sábado, abril 18, 2015

Claro que quem consegue eleger o presidente da República por 4 vezes seguidas, tem condições de montar o maior jornal de circulação nacional!”



A batalha da comunicação
e as perspectivas para o segundo mandato
17/4/2015, Beto Almeida, entrevista a Rennan Martins, Vila Velha, Blog Desenvolvimentistas (dica de Francisco das Chagas Leite Filho. OBRIGADO!)

“Aqui, a única possibilidade é o jornalismo impresso, que poderia e deveria ter sido impulsionado com força pela esquerda, a exemplo do que fez a esquerda na Grécia, que, em apenas um ano e meio, fundou um Jornal Popular Cooperativo, que já se tornou, rapidamente, a publicação de maior circulação em Atenas. (...)

O projeto liderado por Lula e Dilma teve 56 milhões de votos, o PT tem aproximadamente 2 milhões de filiados, como, então não se poderia fazer um jornal sustentável com 1 milhão de exemplares?! A Folha Universal do Reino de Deus tem tiragem de aproximadamente 2 milhões de exemplares. O que houve foi ilusão de que a mídia-empresa daria espaço para a esquerda.

(...) Claro que quem consegue eleger o presidente da República por 4 vezes seguidas, tem condições de montar o maior jornal de circulação nacional!”
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As últimas eleições e o clima político ainda deflagrado no país evidenciam o quanto a comunicação é crucial para o desenrolar saudável de uma democracia. A atuação cartelizada e o comportamento partidário da imprensa-empresa no Brasil produz sérias distorções que num ambiente extremado dá espaço a soluções antidemocráticas, que desrespeitam o Estado de Direito tão duramente conquistado no fim do século passado.

A renovação ocorrida no Ministério das Comunicações e na Secretaria de Comunicação da Presidência abre a possibilidade de uma discussão sobre mudanças na política governamental que visem a fortalecer o debate plural na sociedade. O tema é urgente, dada a ofensiva da grande mídia-empresa que impõe sua agenda e quer garantia de que as verbas publicitárias estatais serão somente dela, ad infinitum.

Para abordar com propriedade esse debate o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Beto Almeida, jornalista e conselheiro da rede de TV multiestatal Telesur. Beto constata um ambiente desfavorável para regulamentação entre os parlamentares. Indica medidas executivas, que independem dos congressistas, com potencial de democratizar a imprensa e questiona arduamente qual a razão do PT não possuir um jornal de massas.

Confira a íntegra:

O atual ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, assumiu a pasta com o entusiasmo dos movimentos sociais. Até agora sua gestão correspondeu as expectativas? Qual é a linha de atuação do ministro?

Beto Almeida: O entusiasmo do Ministro Berzoini com a regulamentação democrática da mídia não significa que ele tenha condições de alterar a situação adversa que está instalada no Congresso. O ex-ministro, Paulo Bernardo, além de ter engavetado as Teses da Confecon, chegou a afirmar que os petistas queriam censura, por pretenderem a regulamentação midiática, além de ter ido ao Congresso da ABERT para defender, entre outras coisas, a flexibilização da Voz do Brasil, causa preciosa para a patronal midiática. Seguramente, Berzoini vai trabalhar noutra direção, além de voltar a dar prioridade à Telebrás como empresa pública e à expansão da banda larga via presença da estatal, o que o ministro anterior, por razões óbvias, desprezou.

Creio que o Ministro Berzoini, muito embora não possa alterar o travamento da democratização da mídia no Congresso, tem muito o que fazer de modo operativo. Pode alterar, via portaria, sem depender do Congresso portanto, os critérios para a distribuição da publicidade institucional, deixando de discriminar a comunicação comunitária, universitária e educativa. Pode, ademais, acelerar o processo de implantação da TV digital em sinal aberto, incluindo TV’s comunitárias e universitárias. Isso é concreto, não passa pelo Congresso, está no plano de decisão do Executivo. Pode, além disso, assumir posição clara em defesa da Voz do Brasil, noticiário radiofônico efetivo, amplo, plural, democrático, que, na prática, é uma regulamentação midiática em favor da diversidade informativa. E utilizá-la, dentro da lei, de modo mais adequado para informar sobre aquilo que diz respeito à vida dos cidadãos, pois é um noticiário de estupenda capacidade de comunicação popular!

Quais as principais propostas dos movimentos ligados a Comunicação Social? Que críticas fazem em relação ao atual modelo de imprensa?

Beto Almeida: Os movimentos sociais criticam, corretamente, a postura fascistóide dos meios de comunicação comerciais. Entretanto, por não ter sido construída nos 12 anos uma correlação de forças em favor da democratização da mídia, por ausência de iniciativas tanto do governo como do PT, os movimentos sociais não podem apenas apostar todas as fichas na Lei da Regulamentação da Comunicação, pois o Congresso é, atualmente, largamente desfavorável. Há apenas um efeito pedagógico, mas de concreto, não se avança. Para se ter uma ideia: até mesmo segmentos das esquerdas abraçaram a tese da flexibilização da Voz do Brasil proposta pela Abert.

As críticas são justas, pela concentração, pelo elitismo, pelo antinacionalismo, pelo seu caráter antipatriótico, alienante, consumista, aberrante, embrutecedor etc. Mas, não há até o momento uma consciência clara de que as esquerdas podem e devem fortalecer as TV’s e rádios comunitárias. Há exemplos importantes neste sentido, mas, a esquerda e o movimento sindical podem ocupar e fortalecer muito mais as TVs comunitárias, chegando a milhares e milhares de brasileiros com suas mensagens.

Porque a imprensa-empresa praticamente opera numa só direção? Qual a origem desse discurso único?

Beto Almeida: Há algo intocável em história: a luta de classes! Muitos setores de esquerda se iludiram pensando que já não existiria a luta de classes. Deixaram, com isto, de aproveitar oportunidades políticas para construir uma mídia própria, acreditando que, quando necessário, conseguiriam espaços cedidos pela mídia-empresa. Eis que esta mídia cada dia é mais fascistizante, mais raivosa contra a democracia, contra os partidos de esquerda, os sindicatos. A origem deste discurso é que quando a burguesia percebe que não pode mais deixar governos populares governando, ela adota o discurso do golpe. Isso é luta de classes.

Não há nenhuma chance de esta mídia-empresa tornar-se plural, democrática, diversificada.

Por não saber disso, e acreditar que alguma empresa-mídia algum dia cederá parte de seus lucros para democratizar-se, a esquerda brasileira hoje está desarmada de mídia própria, sob um dilúvio tremendo de mentiras e ataques, e não tem sequer um panfletinho para responder. Esse tipo de ilusão sempre custa muito caro, no longo da história!

Porque o governo é tão imóvel quanto às medidas que democratizam a imprensa? Como explicar essa paralisia?

Beto Almeida: Medo. Combinado, agora, com falta de maioria parlamentar para mudar a Constituição. Mas, há iniciativas que não requerem mudanças constitucionais. Democratizem a distribuição da publicidade institucional alcançando também as mídias comunitárias, universitárias, sindicais, populares. Parem de reprimir o movimento de rádios comunitárias, pois no governo Lula houve uma onda de repressão, apreensão e destruição de equipamentos de rádios comunitárias, o que não está previsto na lei, que prevê apenas a interdição dos equipamentos. O governo deve indenizar o movimento de rádios comunitárias por estes atos ilegais.

Que medidas práticas e concretas desejáveis dependem somente de Berzoini para implementação?

Beto Almeida: Reforçando o já proposto. Por meio de portaria o governo pode fortalecer outros segmentos de mídia que, até hoje, estiveram preteridos na distribuição de publicidade institucional. Enquanto a Revista Veja já chegou a receber, numa única edição, 14 páginas de propaganda da Petrobrás, alvo predileto de seus ataques, as TVs comunitárias estão preteridas, discriminadas, ignoradas, não recebem sequer uma página de publicidade em 12 anos.

Quanto ao novo secretário de comunicação da presidência, Edinho Silva. Que esperar de sua gestão? Acredita que ele atenderá as reivindicações dos movimentos ligados a comunicação?

Beto Almeida: Creio que o discurso da presidenta Dilma sobre liberdade de expressão é uma rendição ante um monumental processo de descumprimento da legislação pelos detentores de concessões públicas de comunicação. Chegam a suspender a grade de programação para convocar manifestações que professam a derrubada injustificada do governo e, inclusive, um golpe militar! E estes concessionários seguem recebendo publicidade institucional. É um absurdo. Dilma nunca deu uma entrevista, uma, que fosse, a uma TV comunitária. Mas, sancionou lei que veda o acesso das TVs comunitárias à publicidade. Como deve sobreviver este setor reconhecido legalmente pelo estado, mas preterido e discriminado por não ter o mesmo acesso à publicidade?

Como se dá atualmente o investimento das verbas publicitárias estatais? Quais são os critérios utilizados?

Beto Almeida: Os critérios devem ser pautados pela distribuição democrática, alcançando a todos os setores midiáticos envolvidos. Se apenas empresas já muito fortes recebem a maior fatia da verba publicitária, isto significará concentração, o que implica uma espécie de cartelização e até mesmo prática de oligopólio e monopólio, proibidos por lei.

No que consiste a regulamentação da mídia? Na sua opinião, em que sentido deveria se dar essa proposta?

