italiano. Em Amarcord (1973), há um entrelaçamento inovador de temas tradicionais do cinema italiano como o Fascismo, o amor e a família (2). Na opinião de Fellini, viver durante a vigência de um Estado repressor fez com que as pessoas não desenvolvessem sua individualidade, apenas defeitos patológicos. O Fascismo seria uma degenerescência a nível histórico de uma fase (a adolescência) do desenvolvimento individual. Ainda segundo o diretor, não podemos lutar contra essa infantilização facista se não a identificamos com nosso eu ignorante, miúdo e impulsivo. Os personagens de Amarcord são psicológico e emocionalmente fascistas: ignorantes, violentos, exibicionistas. Examinados individualmente, exibem apenas... 

“Manias, tiques inócuos: ainda assim, é o suficiente para os personagens se reunirem para uma ocasião como essa [a visita do federale], e lá, de excentricidades aparentemente inofensivas, suas manias adquirem um significado completamente diferente. A reunião de 21 de abril, assim como a passagem do Rex [o navio de Mussolini], a queima da grande fogueira no início [do filme], e assim por diante, são sempre ocasiões de total estupidez. O pretexto de estar junto é sempre um processo de nivelamento... É apenas o ritual que os mantêm juntos. Uma vez que nenhum personagem possui um senso real de responsabilidade individual, ou têm apenas belos sonhos, ninguém tem força para não tomar parte no ritual, permanecer em casa fora dele.”(...)”A província de Amarcord é aonde somos todos reconhecíveis, o diretor antes de tudo, na ignorância que nos confunde. Uma grande ignorância e uma grande confusão. Não que eu queira minimizar as causas econômicas e sociais do Fascismo. Eu apenas quero dizer que hoje o que ainda é mais interessante é a forma psicológica, emocional de ser um Fascista... É uma espécie de bloqueio, um desenvolvimento suspenso durante a fase da adolescência... A Itália, mentalmente, ainda é a mesma. Para dizer de outro modo, eu tenho a impressão de que Fascismo e adolescência continuam a ser, em certa medida, fases permanentes de nossas vidas: adolescência de nossas vidas individuais, Fascismo de nossa vida nacional” (3) 

Diferentemente de outros diretores italianos que trataram do Fascismo, Fellini adotou o ponto de vista cômico. Já foi observado que inicia seus filmes como testemunha de acusação e termina como testemunha de defesa, tratando o passado de forma nostálgica. O sucesso alcançado por Amarcord na Itália sugere uma identificação com essa forma de tratamento do tema. Os italianos identificaram a si próprios no único passado que eles e Fellini tiveram – a Itália de Mussolini era um país muito fechado para o mundo. “Por esse motivo, eram condenados a recordar esse passado com uma mistura de remorso e nostalgia, mas não conseguiam mudá-lo”. (4) 


Fellini definiu a visita do fascista (federale) como a sequência crucial em Amarcord. Ao contrário do que possa parecer aos que não conhecem os detalhes, a sátira não é
 apenas um exagero do estilo fascista personificado em Mussolini. Na verdade, Fellini se concentrou na figura do facista de carteirinha Achille Starace (1889-1945), o verdadeiro autor das coreografias de massa e comportamentos estapafúrdios que caracterizavam as aparições públicas dos líderes fascistas. A cena em que o federale corre pela cidade (e todos o seguem) era típica do comportamento oficial – acreditavam que isso evidenciava sua juventude, vitalidade e disciplina. Starace insistia em utilizar a saudação típica do antigo Império Romano. O passo de ganso germânico também era uma preferência, que ele identificava como o “passo Romano”. Ele frequentemente pulava sobre baionetas e cavalos para demonstrar sua força física e nunca andava a cavalo, sempre trotava (5). Quem já viu cenas de documentários sobre a Segunda Guerra Mundial deve ter reparado uma ou duas cenas onde Mussolini aparece sem camisa, com uma pá na mão cavando buracos; às vezes uma picareta – enquanto Hitler está sempre debaixo de um uniforme.