Beto Almeida: Consiste em democratizar o uso do espaço público radioelétrico, impedindo que seja privatizado por grupos poderosos e oligopólios. Na Venezuela, na Argentina, no Equador, na Bolívia, o espectro eletromagnético é distribuído entre 3 modalidades de organização midiática. Um terço para o Estado, um terço para os empresários e um terço para os setores sociais e comunitários. Isso sim é democracia e pluralidade, como reza a Constituição Brasileira, também. Aqui no Brasil, em 12 anos de governo com o PT à frente, apenas uma concessão de TV, a da TVT, foi efetivada de fato. Aqui, a única possibilidade é o jornalismo impresso, que poderia e deveria ter sido impulsionado com força pela esquerda, a exemplo do que fez a esquerda na Grécia, que, em apenas um ano e meio, fundou um Jornal Popular Cooperativo, que já se tornou, rapidamente, na publicação de maior circulação em Atenas. Exemplo a ser seguido.

Aqui, o PT, sequer tem um jornal, uma mídia própria de massas. E quem consegue eleger o presidente da república por 4 vezes seguidas, tem condições de montar o maior jornal de circulação nacional! Hoje o PT está sendo esquartejado em praça pública, midiaticamente falando, e não tem sequer um jornal impresso de massas para se defender! É plenamente viável um jornal de ampla circulação, autossustentável, para defender, como linha editorial, a legalidade democrática e tudo o que foi conquistado nos últimos 12 anos.

Esse projeto liderado por Lula e Dilma teve 56 milhões de votos, o PT tem aproximadamente 2 milhões de filiados, como, então não se pode fazer um jornal sustentável com 1 milhão de exemplares?! A Folha Universal do Reino de Deus tem tiragem de aproximadamente 2 milhões de exemplares. O que houve foi ilusão de que a mídia-empresa daria espaço para a esquerda, mas ela está pregando é o discurso golpista, aliás, como fez em 1954 e 1964.

Por que essa bandeira é tão pouco compreendida pela sociedade de forma geral? Como devemos agir pra que a mensagem chegue aos leigos?

Beto Almeida: Há uma deliberada confusão feita pelos magnatas da mídia, associando regulamentação a censura. Como não existe o contraditório, há apenas esta opinião circulando. Houve um tempo em que se dizia que cigarro não fazia mal, porque não havia o contraditório. Hoje, circulam amplamente informações sobre o malefício do cigarro. Mas, não se permite conhecer o modelo de mídia da Argentina, da Bolívia, onde comunidades indígenas acessam uma rede nacional de rádios indígenas. Regulamentação é como um sistema de sinais de trânsito. Ele organiza a circulação de veículos, parando o fluxo de uma avenida super movimentada, para que, periodicamente, também circulem os veículos das ruas de menor movimentação. Sem sinais de trânsito, tudo seria um caos, as avenidas de grande fluxo esmagariam as ruas de menor trânsito e haveria desordem, indisciplina, um caos. Na comunicação, também é necessário ter regras para que transitem pelo espaço eletromagnético todos os sinais representativos da pluralidade e da diversidade democrática da sociedade.