Segundo Fellini, o Fascismo era capaz de pegar pessoas perfeitamente normais na juventude e fazê-las se comportar de forma imprevisível e perigosa. Ele sempre se refere a “um estado regressivo adolescente”, não apenas em relação ao comportamento das massas, mas também em relação à repressão sexual. O Fascismo só tolerava o sexo no casamento ou com prostitutas – os bordéis eram regulados pelo Estado. Masturbação e homossexualismo não eram tolerados. A culpa acompanha o sexo na vida de Amarcord. Gradisca (imagem no início do artigo), o objeto de desejo de todos os homens da cidade, deixa clara a conexão entre uma moral sexual reprimida e o Regime Fascista, quando vai ao êxtase com a simples visão do federale desfilando aos trotes através da multidão. A vadia Volpina (imagem abaixo, à direita), a ninfomaníaca dacidade, vive solta pelas ruas. Fácil demais para os homens, talvez por isso a desprezem. No fim, talvez ela seja a única personagem que é de todos e de ninguém. 

Fellini mostra, em Roma de Fellini e Amarcord, como o fascismo, substituindo os pais na tarefa doméstica de criação dos filhos, impõe um adestramento das crianças. Decorrente dessa situação é a própria infantilização dos adultos. O Nazismo parece ter aprendido a lição, não esqueçamos da Juventude Hitlerista. No Nazismo, produziam-se filmes com o intuito específico de desqualificar a autoridade paterna e materna, indicando o Partido como o melhor educador e Hitler como único pai. Nas palavras de Fellini, “ainda hoje, o que mais me interessa é a maneira psicológica, emotiva de ser fascista: uma forma de bloqueio, algo como ficar preso à adolescência…” (6).


“Sobre os laços recíprocos do fascismo e da cultura italiana, diz Fellini: ‘O facismo fe
z parte de minha paisagem, desde cedo. Com todas as demais imposições, o pai, a mãe e o padre, que era também o hierarca [autoridade eclesiástica]. Por outro lado, naquela província romanhola [a região onde Fellini nasceu], um pouco estúpida e obscura, quem poderia imaginar que se pudesse viver de outro modo? (…) Não havia como imaginar que Nenni estivesse no exílio, e Gramsci, na prisão. Em cima da cátedra [a cadeira do mestre] estava essa espécie de espantalho, com a caçarola na cabeça [Mussolini de capacete]; do outro lado, o Rei, com um penacho de plumas, no meio, o Papa, e abaixo, pequeno, pequeno, o crucifixo. Esta era toda a realidade. Política e metafísica”. (7)

Leia também: 


Notas: 

1. MARTINS, Luiz Renato. Conflito e Interpretação em Fellini. São Paulo: Edusp, 1993. P. 71.
2. Idem, p. 68.
3. BONDANELLA, Peter. The Films of Federico Fellini. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. P. 128.
4. Idem, p. 130.
5. Ibidem.
6. MARTINS, Luiz Renato Op. Cit., p. 71, n.39.
7. Ibidem, p. 70, n.38. 