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sexta-feira, abril 10, 2015

Impeachment, golpe de Estado e ditadura de mercado


abril 09, 2015 
Ex-ministro de Lula e Secretário-Geral do Itamaraty, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, outro arquiteto da política externa independente, adverte neste artigo para a manobra política cujos objetivos são pela ordem:
– fazer o Governo adotar o programa econômico e social do “mercado”, isto é, da minoria multimilionária e de seus “associados” externos;
– ocupar os cargos da administração pública (Ministérios, Secretarias executivas, agências reguladoras) com representantes do “mercado”;
– enfraquecer política e economicamente o Governo;
– enfraquecer o PT e os partidos progressistas com vistas a 2018;
– aprovar leis de interesse do “mercado”;
– e, se nada disso ocorrer, fazer o Governo “sangrar” e aí, então, se necessário e possível, exigir o impeachment da Presidenta.
Por Samuel Pinheiro Guimarães, no site Carta Maior
O impeachment é a tentativa de anular, por via legislativa, pelo voto de 513 deputados e 81 senadores, os resultados das eleições de novembro de 2014 que refletiram a vontade da maioria do povo brasileiro ao reeleger a Presidenta Dilma Rousseff, por 53 milhões de votos.
Desde 2003, as televisões, em especial a TV Globo; os maiores jornais, como o Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo e o Globo; e as principais revistas, quais sejam a Veja, Isto É e Época, se empenham em uma campanha sistemática para desmoralizar o Partido dos Trabalhadores e os partidos progressistas e para tentar “provar” a ineficiência, o descalabro e a corrupção dos Governos do PT, inclusive de seus programas sociais, que retiraram 40 milhões de brasileiros da miséria e da pobreza.
Agora, com a ajuda de membros do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, os meios de comunicação, tendo seu candidato perdido as eleições, tentam criar um clima político e de opinião que venha a derrubar ou imobilizar a Presidenta e, assim, anular a vontade da maioria do povo brasileiro.
Fazem isto divulgando dia a dia as declarações de delatores, criminosos confessos, e de procuradores, policiais e juízes que as “vazam”, seletivamente, para os meios de comunicação, cometendo notória ilegalidade, e publicando notícias sobre o extraordinário descalabro e corrupção em que viveria o país.
Diante da instabilidade política gerada por esta campanha, a Presidenta Dilma, com o objetivo de conter as manobras golpistas (recontagem de votos, acusações de fraude, ameaças diversas, etc.) e de apaziguar o “mercado”, anunciou um programa de austeridade, de equilíbrio orçamentário, de contração de gastos do Estado, de redução de investimentos, na esperança de conquistar a “confiança dos investidores”, seu principal objetivo, e de “acalmar” seus opositores políticos.
É preciso notar que o “mercado” não é uma entidade da sociedade civil, mas sim, na realidade, um ínfimo grupo de multimilionários, investidores, especuladores e rentistas, e seus “funcionários”, quais sejam os chamados economistas-chefe de bancos e fundos, os jornalistas e articulistas de economia, e seus associados no exterior.
Há economistas e jornalistas que são notável exceção a esta afirmação, mas são eles pequena minoria.
Quando foi apresentado o programa de ajuste, declarou-se, com ênfase, que ele não iria afetar as conquistas dos trabalhadores (a legislação sobre horário de trabalho, férias, aposentadoria, seguro desemprego etc.), nem os programas sociais, mas que iria ele equilibrar o orçamento através do contingenciamento, da contenção de despesas e do aumento de impostos, com o objetivo de fazer um superávit primário que permitisse pagar os juros da dívida pública e conquistar a “confiança do mercado, a confiança dos investidores”.
Conquistar a “confiança dos investidores” significa fazer com que tomem a decisão de realizar investimentos (para obter lucros) e assim ampliar a capacidade instalada, gerar empregos, condição para a retomada do desenvolvimento.
A “confiança dos investidores”, todavia, tem a ver com a expansão da demanda, pois só com essa expansão (sustentada) podem surgir oportunidades de investimentos lucrativos.
A construção de “confiança” e a realização de investimentos são improváveis em uma conjuntura em que se elevam os juros dos títulos públicos e das aplicações financeiras para torná-los os mais altos do mundo, o que atrai os capitais para o setor financeiro, especulativo ou rentista, e os afasta do setor produtivo e, portanto, dos investimentos.
Outros fatores que afetam negativamente a “confiança” dos investidores são a competição predatória e destrutiva das importações; taxas cambiais inadequadas; a redução dos investimentos públicos em infraestrutura; o aumento das taxas de juros dos financiamentos de longo prazo do BNDES; a redução da demanda e o aumento do desemprego (que alguns esperam poderia criar as condições políticas para um clima favorável ao impeachment) devido à redução da atividade econômica.
Há um mantra, repetido sem cessar, sobre competitividade e produtividade, entoado por muitas autoridades públicas, acadêmicos, jornalistas “especializados”, economistas-chefe de consultoras, de empresas, de bancos, que são, na realidade, empregados do “mercado”.
Segundo esses “especialistas”, a solução dos problemas internos, isto é a retomada do crescimento, e o afastamento para longe da crise externa latente e cada vez mais ameaçadora, dependeriam não somente da “confiança dos investidores” nas também do aumento da produtividade (isto é, da produção por trabalhador) e do aumento da competitividade das empresas brasileiras diante das chinesas, americanas e europeias, e da redução do “Custo Brasil”.
No caso da produtividade, alguns afirmam que seu aumento resultaria de um grande investimento sustentado em educação, como teriam, segundo argumentam, feito os países desenvolvidos, tais como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Coréia e que teria sido, segundo eles, uma razão importante, e talvez a principal, para explicar o seu desenvolvimento.
Os paladinos da educação defendem a educação primária geral, a atenção especial à primeira infância, a inclusão de todas as crianças e jovens (e os adultos?) no sistema. Não se fala muito na preparação de professores nem no horário integral nem nos efeitos, negativos, da televisão e da internet sobre o sistema de ensino em seu cerne, que é o tempo dedicado aos estudos pelos jovens. Pode-se perguntar quando estes brasileiros, hoje infantes e jovens, entrariam no mercado de trabalho para tornar a mão de obra mais produtiva e o Brasil mais competitivo: daqui a 10 anos? Daqui a 15? E até lá?
Outros argumentam que os “custos do trabalho” (parte do “Custo Brasil”) seriam muito elevados (em comparação com os “custos” em que países? Na China? Nos Estados Unidos? Na Alemanha?) e que, portanto, seria necessário reduzir esses “custos”, impedindo aumentos “artificiais” do salário mínimo (já que não haveria escassez de mão de obra), reduzindo os benefícios da legislação trabalhista, estimulando a rotatividade da mão de obra, etc.
Quanto ao “Custo Brasil”, argumentam com os altos custos de transporte e de energia, com a carga tributária elevada, com a multiplicidade de impostos, com a burocracia “infernal”.
Reclamam, também, da intervenção “excessiva” do Estado (empresas estatais e regulamentação) e pedem, ainda que até agora apenas insinuem, a privatização dessas empresas e a “desburocratização”, isto é, menos lei e mais liberdade para o capital.
Segundo os defensores do programa de austeridade, em decorrência do aumento da produtividade interna, a competitividade internacional seria alcançada, com todas as suas vantagens, tais como um superávit comercial estável, a diversificação dos mercados e o aumento das exportações de manufaturados.
Assim, a crise atual seria superada. Todavia, a verdade é outra.
A crise atual, em parte verdadeira e em parte fabricada, decorre da revolta conservadora devido ao fato de a Presidenta Dilma ter cometido dois “pecados mortais” à luz dos interesses do “mercado”, isto é, daqueles indivíduos beneficiários da concentração de riqueza, de renda e de poder político no Brasil, que são os grandes multimilionários, os latifundiários rurais e urbanos, os rentistas, os banqueiros, e seus representantes na mídia, no Congresso, no Judiciário.
O primeiro “pecado” foi a política de redução, ainda que temporária, das taxas de juros; o segundo “pecado” foi o apoio, ainda que tímido, à democratização dos meios de comunicação.
O sistema financeiro e bancário é o principal instrumento de concentração de riqueza no Brasil. Ao reduzir as taxas de juros dos bancos públicos e ao forçar a redução dos juros dos bancos privados (que foi logo compensada pelo aumento das “taxas” de administração) a Presidenta diminuiu a transferência de riqueza da sociedade e do Estado para os bancos privados, seus acionistas e os detentores de títulos públicos. A Presidenta atingiu o cerne do mecanismo de concentração do sistema econômico e provocou a ira dos setores conservadores que hoje pedem a privatização dos bancos públicos.
O sistema de comunicações no Brasil é o instrumento das classes dominantes para construir o imaginário do povo, para manipular as informações e para justificar o sistema econômico e social vigente e desmoralizar aqueles que lutam por mais igualdade, mais liberdade, mais fraternidade e pelos direitos das minorias, em um contexto de desenvolvimento.
A concentração do poder midiático “condena” os que ele acusa ao difundir e repetir incansavelmente “informações” antes de julgamentos e transformou o mensalão em julgamento prévio contra o qual não soube resistir o STF ao aceitar a conduta imprópria de seu Presidente da época e a campanha de imprensa.
O mesmo ocorre com a operação Lava Jato. Não há nenhuma iniciativa do Poder Judiciário para impedir a formação de uma opinião pública contra os acusados, gerada pelas denúncias, sem provas, feitas por criminosos confessos que denunciam a torto e a direito quando, no caso dos procedimentos de delação premiada, as investigações deveriam ser feitas sob o maior sigilo, já que se trata de denúncias feitas por criminosos em busca de vantagens pessoais. A mídia transformou o pedido da Procuradoria Geral da República de investigar determinados indivíduos em prova de sua culpa. Aqueles indivíduos, políticos ou não, que vierem a ser investigados e julgados culpados devem ser punidos com rigor, mas a imprensa não pode substituir o Poder Judiciário nem constrânge-lo, por motivos puramente políticos.
Ao ameaçar aqueles dois fundamentos da ordem conservadora, o sistema financeiro e a mídia, a Presidenta Dilma se tornou “culpada” e a oposição insiste, ainda veladamente, em que deve ser punida pela destituição do cargo por um processo de impeachment.
Seria importante que o Governo compreendesse que o que está de fato ocorrendo é uma manobra política cujos objetivos são pela ordem:
– fazer o Governo adotar o programa econômico e social do “mercado”, isto é, da minoria multimilionária e de seus “associados” externos;
– ocupar os cargos da administração pública (Ministérios, Secretarias executivas, agências reguladoras) com representantes do “mercado”;
– enfraquecer política e economicamente o Governo;
– enfraquecer o PT e os partidos progressistas com vistas a 2018;
– aprovar leis de interesse do “mercado”;
– e, se nada disso ocorrer, fazer o Governo “sangrar” e aí, então, se necessário e possível, exigir o impeachment da Presidenta.
Contra esta enorme e múltipla ofensiva econômica, midiática e política do “mercado”, de seus “funcionários” e representantes somente há uma estratégia possível: a ação política intensa junto aos movimentos populares, junto às organizações da sociedade civil, junto ao Congresso, junto à Administração Pública e aos Governadores, enfim, a mobilização da sociedade pelo seu esclarecimento para a defesa da democracia em toda sua integridade.
É indispensável que, na distribuição de suas verbas de publicidade, o Governo leve em consideração a existência de televisões comunitárias, universitárias, educativas, de rádios comunitárias, de blogs e sites, e dos pequenos e médios jornais e emissoras regionais e deixe de concentrar a distribuição de verbas e anúncios apenas na grande mídia, o que fortalece os oligolipólios que atuam de forma ostensivamente partidária e contra a maioria do povo, estimulando antagonismos violentos e radicalizando a sociedade.
As manifestações populares contra o Governo e contra a Presidenta Dilma têm reunido cidadãos que, em sua maioria, votaram contra a reeleição da Presidenta em 2014.
Hoje, insuflados pela mídia e por organizações de identificação e origem nebulosa, através das redes sociais, inconformados com a derrota e a pretexto da denúncia de corrupção, iniciam o processo político de “Fora Dilma”, que é, de fato, uma campanha pró-impeachment.
O impeachment é o golpe de Estado do “mercado”. Aqueles que defendem hoje o impeachment e criam o clima de instabilidade e de radicalização são os mesmos golpistas históricos de 1954 e de 1964: as classes privilegiadas que temem o progresso e os resultados da democracia e não os aceitam, apesar de ter o Brasil uma concentração de renda que se encontra entre as dez piores do mundo, enquanto seu PIB é um dos dez maiores do mundo, e de ser urgente deter o processo de concentração de renda (que a crise acentua) para que seja possível construir uma sociedade mais justa, mais democrática, mais próspera, mais estável.
Para que este objetivo possa ser alcançado, é preciso que a sociedade brasileira não se submeta à ditadura do “mercado”, cujos integrantes tem sido os grandes beneficiários da crise, que se iniciou em 2008 e não apresenta sinais sólidos de fim.


Celso Amorim exorta intelectuais a ir às ruas


abril 09, 2015 
Em dramático artigo na Carta Maior, o ex-chanceler Celso Amorim, exorta os intelectuais a irem às ruas para defender a política externa independente, ameaçada, segundo ele, pela nova ofensiva neoliberal para ressuscitar a ALCA. Fugindo a seu estilo normalmente moderado e cauteloso, Amorim, o chanceler de Lula e ministro da Defesa de Dilma, cuja permanência à frente do Itamraty superou até mesmo o emblemático Barão do Rio Branco, alerta: “Intelectuais progressistas, preparai-vos para o debate”. Ele vai ser duro e não se dará somente nos salões acadêmicos ou nos corredores palacianos. Terá que ir às ruas, às praças e às portas de fábrica”.
Vejam abaixo a íntegra do artigo:
As Hienas e os Vira-Latas
Por Celso Amorim
Aproveitando o momento de vulnerabilidade política e econômica do nosso país, os defensores de uma integração dependente do Brasil na economia internacional estão lançando uma nova ofensiva, facilitada pelas agruras do ajuste fiscal, com queda nos investimentos governamentais e o descrédito – convenientemente estimulado – das empresas estatais, na esteira do escândalo da Petrobrás. Em vez de atacar a raiz desses ilícitos, que é o financiamento empresarial das campanhas eleitorais (o que não diminui a responsabilidade dos transgressores da lei), os pós-neoliberais preferem investir contra os poucos instrumentos de política industrial que o Estado brasileiro ainda detém. A estratégia é ampla e não se limita a aspectos internos da economia. Incide diretamente sobre a forma pela qual o Brasil se insere na economia mundial.
Três linhas de ação têm sido perseguidas. Uma já faz parte do antigo receituário de boa parte dos comentaristas em matéria econômica: o Brasil deveria abandonar a sua preferência pelo sistema multilateral (representado pela Organização Mundial do Comércio) e dar mais atenção a acordos bilaterais com economias desenvolvidas, seja com a União Europeia, seja com os Estados Unidos da América. O refinamento, não totalmente novo, é o de que, para chegar a esses acordos, o Brasil deve buscar a “flexibilização” do Mercosul, privando-o de sua característica essencial de uma união aduaneira. Sem perceber que a motivação principal da integração é política – já que a Paz é o maior bem a ser preservado – os arautos da liberalização, sob o pretexto de aumentar nossa autonomia em relação aos nossos vizinhos, facilitando a abertura do mercado brasileiro, na verdade empurrarão os sócios menores (não em importância, mas em tamanho) para os braços das grandes potências. É de esperar que não venham a reclamar quando bases militares estrangeiras surgirem próximo das nossas fronteiras.
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Amorim lançou recentemente seu novo livro Teerã “Teerã, Ramalá e Doha. Memórias da política externa ativa e altiva”

O segundo pilar do tripé, que está sendo gestado em gabinetes de peritos desprovidos de visão estratégica, consiste em tornar o Brasil membro pleno da OCDE, a organização que congrega primordialmente economias desenvolvidas. Essa atitude contraria a posição de aproximação cautelosa seguida até aqui e que nos tem permitido participar de vários grupos, sem tolher nossa liberdade de ação. A lógica para a busca ansiosa pelo status de membro pleno residiria na melhoria do nosso rating junto às agências de risco, decorrente do nosso compromisso com políticas de investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual (entre outras) estranhas ao modelo de crescimento defendido por sucessivos governos brasileiros, independentemente de partidos ou de ideologias. O ganho no curto prazo se limitaria, se tanto, a um aspecto de marketing, e seria muito pequeno quando comparado com o custo real, representado pela perda de latitude de escolha de nossas políticas (industrial, ambiental, de saúde, etc.)
Finalmente – e esse é o aspecto mais recente da ofensiva pós-neoliberal – há quem já fale em ressuscitar a Área de Livre Comércio das Américas, cujas negociações chegaram a um impasse entre 2003 e 2004, quando ficou claro que os EUA não abandonariam suas exigências em patentes farmacêuticas (inclusive no que tange ao método para a solução de controvérsias) e pouco ou nada nos ofereceriam em agricultura. A Alca, tal como proposta, previa não apenas uma ampla abertura comercial em matéria de bens e serviços, de efeitos danosos para nosso parque industrial, mas também regras muito mais estritas e desfavoráveis aos nossos interesses do que as que haviam sido negociadas multilateralmente (i.e., no sistema GATT/OMC), inclusive por governos que antecederam ao do Presidente Lula. Tudo isso, sob a hegemonia da maior potência econômica do continente americano (e, por enquanto pelo menos, do mundo).
Medidas desse tipo não constituem ajustes passageiros. São mudanças estruturais, que, caso adotadas, alterariam profundamente o caminho de desenvolvimento que, com maior ou menor ênfase, sucessivos governos escolheram trilhar. Os que propugnam por esse redirecionamento de nossa inserção no mundo parecem ignorar que mudanças desse porte, sem um mandato popular expresso nas urnas, seriam não só prejudiciais economicamente, mas constituiriam uma violência contra a democracia. Evidentemente nosso governo não se deixará levar por pressões midiáticas, mas até alguns ardorosos defensores de um Brasil independente e soberano podem não ser de todo infensos a influencias de intelectuais que granjearam alguma respeitabilidade pela obra passada. Daí a necessidade do alerta: “intelectuais progressistas, preparai-vos para o debate”. Ele vai ser duro e não se dará somente nos salões acadêmicos ou nos corredores palacianos. Terá que ir às ruas, às praças e às portas de fábrica.

sábado, abril 04, 2015

A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima (I)


Mauro Santayana
Segundo os chamamentos que estão sendo feitos nessemomento, no WhatsAppe nas redes sociais, pessoas irãosair às ruas, no domingo, porque acusam o governo de  ser corrupto e comunista e de estar quebrando o país.
Se estes brasileiros, antes de ficar repetindo sempre os mesmos comentários dos portais e redes sociais, procurassem fontes internacionais em que o mercado financeiro normalmente confia para fazer tomar suas decisões, como o  FMI - Fundo Monetário Internacional - e o Banco Mundial,  veriam que a história é bem diferente, e que o PIB e a renda per capita caíram, e a  dívida pública líquida praticamente dobrou, foi no governo Fernando Henrique Cardoso.
Para subir, extraordinariamente,  destes 504 bilhões de dólares, em 2002, para 2 trilhões, 300 bilhões de dólares, em 2013, último dado oficial levantado pelo Banco Mundial, crescendo mais de 400% em dólares, em apenas 11 anos, depois que o PT chegou ao poder.
E isso, apesar de o senhor Fernando Henrique Cardoso ter vendido mais de 100 bilhões de dólares em empresas brasileiras, muitas delas estratégicas, como a Telebras, a Vale do Rio Doce e parte da Petrobras, com financiamento do BNDES e uso de “moedas podres”, com o pretexto de sanear as finanças e aumentar o crescimento do país. 
Com a renda per capita ocorreu a mesma coisa. No lugar de crescer em oito anos, a renda per capita da população brasileira, também segundo o Banco Mundial - (http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.CD?page=2) - caiu de 3.426 dólares, em 1994, no início do governo,  para 2.810 dólares, no último ano do  governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002.
E aumentou, também, em mais de 400%, de 2.810 dólares, para 11.208 dólares, depois que o PT chegou ao poder, também segundo o World Bank.
O salário mínimo, que em 1994, no final do governo Itamar Franco, valia 108 dólares, caiu 23%, para 81 dólares, no final do governo FHC e aumentou em três vezes,  para mais de 250 dólares, hoje, também depois que o PT chegou ao poder.
As reservas monetárias internacionais - o dinheiro que o país possui em moeda forte - que eram de 31,746 bilhões de dólares, no final do governo Itamar Franco, cresceram em apenas algumas centenas de milhões de dólares por ano, para 37.832 bilhões de dólares - (http://data.worldbank.org/indicator/FI.RES.TOTL.CD?page=2) nos oito anos do governo FHC.
Nessa época, elas eram de fato,  negativas, já que o Brasil, para chegar a esse montante, teve que fazer uma dívida de 40 bilhões de dólares com o FMI.
Depois, elas se multiplicaram para 358,816 bilhões de dólares em 2013, e para 369,803 bilhões de dólares, em dados de ontem, transformando o Brasil de devedor em credor,  (http://data.worldbank.org/indicator/FI.RES.TOTL.CD), depois do pagamento da dívida com o FMI em 2005, e de emprestarmos dinheiro para a instituição, quando do pacote de ajuda à Grecia em 2008.
E, também, no quarto maior credor individual externo dos EUA, segundo consta, para quem quiser conferir, do próprio site oficial do tesouro norte-americano -(http://www.treasury.gov/ticdata/Publish/mfh.txt).
O IED - Investimento Estrangeiro Direto, que foi de 16,590 bilhões de dólares, em 2002, no último ano do Governo Fernando Henrique Cardoso, também subiu mais de quase 400%, para 80,842 bilhões de dólares, em 2013, depois que o PT chegou ao poder, ainda segundo dados do Banco Mundial: (http://data.worldbank.org/indicator/BX.KLT.DINV.CD.WD), passando de aproximadamente 175 bilhões de dólares nos anos FHC (mais ou menos 100 bilhões em venda de empresas nacionais) para 440 bilhões de dólares depois que o PT chegou ao poder.
A dívida pública líquida (o que o país deve, fora o que tem guardado no banco), que, apesar das privatizações, dobrou no Governo Fernando Henrique, para quase 60%, caiu para 35%, agora, 11 anos depois do PT chegar ao poder.   
E, ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil ocupa, hoje, apenas o quinquagésimo lugar do mundo, em dívida pública, em situação muito melhor do que os EUA, o Japão, a Zona do Euro, ou países como a Alemanha, a França, a Grã Bretanha - cujos jornais adoram ficar nos ditando regras e “conselhos” - ou o Canadá (http://www.economicshelp.org/blog/774/economics/list-of-national-debt-by-country/).
Também ao contrário do que muita gente pensa, a carga tributária no Brasil caiu ligeiramente, segundo Banco Mundial, de 2002, no final do governo FHC, para o último dado disponível,  de dez anos depois (http://data.worldbank.org/indicator/GC.TAX.TOTL.GD.ZS), e não está entre a primeiras do mundo, assim como a dívida externa, que caiu mais de 10 pontos percentuais nos últimos dez anos, e é a segunda mais baixa, depois da China, entre os países do G20 (https://www.quandl.com/c/economics/external-debt-as-share-of-gdp-by-country).
Quanto à questão fiscal, não custa nada lembrar que a média de déficit público, sem desvalorização cambial, dos anos  FHC, foi de 5,53%, e com desvalorização cambial, de 6,59%, bem maior que os 3,13% da média dos anos que se seguiram à sua saída do poder; e que o superavit primário entre 1995 e 2002 foi de 1,5%, muito menor que os 2,98% da média de 2003 e 2013 - segundo Ipeadata e o Banco Central - nos governos do PT.  
Considerando-se estas informações, que estão, há muito tempo, publicamente  disponíveis na internet, o grande mistério da economia brasileira, nos últimos 12 anos, é saber em que dados tantos jornalistas, economistas, e “analistas”, ouvidos a todo momento, por jornais, emissoras de rádio e televisão, se basearam, antes e agora, para tirar, como se extrai um coelho da cartola - ou da "cachola" - o  absurdo paradigma, que vêm defendendo há anos, de que o Governo Fernando Henrique foi um tremendo sucesso econômico, e de que deixou “de presente” para a administração seguinte, um país  econômica e financeiramente bem sucedido.
Nefasto paradigma, este, que abriu caminho, pela repetição, para outra teoria tão frágil quanto mentirosa, na qual acreditam piamente muitos dos cidadãos que vão sair às ruas no próximo domingo:
A de que o PT estaria, agora, jogando pela janela, essa - supostamente maravilhosa - “herança” de Fernando Henrique Cardoso, colocando em risco as conquistas de seu governo.
O pior  cego é o que não quer ver, o pior surdo, o que não quer ouvir.
Não dá, para, em perfeito juízo, acreditar que os advogados, economistas, empresários, jornalistas, empreendedores, funcionários públicos, majoritariamente formados na universidade, que bateram panelas contra Dilma em suas varandas, há poucos dias, acreditem mais nos boatos das redes sociais, do que no FMI e no Banco Mundial, organizações que podem ser taxadas de tudo,  menos de terem sido “aparelhadas” pelo governo brasileiro e seus seguidores.
Está certo que não podemos ficar apenas olhando para o passado, que temos de enfrentar os desafios do presente, fruto de uma crise que é internacional, que faz com que estejamos crescendo pouco, embora haja diversos países ditos “desenvolvidos” que estejam muito mais endividados e crescendo menos do que nós.
Assim como também é verdade que esse governo não é perfeito, e que se cometeram inúmeros erros na economia, que poderiam ter sido evitados, principalmente nos últimos anos. 
Mas, pelo amor de Deus, não venham  nos impingir nenhuma dessas duas fantasias, que estão empurrando muita gente a sair às ruas para se manifestar: nem Fernando Henrique salvou o Brasil, nem o PT está quebrando um país, que em 2002, era a décima-quarta maior economia do mundo, e que hoje já ocupa o sétimo lugar.