sexta-feira, outubro 14, 2016

As convicções e o fascismo

, por Mauro Santayana

por Mauro Santayana
Em seu site
(Revista do Brasil) - Os países, como as pessoas, precisam tomar cuidado com as suas convicções.
Convicções arraigadas, quando não nascem da informação, da razão, do conhecimento, costumam ser fruto do ódio, do preconceito e da ignorância.
Não é por acaso que entre as características do fascismo, a mais marcante está em colocar, furiosamente, a convicção acima da razão.
Foi por ter a forte convicção de que os judeus, os comunistas, os ciganos, os homossexuais, eram espécimes de diferentes raças sub-humanas, que os nazistas fizeram coisas extremamente "razoáveis", como guardar centenas, milhares de pênis e cérebros arrancados dos corpos de prisioneiros em vidros de formol, esquartejar pessoas para fazer sabão, adubar repolhos com cinzas de crematório, ou recortar e curtir pedaços de pele humana para colecionar tatuagens e fazer móveis e abajours, em um processo que começou justamente nos tribunais, com a gestação da jurisprudência racista e assassina das Leis de Nuremberg.
De tanta mentira, distorção,  hipocrisia, servidas - ou melhor, impostas, cotidianamente  - à população, nos últimos quatro anos, o Brasil tem se transformado, paulatinamente, em um país em que a realidade está sendo substituída por fantásticos  paradigmas, que são absorvidos e disseminados como as mais sagradas verdades, e adquirem rapidamente a condição de inabalável convicção na cabeça e nos corações de quem os adota, a priori, emocionalmente, sem checar, minimamente, sua veracidade ou sustentação.
Senão, vejamos:
Muitíssimas pessoas, no Brasil de hoje, têm convicção de que o PT quebrou o país.
Assim como têm convicção de que o Governo do Sr. Fernando Henrique Cardoso foi um tremendo sucesso do ponto de vista econômico, certo?
Errado.
Os números oficiais do Banco Mundial provam que o PIB  e a Renda per Capita em dólares recuaram no Governo do Sr. Fernando Henrique Cardoso, com relação ao de Itamar Franco (de 534 para 504 bilhões e de 3.426 para 2.810 dólares), e aumentaram mais de 300% no governo do PT, de 504 bilhões para 2.4 trilhões de dólares, e de 2.810 para 11.208 dólares, entre 2002 e 2014; com o salário mínimo subindo também mais de 300% em moeda norte-americana nesse período, de  88 para 308 dólares no ano passado, com um dólar nominal mais ou menos equivalente, que chegou a 4,00 reais tanto em 2002 como em 2015.
A queda atual da economia é um ponto fora de curva que irá se recuperar, mais cedo do que tarde, se não forem adotadas medidas recessivas, que mandem, mais uma vez, a vaca para o brejo. 
A maioria das pessoas - incluídos ministros do atual governo, que exageram os problemas,  para vender a sua "competência" e seus projetos, muitos deles ligados, direta e indiretamente à iniciativa privada - têm convicção que o Brasil está endividado até o pescoço, certo?
Errado.
Nona economia do mundo em 2016 - éramos a décima-quarta em 2002 - o Brasil ocupa, apenas, o quadragésimo lugar entre os países mais endividados do planeta.
Temos uma Dívida Pública Bruta com relação ao PIB (66%) mais baixa que a que tinhamos em 2002 (80%); e menor que a dos EUA (104%), Zona do Euro (Europa) (90%), Japão (220%), Alemanha (71.20%),  Inglaterra (89.20%), França (96,10%), Itália (132.70%), Canadá (91.50%).
Além de possuirmos mais reservas internacionais (370 bilhões de dólares) que qualquer uma dessas nações e de não estar devendo - somos credores do FMI - um centavo para o Fundo Monetário Internacional.
E, mesmo assim, ninguém fica fazendo, nesses países que citamos, o mesmo carnaval - verdadeiro massacre - que se faz aqui, com relação à questão da dívida pública.
Uma grande pilantragem midiática que ajuda a justificar, entre outras coisas, o absurdo teto de despesas públicas proposto pelo atual governo - que não existe em nenhum país desenvolvido e irá engessar e tolher o desenvolvimento nacional nos próximos 20 anos -   os juros pornográficos        que a nação paga, a cada 12  meses, aos bancos, e a privatização e entrega de empresas estatais brasileiras a países estrangeiros.