quinta-feira, abril 02, 2015

Documentário escancara a sonegação da Rede Globo


O site de notícias Diário do Centro do Mundo apresenta o documentário sobre o escândalo da sonegação da Globo na compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002. O trabalho é resultado de um crowdfunding. Através da plataforma Catarse, os leitores ajudaram a bancar a série de reportagens assinadas pelo repórter Joaquim de Carvalho.

Veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YEcwpIEkjlc&feature=player_embedded

quarta-feira, março 18, 2015

“EUA promovem desestabilização de democracias na América Latina”



Em 2015, o Prof. Moniz Bandeira é nosso indicado ao Prêmio Nobel de Literatura,
pela União Brasileira de Escritores (UBE).
Seu livro de 2005 - Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque), acaba de ser publicado em chinês.

Luis Nassif o entrevistou, há um ano, excelente entrevista

O Prof. Moniz Bandeira é grande amigo da Vila Vudu e muito nos ajuda! Força aí, professor! Grande abraço!
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“As demonstrações de 2013 e as últimas, contra a eleição da presidente Dilma Rousseff, não foram evidentemente espontâneas”, disse o cientista político. “ Os atores, com o suporte externo, fomentam e encorajam a aguda luta de classe no Brasil, intensificada desde que um líder sindical, Lula, foi eleito presidente da República. Os jornais aqui na Alemanha salientaram que a maior parte dos que participaram das manifestações de domingo, dia 15, era gente da classe média alta para cima, dos endinheirados’’, disse Moniz Bandeira, que reside na Alemanha e é autor de vários livros sobre as relações Brasil-EUA.

Eis a entrevista:

1)O líder do PT na Câmara, Sibá Machado, comentou nas redes sociais que a CIA tem atuado nas tentativas de desestabilização de governos democráticos na América Latina . Como o senhor avalia isso, diante de vários episódios históricos que mostram os EUA por trás da desestabilização de governos de esquerda e progressistas?

Prof. Moniz Bandeira –  Washington há muito tempo está a criar ONGs com o fito de promover demonstrações empreendidas, com recursos canalizados através da USAID, National Endowment for Democracy (NED) e CIA; Open Society Foundations (OSF), do bilionário George Soros, Freedom House, International Republican Institute (IRI), sob a direção do senador John McCain, etc. Elas trabalham diretamente com o setor privado, municípios e cidadãos, como estudantes, recrutados para fazerem cursos nos Estados Unidos. Assim o fizeram nos países da Eurásia, onde de 1989 ao ano de 2000 foram criadas mais de 500.000, a maioria das quais na Ucrânia. Outras foram organizadas no Oriente Médio para fazer a Primavera Árabe.

A estratégia é aproveitar as contradições domésticas do país, os problemas internos, a fim de agravá-los, gerar turbulência e caos até derrubar o governo sem recorrer a golpes militares. Na Ucrânia, dentro do projeto TechCamp, instrutores, a serviço da Embaixada dos Estados Unidos, então chefiada pelo embaixador Geoffrey R. Pyatt, estavam a preparar, desde pelo menos 2012, especialistas, profissionais em guerra de informação e descrédito das instituições do Estado, a usar o potencial revolucionário da mídia moderna – subvencionando a imprensa escrita e falada, TVs e sites na Internet - para a manipulação da opinião pública, e organização de protestos, com o objetivo de subverter a ordem estabelecida no país e derrubar o presidente Viktor Yanukovych as demonstrações contra o presidente Yanukovych, em fevereiro de 2014.

Essa estratégia baseia-se nas doutrinas do professor Gene Sharp e de Political defiance, i. e., o desafio político, termo usado pelo coronel Robert Helvey, especialista da Joint Military Attache School (JMAS), operada pela Defence Intelligence Agency (DIA), para descrever como derrubar  um governo e conquistar o controle das instituições, mediante o planejamento das operações e mobilização popular no ataque às fontes de poder nos países hostis aos interesses e valores do Ocidente (Estados Unidos). Essa estratégia pautou em larga medida a política de regime change, a subversão em outros países, sem golpe militar, incrementada pelo presidente George W. Bush, desde as chamadas “revoluções coloridas” na Europa e Eurásia, assim como na África do Norte e no Oriente Médio. Explico, em detalhes e com provas, como essa estratégia se desenvolve em meu livro A Segunda Guerra Fria, e, no momento estou a pesquisar e escrever outra obra – A desordem mundial - onde aprofundo o estudo o que ocorreu e ocorre em vários países, sobretudo na Ucrânia.

2)Além da CIA, como os EUA atuam contra os governos de esquerda da América Latina.

Prof. Moniz Bandeira – Não se trata de uma questão ideológica, mas de governos que não se submetem às diretrizes de Washington. Uma potência mundial, como os Estados Unidos, é mais perigosa quando está a perder a hegemonia do que quando expandia seu Império. E o monopólio que adquiriu após a II Guerra Mundial de produzir a moeda internacional de reserva – o dólar – está a ser desafiado pela China, Rússia e também o Brasil, que está associado a esses países na criação do banco internacional de desenvolvimento, como alternativa para o FMI, Banco Mundial etc. Ademais, a presidenta Dilma Rousseff denunciou na ONU a espionagem da NSA, não comprou os aviões - caça dos Estados Unidos, mas da Suécia, não entregou o pré-sal às petrolíferas americanas e não se alinhou com os Estados Unidos em outras questões de política internacional, entre as quais a dos países da América Latina.

3) O governo da Venezuela tem denunciado a participação de Washington em  tentativas de golpe.  O mesmo poderia estar acontecendo em relação ao Brasil?

Prof. Moniz Bandeira – Evidentemente há atores, profissionais muito bem pagos, que atuam tanto na Venezuela, Argentina e Brasil, integrantes ou não de ONGs, a serviço da USAID, Now Endowment for Democracy (NED) e outras entidades americanas. Não sem razão o presidente Vladimir Putin determinou que todas as ONGs fossem registradas e indicassem a origem de seus recursos e como são gastos. O Brasil devia fazer algo semelhante. As demonstrações de 2013 e as últimas, contra a eleição da presidente Dilma Russeff, não foram evidentemente espontâneas. Os atores, com o suporte externo, fomentam e encorajam a aguda luta de classe no Brasil, intensificada desde que um líder sindical, Lula, foi eleito presidente da República. Os jornais aqui na Alemanha salientaram que a maior parte dos que participaram nas manifestações de domingo, dia 15, era gente da classe média alta para cima, dos endinheirados. 

4) Que interesses de Washington seriam contrariados, pelo governo do PT, para justificar a participação da CIA e de grupos empresariais de direita, como os irmãos Koch (ramo petroleiro) , no financiamento de mobilizações contra Dilma? O pré-sal, por exemplo?

Prof. Moniz Bandeira – Os interesses são vários como expliquei acima. É muito estranho como começou a Operação Lava-Jato, partir de uma denúncia “premiada”, com ampla participação da imprensa, sem que documentos comprobatórios aparecessem. O grande presidente Getúlio Vargas já havia denunciado, na sua carta-testamento, que “a campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. (...) Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”.

5) Como o senhor interpreta o surgimento de grupos de direita no Brasil, com agenda totalmente alinhada aos interesses dos EUA?

Prof. Moniz Bandeira – Grupos de direita estão no Brasil como em outros países. E despertaram com a crise econômica deflagrada em 2007-2008 e que até hoje permanece, em vários países, como o Brasil, onde irrompeu com mais atraso que na Europa. E a direita sempre foi fomentada pelos interesses de Wall Street e do complexo industrial nos  EUA, que é ceivado pela corrupção, e onde a porta giratória – executivos de empresas/secretários do governo – nunca deixa de funcionar, em todas as administrações.

6) Há, entre os organizadores dos protestos, gente fracamente favorável à privatização da Petrobras e das riquezas nacionais, com um evidente complexo de vira-latas diante dos interesses estrangeiros. Como analisar esse movimento à luz da história brasileira?De novo o nacionalismo versus entreguismo?