Muitas pessoas também aparentam ter desenvolvido a convicção, no Brasil de hoje, de que o PT é um partido que é contra as Forças Armadas, bolivariano e comunista, certo?
Errado.
O PT sempre trabalhou com o tripé capital estatal, capital privado nacional e capital estrangeiro,  e apoiou - a ponto de estar sendo execrado por isso - as maiores empresas privadas do país, e não apenas as de controle brasileiro - expandindo para elas o crédito subsidiado do BNDES, aumentando a oferta de crédito na economia, melhorando a situação do varejo e da indústria, fomentando a indústria automobilística, triplicando a produção e as vendas de caminhões, automóveis e equipamentos agrícolas, com linhas especiais de financiamento, e fortalecendo o agronegócio injetando bilhões de reais no Plano Safra, duplicando, praticamente, a colheita de grãos depois que chegou ao poder, sem atrapalhar o mercado financeiro, que teve forte expansão após 2002.
E, na área bélica, prestigiou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, lançando e bancando, por meio da adoção da Estratégia Nacional de Defesa, o maior programa de rearmamento das Forças Armadas na história brasileira.
Nem nos governos militares ousou-se investir, ao mesmo tempo, em tantos projetos estratégicos como se fez nos últimos anos, como é o caso do programa de construção de 36 caças-bombardeiros com a Suécia.
Ou o do submarino atômico - além de outros quatro, convencionais - como se está fazendo  em Itaguaí, no Rio de Janeiro, com parceria francesa.
Ou o da construção de mais de mil blindados multipropósito Guarani, em um único contrato, com a IVECO, com design e projeto de engenheiros do Exército Brasileiro.
Ou o do maior avião já construído no Brasil, o KC-390 da EMBRAER, produzido para substituir os Hércules C-130 norte-americanos, capaz de realizar missões também múltiplas, como o transporte de paraquedistas e blindados e o reabastecimento de outras aeronaves em voo.
Para não falar da família de radares SABER, dos novos mísseis da AVIBRAS, do programa Astros 2020, da nova família de rifles de assalto IA-2 da IMBEL, capaz de disparar 600 tiros por minuto, e de outros projetos como o do míssil ar-ar A-Darter desenvolvido por uma subsidiária da Odebrecht, com a Denel, sul-africana.
Da mesma forma, muitíssimas pessoas têm convicção,  nos dias de hoje, que o PT é o partido mais corrupto do Brasil, certo?
Errado.
Em ranking publicado pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral em 2012 - que, estranhamente, parou de publicar rankings anuais por partido depois disso - o PT aparece apenas em nono lugar, em uma lista encabeçada pelo DEM.
Na lista de 50 políticos investigados na Lava Jato que estão com processos no STF, cuja maioria pertence ao PP, só 6 nomes são do PT, e do total de 252 candidatos impugnados por serem ficha-suja nas eleições de 2014, por exemplo, apenas 20 são do Partido dos Trabalhadores.
Dados que não mudam em nada o fato de que o discurso anticorrupção, no Brasil de hoje, só existe na proporção que ocorre, porque pertence e serve, como bandeira, desde o início - na tradição golpista da UDN - à direita e à extrema direita em nosso país.
A esquerda, que costuma cair com facilidade nessa esparrela moral dos imorais, principalmente quando pretende utilizá-la, como seus adversários o fazem, como arma política, precisa tratar de outros temas, sem deixar - prudentemente - de colocar suas barbas de molho.
Como, por exemplo, o futuro do projeto nacional-desenvolvimentista brasileiro, com foco, principalmente, nas áreas social, científica, da educação, da indústria bélica, naval e de petróleo e de infraestrutura.
Ou a defesa da Democracia, do Estado de Direito e da Soberania Nacional, em tempos de risco - quase certeza, a depender do avanço da imbecilidade vigente -  de inserção subalterna do país em um processo de globalização que não deixará outras opções, a não ser o fortalecimento ou a capitulação. 