Prof. Moniz Bandeira – Está claro que, por trás da Operação Lava-Jato, o objetivo é desmoralizar a Petrobras e as empresas estatais, de modo a criar as condições para privatizá-las. Porém, estou certo de que as Forças Armadas não permitirão, não intervirão no processo político nem há fundamentos para golpe de Estado, mediante impeachment da presidenta Dilma Rousseff, contra a qual não há qualquer prova de corrupção, fraude eleitoral etc., elemento sempre usado na liturgia subversiva das entidades e líderes políticos que a USAID, NED e outras entidades dos EUA patrocinam. [Equipe PT na Câmara]

domingo, março 15, 2015

Feijão com arroz da mais sustança


Existe uma parte da classe média que só vai para a rua quando tem certeza que não vai apanhar da polícia e que vai aparecer na TV.
É constituída por um grande número de funcionários públicos com maiores salários e mordomias, pequenos é médios empresários, profissionais liberais como: médicos, advogados, engenheiros...
Essa gente tem reais motivos para apoiar governos liberais e suas políticas regressivas de direitos e conquistas dos trabalhadores.
Não é só uma questão de terem a cabeça feita pela mídia, eles realmente se dão bem com governos liberais.
FHC acabou daquela forma desgraçada porque errou na dose. Fez tanta trapalhada que acabou acertando até essa gente. Apagão, arrocho, Tarifaço geral, inflação, privatizações escandalosas, desorganização geral do estado. É como o Paraná do tucano Richa hoje.
Assim nem coxinha aguenta.
Mas hoje o governo petista também incomoda essa gente. Cada medida que beneficia os trabalhadores e os mais pobres, que corta ou diminui privilégios, que expande oportunidades e diminui a possibilidade do clientelismo nas relações sociais aumenta esse atrito.
A mídia sabe que isso acontece, ela mesma está nesse grupo que vem perdendo privilégios e importância política e social. Estão endividados e alguns quase falidos. Mas do que nunca precisam de um governo amigo e manobrável.
A Globo também foi para a rua hoje. Faz a propaganda descarada do impeachment que é o golpe contra a presidenta Dilma.
As maiores passeatas estão em São Paulo, Rio e Brasília. Exatamente onde aquela classe média que mencionei lá em cima é mais numerosa. Mesmo assim, não foi essa coisa toda. Ainda mais considerando toda a mídia que tiveram.
A passeata Feijão com Arroz, dos Movimentos Sociais e Centrais Sindicais em São Paulo, foi muito maior que a dos coxinhas. Mesmo sem mídia e com chuva. E foi muito mais abrangente no resto do Brasil.
Nunca foi e nunca vai ser fácil.
Tem muita coisa em jogo.
A luta continua!




sábado, março 14, 2015

DIA 13, AS FOTOS QUE A MÍDIA ESCONDEU

As fotos da manifestação que você não viu na grande imprensa

13 de março de 2015 | 20:45 Autor: Fernando Brito
http://tijolaco.com.br/blog/?p=25412 
foto2
As imagens que você quase não viu na grande imprensa estão no siteFotos Públicas.
Algumas delas, reproduzo aqui.
Depende de você compartilhar com seus amigos para que elas saiam do gueto em que foram colocadas.
Posto também, para ser justo, uma do site do Estadão, enviada por um leitor, que mostra o tamanho  do pessoal do “we want our Brazil back”.
Existe uma coisa, caro leitor e estimada leitora, chamada poder do foco.
No jornalismo,  é o escolher entre imagens “abertas” ou “fechadas”.
Você pode ver a massa, debaixo de temporal, sem arredar pé.
E os gatos pingados dos “Revoltados”, a quem nossa mídia empresta tantos espaços.
Vai ter gente na Paulista, domingo?
Sim.
Mas lembre do “poder do foco”.
E de quem o exerce.
Não é quem está no Governo.
Mas é quem detém o poder.





quinta-feira, março 12, 2015

Obama solta o Reagan que vive nele


Venezuela: como inventar uma “Extraordinária Ameaça à Segurança Nacional”


2ª-feira, a Casa Branca deu mais um passo rumo ao teatro do absurdo, ao declarar “emergência nacional com respeito à inusual e extraordinária ameaça à segurança nacional e à política exterior dos EUA que se manifesta na situação na Venezuela” – como o presidente Obama escreveu em carta que enviou ao presidente do Congresso, John Boehner.

Falta ver se alguém, do valente corpo de jornalistas que cobre a Casa Branca, terá coragem de perguntar o quê, afinal, diabos, o chefe do executivo da nação mais poderosa do universo pensou que estivesse dizendo na tal carta. O quê?! Estará a Venezuela financiando iminente ataque de terroristas contra o território dos EUA? Planeja invadir território norte-americano? Está construindo bomba atômica?

A quem essa gente pensa que engana? Alguns alegaram que o linguajar tinha de ser esse, porque é o que a lei dos EUA exige, para impor a mais recente rodada de sanções contra a Venezuela. Mas não melhora coisa alguma alegar, como se fosse defesa, que a lei norte-americana é negócio em cujo processo de manipular e fraudar o presidente pode dizer mentiras à vontade, para contornar o que não queira confessar.

Foi precisamente o que fez o presidente Ronald Reagan em 1985, quando fez declaração semelhante para impor sanções – inclusive um embargo econômico – contra a Nicarágua.

Como Obama em 2015, Reagan também tentava derrubar governo eleito que não agradava a Washington. Conseguiu usar violência paramilitar e terrorista, além de um embargo, no esforço bem-sucedido para destruir a economia da Nicarágua e, afinal, derrubar o governo do país. (Em 2007, os sandinistas voltaram ao poder e são hoje o partido governante.) O mundo andou adiante. Washington, não.

A Venezuela hoje conta com o forte apoio dos países vizinhos contra o que praticamente todos os governos na América Latina veem como tentativa do governo Obama para desestabilizar o país.

“A Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribe (CELAC) reitera seu forte repúdio à aplicação de medidas unilaterais coercitivas que violentam a lei internacional” – como se lia na declaração assinada por todos os países do hemisfério, exceto EUA e Canadá, dia 11/2. Respondiam às sanções que os EUA haviam imposto à Venezuela, sancionadas por Obama em dezembro passado.

Alguém leu alguma coisa sobre isso na imprensa-empresa em língua inglesa? Então, você provavelmente não leu tampouco sobre a imediata reação ao golpe da Casa Branca, ontem, do presidente da União de Nações Sul-americanas: “A UNASUL rejeita qualquer tentativa externa ou interna de interferência que busque qualquer violência contra o processo democrático na Venezuela.”

Washington já esteve envolvida na tentativa de golpe militar, rapidamente derrotada em 2002, na Venezuela; deu “treinamento, construção de instituição e outros apoios a indivíduos e organizações que se sabia que estavam ativamente envolvidos no golpe” contra o presidente Hugo Chávez (golpe que durou apenas algumas horas) – segundo o Departamento de Estado dos EUA.

Os EUA não mudaram sua política para a Venezuela depois daquilo e continuaram a financiar grupos de oposição naquele país. Assim sendo, nada mais normal do que todos que conheçam essa história recente e conheçam o conflito entre EUA e América Latina também no golpe militar de 2009 em Honduras, sabendo agora das atuais sanções contra a Venezuela, imediatamente concluam que, sim, Washington está novamente envolvida em golpismos para derrubar governo democraticamente eleito que está na mira dos EUA, para ‘mudança de regime’, já há mais de uma década.

O governo da Venezuela já exibiu provas perfeitamente aceitáveis de que há um golpe em marcha no país: a gravação de um ex-vice-ministro do interior lendo o que obviamente é um comunicado a ser lançado depois que (se) os militares derrubarem o atual governo; confissões de oficiais militares acusados; e uma conversa telefônica gravada entre chefes da oposição que admitem que há um golpe em preparação.

Independente de que se considerem suficientes essas provas (a imprensa-empresa norte-americana não noticiou praticamente coisa alguma), não surpreende que os governos regionais tenham-se dado por convencidos.  Praticamente há 15 anos, sem interrupção, veem-se esforços para derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela.  Por que seria diferente agora, quando a economia está em recessão e houve tentativa para derrubar o governo venezuelano ainda no ano passado?

Aliás... alguém alguma vez ouviu falar de tentativa de golpe para derrubar governo democrático, independente e progressista na América Latina, na qual Washington não estivesse metida? Pergunto, porque eu, nunca.

A grande imprensa-empresa norte-americana e internacional fez grande alarde em torno do começo da normalização de relações entre EUA e Cuba. Mas entre os governos latino-americanos, qualquer traço de credibilidade que aquele movimento do governo de Obama talvez tivesse, acaba de ser radicalmente desmentido pela violenta agressão contra a Venezuela.

Duvido que alguém encontre um presidente, presidenta, ministro ou ministra de Relações Exteriores na região, que acredite que as sanções impostas à Venezuela teriam algo a ver com direitos humanos ou democracia.  Absolutamente não têm.

Considerem por exemplo o México, onde trabalhadores de direitos humanos e jornalistas são regularmente assassinados ; ou a Colômbia, estado líder há anos no número de sindicalistas assassinados. Nada sequer comparável a esses pesadelos de violação a direitos humanos jamais aconteceu na Venezuela em 16 anos de governos do presidente Chávez e do presidente Nicolás Maduro. E apesar disso México e Colômbia são os principais recebedores de ajuda dos EUA na região, incluindo financiamento para militares e policiais e para comprar armas.