Tudo isso, no contexto do urgente estabelecimento de uma aliança que permita manter a estabilidade da República e evitar a vitória da Antipolítica com a ascensão do fascismo - em aliança com partidos conservadores tradicionais - à presidência da República em 2018.
É nesse país ridículo, mal informado, rasteiramente manipulado, por segmentos da mídia mendazes e deturpadores, que alguns procuradores do Ministério Público Federal vieram a público, há alguns dias, para dizer que tem "convicção" de que o ex-presidente Lula é o Chefe Supremo, o "Capo di tutti capi"   da corrupção nacional, neste Brasil "casto" e "ilibado", nunca dantes atingido - como diziam no Caso do "Mensalão", estão lembrados? - por semelhante tsunami antiético.
Que ele, que nunca teve contas no exterior, como, digamos, Eduardo Cunha ou Maluf, teria recebido "virtualmente", para o padrão de consumo de nossa impoluta elite, acostumada a apartamentos em Paris, Miami e Higienópolis, um modesto apartamento de 215 metros quadrados, de cooperativa - no qual nunca dormiu e do qual não sem tem notícia de escritura em seu nome.
Além de um sitiozinho mambembe, até mesmo para o gosto de nossa pseudo classe média paneleira, que também não está em seu nome.
E de uma ajuda para a guarda de seus documentos presidenciais - de inestimável valor histórico, por abarcarem oito anos de história nacional - tudo isso apresentado como a parte do leão, do "Pai", do "Comandante", de um suposto esquema de propina que o mesmo MPF afirma - ainda sem provas cabais - ter movimentado a extraordinária soma de 42 bilhões de reais em desvios da Petrobras (antes eram 6 bilhões, segundo "impecável" "auditoria" da "competentíssima", jamais multada, "honestíssima", "imparcialíssima", consultoria norte-americana Price Watherhouse).
Cinismo por cinismo, poderíamos dizer que, na hipótese, difícil de provar, que tivesse recebido os alegados 3.7 milhões em propina pelos quais foi acusado, em um negócio de mais de 40 bilhões, Lula seria o mais "ingênuo" senão um dos mais "modestos", políticos brasileiros, considerando-se a quantidade de empregos, negócios, projetos, obras, programas, que ajudou a proporcionar à economia nacional nos anos em que esteve à frente da Presidência da República.
E o PT, que teria pedido apenas miseráveis 5 milhões de reais para pagar contas atrasadas devidas a publicitários, em um  contrato de aproximadamente 1 bilhão de dólares para a construção de duas plataformas de petróleo pela empresa do Senhor Eike Batista - um sujeito que resolveu depor "espontaneamente", depois de ter recebido bilhões do BNDES, durante anos, em apoio às suas empresas falidas - teria sido, diante das franciscanas proporções da solicitação, de uma tacanhice digna de fazer corar outras legendas e personagens do espectro político nacional.
Ora, nos poupem.
Ninguém está aqui para santificar o Partido dos Trabalhadores ou o Sr Luís Inácio Lula da Silva, que, se tiver cometido algum crime, deve purgá-lo - respeitada sua condição de réu primário - na mesma proporção de seus erros.
O que nos indigna e nos tira do sério, trabalhando na área em que trabalhamos, é a desfaçatez, a caradurice, a hipocrisia institucionalizada, com que estão tratando a verdade,  a maior vítima desse atual "surto" de "convicções" brasileiro. 
Não nos venham com estórias da Carochinha  e mirabolantes apresentações que vão ridicularizar, pelo exagero, ausência de lógica, de proporcionalidade, razoabilidade e verossimilhança - como já mostram as matérias e editoriais dos jornais estrangeiros - o Ministério Público e o Judiciário brasileiros junto à opinião pública internacional.
Correndo o risco, seus "convictos" acusadores, de verem o tiro sair pela culatra, transformando Lula em uma espécie de símbolo, ou de herói, se for impedido de concorrer à presidência da República.
Ou em um mártir - caso alguma coisa ocorra a ele, eventualmente, na prisão - para boa parte do planeta.