O governo Obama está mais isolado hoje, na América Latina, que, até, o governo de George W. Bush. Por causa da ravina profunda que separa a grande imprensa-empresa internacional e o pensamento de governos regionais, nada disso é óbvio para os que não sejam dedicados estudiosos das relações hemisféricas.

Veja-se, por exemplo, quem são os autores da legislação que impôs sanções contra a Venezuela, em dezembro: os senadores Robert Menendez (que está prestes a ser indiciado criminalmente por corrupção ativa de funcionário público) e o Republicano da Flórida senador Marco Rubio, ambos ardentes defensores do embargo contra Cuba. Pois e o governo Obama anunciou, com orgulho – e sem vergonha – que as novas sanções “vão além do que essa legislação exige”.

Washington mostra, frente à América Latina, a face do extremismo. Apesar de algumas mudanças em algumas áreas da política exterior (por exemplo, a abertura de Obama em relação ao Irã), a face do extremismo norte-americano não mudou em nada, desde os dias em que Reagan ‘alertava’ o país de que os sandinistas nicaraguenses estavam “a apenas dois dias de viagem, de carro, de Harlingen, Texas.” Foi ridicularizado por Garry Trudeau em “Doonesbury” e por outros chargistas.

A Casa Branca de Obama, Regan redux, merece o mesmo tratamento. *****

terça-feira, março 10, 2015

Como criar um estado de insegurança


O cientista político como serviçal da imprensa-empresa
para dar formato racional às sandices


Entreouvido na Vila Vudu:

O artigo original levava o título de “The Intellectual as Servant of the State” [O cientista político como serviçal do Estado].
Mudamos, porque nós aqui somos comunistas e acreditamos no Estado.
Nós NÃO SOMOS ‘liberais-democráticos-fascistas-de-mercado’!

Nós acreditamos em Estado e NÃO ACREDITAMOS em jornais e jornalistas e jornalismos & marketagens, entidades bifrontes do tipo Cantanhede & Rampazzo e/ou Lavareda & Tucanaria Privateira Ltda e/ou jornalões & Consultoria Tendêncy e/ou e tal e tal e a lista é looooooooooooooooonga.

Entendemos portanto que um dos mais graves problemas no Brasil 2015
são os falso-intelectuais, falso-inteligentíssimos, falso-bem-informados JORNALISTAS e comentaristas empregados da imprensa-empresa.

Quem não conheça essa cambada, basta dedicar-se a ouvir, por cinco minutos, o opinionismo tosco de qualquer Boechat, Neubarth, Cantanhede, LoPrete, Sardembergh, Mirian Leitão et canalha ‘jornalística’ ‘adjunta – repetido incansavelmente, o dia inteeeeeeeeeeiro, sempre a mesma ‘notícia’ & ‘comentário’, dez vezes por dia, nas rádios FM Estadão, CNN e Band FM.

Então o artigo aí vai, porque é excelente informação histórica.

Mas, para nosso real proveito, o artigo deve ser lido não como comentário ao trabalho de acanalhamento do Brasil que faz a canalha metida a ‘cientista social dominante’. Essa cambada nós JÁ DERRUBAMOS DO PODER, quando derrotamos nas urnas
a República USP-Chicago-Pindamonhangaba & TFP plus Aécin.

O artigo que aí vai deve ser lido como comentário à canalha golpista metida a cientista-social & economista & historiador à moda Villa, porque é a canalha metida a ‘intelectual’ que foi incorporada – depois de derrotada nas urnas –, à canalha golpista metida a ‘jornalística’.

Essa cambada é paga para trabalhar diariamente contra o voto da maioria democrática.
Por sorte, são incompetentes, são mal informados e alguns, inclusivemente,
são cornos politológicos sociológicos histÓÓricos! :-D)))))))
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Cientistas políticos e comentaristas políticos, – gente de ar snob que vive de ‘assessorar’ os reles mortais que recebem votos dos eleitores – são uma praga da república. Como espécies invasivas, eles infestam a Washington de hoje, onde sua presença sufoca o bom-senso e já levou à beira da extinção a simples capacidade de perceber a realidade. Sempre em ternos ou tailleurs & colarzinhos caros – aquel@s almofadinhas dão aulas ao Congresso, pontificam na imprensa-empresa escrita e falada, e até já esquentam cadeira em posições chaves no Executivo, sempre com impacto maléfico. São como a carpa asiática jogada nos Grandes Lagos.

E dizer que tudo começou tão inocentemente! Nos idos de 1933, com o país nas garras da Grande Depressão, o presidente Franklin Delano Roosevelt foi o primeiro a atrair para o estado um punhado de cientistas sociais e políticos, ansiosos para incorporarem-se às fileiras de seu Novo Negócio [orig. New Deal]. Crise econômica sem precedentes exigia algum pensamento novo – pensou FDR. Se as contribuições desse “Brains Trust” [alguma coisa como ‘poupança em cérebros’, ou ‘Fundo Cérebros’] tiveram qualquer impacto positivo ou se só ajudaram a retardar a recuperação econômica (e foram total desperdício de tempo e dinheiro) é tema que ainda se discute até hoje. No mínimo, contudo, a chegada de Adolph Berle, Raymond Moley, Rexford Tugwell e outros elevaram o cenário de uísque e charutos de Washington. Como membros beneméritos da intelligentsia, recebiam então uma espécie de cachê artístico, como pianistas de boate.

Então, veio a 2ª Guerra Mundial, seguida imediatamente pela implantação da Guerra Fria. Esses eventos trouxeram a Washington uma segunda leva de pensadores profundíssimos, cuja agenda cerebral estava agora integralmente dedicada à “segurança nacional”. Esse conceito elástico pela própria natureza – melhor seria identificar logo o problema e chamar a coisa, para sempre, de “insegurança nacional” – reunia simplesmente qualquer coisa que tivesse a ver com prontidão para fazer guerras, ou sobreviver a elas, incluindo economia, tecnologia, desenho de armas, tomada de decisões, estrutura das Forças Armadas e outros temas ditos de vital importância para a sobrevivência da nação.

A insegurança nacional tornou-se então – e assim permanece até hoje – a política mundial que é como um maná, presente que nunca para de cair dos céus.

Gente que se especializou em pensar sobre a insegurança nacional veio a ser conhecida como “intelectuais da defesa” [mais ou menos como, na imprensa-empresa brasileira, um tal de “Godoy” d’O Estadão é o único ‘especialista em armas’ que há no Brasil inteiro!].

Os ‘especialistas’ pioneiros nessa empreitada, lá nos anos 1950s, recebiam o cheque de pagamento semanal de think tanks como a prototípica Corporação RAND, e de instituições acadêmicas mais tradicionais. Entre essa gente havia figuras muito sinistras, como Herman Kahn, que se vangloriava por “pensar o impensável”; e Albert Wohlstetter, que distribuía tutorials em Washington sobre as complexidades de manter-se “o delicado equilíbrio do terror”.

Nesse ensandecido mundo, a moeda em circulação foi então, como continua a ser até hoje, “relevância política”. Significa inventar produtos que sugiram alguma impressão de novidade, ao mesmo tempo em que só sirvam, mesmo, para perpetuar a empreitada ‘oficial’ que esteja em andamento. Exemplo radical de insight  de alta relevância política é a descoberta, pelo Dr. Fantástico (Dr. Strangelove) , de um “mineshaft gap” [aprox. “atraso no escavamento do buraco de mina”] – sucessor do “bomber gap” [aprox.. “atraso na construção do bombardeiro”] e do “missile gap” [aprox.. “atraso na construção do míssil”] os quais, nos anos 1950s, deixaram os EUA supostamente atrasados em relação aos soviéticos na corrida armamentista e precisando alucinadamente se igualarem a eles. Naquele momento, com uma troca de tiros de bombas termonucleares a um passo de destruir o planeta, os EUA mais uma vez estavam atrasados – diz o Dr. Fantástico. – Daquela vez, porque não cavaram suficientes abrigos subterrâneos para salvar pelo menos uma pequena parte da humanidade, que fosse.

Num único brilhante meneio frasal, o Dr. Fantástico postula uma nova raison d'être para todo o aparelho de insegurança nacional, assegurando assim que o jogo possa prosseguir mais ou menos eternamente. Sequência do filme de Stanley Kubrick estaria mostrando o general “Buck” Turgidson e outros emedalhados na Sala de Guerra, hoje, desenvolvendo planos para vedar o mineshaft gap, como se nada no mundo tivesse acontecido de lá até hoje.

Nasce o Estado de Insegurança Nacional

Mas foi nos anos 1960s, bem quando o Dr. Strangelove foi visto pela primeira vez nos cinemas, que os intelectuais-na-mídia, cientistas sociais e politólogos (no Brasil, o politólogo mais importante é o Prof. Bolívar Lamounier, o que pouco informa que realmente interesse ao avanço do Brasil, mas ajuda, pelo menos, a avaliar todos os demais politólogos pátrios ativos nos jornalões idem [NTs]) realmente ganharam palancão só deles. A imprensa-empresa nos EUA passou a chamá-los de “intelectuais da ação” (?) sugerindo energia e atividade importante.

Os “intelectuais da ação” eram pensadores, mas também fazedores, membros de um “corpo amplo e em crescimento, de homens que escolheram sair dos seus nichos silenciosos e tranquilos nas universidades e envolver-se nos problema complexíssimos que a nação enfrenta” [é vêêê o Villa!, que não olha no olho NEM DA CÂMERA
 :-D)))))))] – como definiu-os a revista LIFE, em 1967. Dentre os tais complexíssimos problemas, o mais complexíssimo era o que fazer sobre o Vietnã – problema complexíssimo que vinha como de encomenda para que os intelectuais da ação partissem logo prá cima dele e o cobrissem de tabefes.

Ao longo de um século e meio antes, os EUA haviam feito guerras por muitas razões, dentre as quais ganância, medo, pânico, ira arrogante e legítima autodefesa. Em diferentes ocasiões, cada uma dessas causas, isoladas ou em diferentes combinações, empurrara os norte-americanos à luta. O Vietnã marcou a primeira vez que os EUA foram à guerra, pelo menos em grande parte, em resposta a um punhado de ideias perfeitamente imbecis, postas em circulação por gente metida a super mega over inteligentíssima que ocupava postos de influência.

Ainda mais surpreendente, os intelectuais da ação continuaram a falar a favor de continuar em guerra, mesmo já muito depois de ser perfeitamente evidente, até para membros do Congresso, que a causa era causa mal concebida, mal pensada, mal propagandeada e mal dita, condenada a terminar em fracasso.

Em seu excelente livro American Reckoning: The Vietnã War and Our National Identity, Christian Appy, historiador que leciona na University of Massachusetts, nos lembra de o quanto aquelas ideias eram perfeitamente imbecis.

Como “Prova 1”, o professor Appy apresenta McGeorge Bundy, conselheiro para segurança nacional, primeiro do presidente John F. Kennedy, depois de Lyndon Johnson. Bundy é produto de estufa de Groton e Yale, e ganharia fama como o mais jovem reitor da Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, premiado com o posto, mesmo sem ter nem diploma de graduação.

Como “Prova 2”, lá estava Walt Whitman Rostow, que sucedeu Bundy no cargo de conselheiro de segurança nacional. Rostow também era de Yale, e formou-se no mesmo ano no curso colegial e como PhD. Adiante, passou dois anos em Oxford, na cátedra Rhodes. Como professor de história econômica no MIT, Rostow chamou a atenção de Kennedy com seu livro de 1960, título modesto, The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto, no qual oferece uma grandiloquente teoria do desenvolvimento, de aplicabilidade ostensivamente universal. Kennedy trouxe Rostow para Washington, para testar suas teorias de “modernização” em locais como o Sudeste Asiático.

Por fim, como “Prova 3”, Appy discute rapidamente a contribuição do professor Samuel P. Huntington para a Guerra do Vietnã. Huntington frequentou também Yale, antes de obter seu PhD em Harvard, e depois voltou para lecionar, tornando-se dos mais afamados cientistas políticos do pós 2ª Guerra Mundial.

Traço que se observa nos três, além da suspeita ‘formação’ adquirida em New Haven: rendição e comprometimento inabaláveis com as supostas verdades da Guerra Fria. A principal dessas supostas verdades era a seguinte: um monólito denominado “Comunismo”, controlado por um pequeno grupo de ideólogos fanáticos escondidos dentro do Kremlin, era ameaça existencial, não só contra os EUA e seus aliados, mas contra a própria liberdade considerada em si. A ideia veio com o corolário essencial: a única esperança de se evitar esse resultado cataclísmico seria os EUA resistirem vigorosamente contra a ameaça comunista onde quer que ela erguesse a cabeçorra.

Compre essas hipóteses gêmeas, e você aceita o imperativo de que os EUA tinham de impedir a qualquer custo que a República Democrática do Vietnã, também chamada Vietnã do Norte, viesse a absorver a República do Vietnã, também chamada Vietnã do Sul, criando um país unificado; em outras palavras: o imperativo de que o Vietnã seria causa pela qual valia a pena matar e morrer. Bundy, Rostow e Huntington não só engoliram a hipótese com anzol, linha e carretel, como, além disso, passaram a dedicar-se a conseguir que outros em Washington também fossem igualmente fisgados.

Mas já em 1965, quando clamava pela “americanização” da Guerra do Vietnã, Bundy começava a duvidar de que se fosse possível vencer aquela guerra. Mas... ninguém precisa se preocupar: ainda que o esforço termine em fracasso, como disse ele, aconselhando, ao presidente Johnson, “a política faz valer a pena.”

Como assim?! “No mínimo” – Bundy escreveu –, “esvaziaremos as críticas de que não fizemos tudo que poderíamos ter feito, e o que fizemos será importante em muitos países, inclusive no nosso.” Se os EUA acabaram por perder o Vietnã do Sul, pelo menos os norte-americanos morreram tentando impedir que perdessem – e essa, graças a uma lógica pervertida e na avaliação do mais jovem reitor de Harvard em todos os tempos, seria a garantia da salvação. Bundy acreditava que o ponto essencial seria impedir que outros vissem os EUA como “tigre de papel”. Negar-se à guerra, mesmo que guerra perdida, implica(ria) perder credibilidade. Tinham de se dedicar, isso sim, a qualquer custo, a “Não deixar que pensem que quando nos envolvemos, esquecemos de considerar algum grande perigo”. Esse o problema do qual tinham de fugir!

Rostow até superou Bundy em linha-durismo. Além de defender incansavelmente os bombardeios coercitivos para influenciar os políticos do Vietnã do Norte, Rostow foi também o arquiteto-chefe de algo que ficou conhecido como Strategic Hamlet Program. A ideia era acelerar o processo Rostoviano de modernização, realocando à força os camponeses vietnamitas, de suas vilas ancestrais, para campos montados pelo governo de Saigon, onde encontrariam segurança, educação, assistência médica e para plantar. Assim se conquistariam corações-e-mentes. Os camponeses nunca mais teriam qualquer contato com os comunistas, e a derrota do levante comunista decorreria automaticamente, com o pessoal do Vietnã do Sul já introduzido na “era do alto consumo de massas”, à qual toda a humanidade ascenderia como destino final.

Assim rezava a teoria. A realidade foi um pouco diferente. Os Hamlets Estratégicos que chegaram a ser tentados eram exatamente iguais a qualquer campo de concentração dos nazistas. O governo de Saigon revelou-se fraco demais, incompetente demais e corrupto demais para cumprir sua parte do trato. Em vez de ganhar corações-e-mentes, o programa gerou alienação em níveis altíssimos e, de fato, só conseguiu desestabilizar a sociedade camponesa nas áreas onde chegou a ser iniciado. Outro resultado da ‘ideia’ foi que número crescente de camponeses arrancados de suas terras e casas afluiu para as cidades do Vietnã do Sul onde praticamente não havia trabalho além do serviço doméstico para a crescente população militar dos EUA – atividade que muito dificilmente levaria a algum tipo de desenvolvimento sustentável.

Fato é que mesmo depois de a Guerra do Vietnã já ter acabado em derrota total, completa, avassaladora para os EUA, Rostow ainda insistia que sua teoria teria sido ‘confirmada’. “Nós e os asiáticos de sudeste”, escreveu ele, usamos os anos de guerra “tão bem que nem houve pânico [quando Saigon caiu], que fatalmente teria havido se não tivéssemos intervindo.” Por incrível que pareça, contado hoje, fato é que Rostow ‘comprovou’ inúmeras boas notícias, todas atribuíveis à guerra norte-americana.

“Desde 1975, houve expansão geral do comércio de outros países daquela mesma região com o Japão e o Ocidente. Na Tailândia, vimos surgir uma nova classes de empresários. Malaysia e Singapore tornaram-se países de bens manufaturados diversificados para exportação. E vê-se hoje a emergência de uma classe muito mais densa de tecnocratas na Indonésia.

Pronto. Aí está. Você queria saber por que 58 mil norte-americanos (e número vergonhosamente muito maior de vietnamitas) morreram na Guerra Americana [que é como se conhece, no Vietnã, o que nos EUA chama-se Guerra do Vietnã (NTs)]? Morreram para estimular o surgimento de empresários, aumentar as exportações e fazer emergir muitos tecnocratas por todo o sudeste da Ásia.

Appy descreve o professor Huntington como outro intelectual da ação com grande facilidade para ver ‘o bom’ de todas as catástrofes. Na visão de Huntington, o deslocamento interno de sul-vietnamitas causado pelo uso desproporcional do poder de fogo dos EUA, e o fracasso dos Hamlets Estratégicos de Rostow, foram notícias realmente muito boas. Estava agora muito facilitado o processo de garantir aos norte-americanos, pleno domínio sobre os insurgentes.

A chave para a vitória final, Huntington escreveu, foi “urbanização e modernização por alistamento forçado, que rapidamente tirou o país em questão da fase na qual um movimento revolucionário rural pode esperar gerar força suficiente para chegar ao poder.” Ao esvaziar o país rural, os EUA poderiam vencer a guerra nas cidades. “A favela urbana, que parece tão horrível aos olhos dos norte-americanos de classe média, muitas vezes se converte, para o camponês pobre, em portal para vida nova e muito melhor.” O fraseado pode ter recebido gotas de desinfetante, mas a ideia continua clara e bem suja: os desafios da vida na cidade, em estado de miséria indescritível, transformariam como por milagre aqueles mesmos camponeses, em gente bem mais interessada em fazer um pé de meia, do que em se alistar em revoluções sociais.

Revisitadas décadas depois, essas ideias defendidas de modo descaradamente público pelos Bundy-Rostow-Huntingtons – ação de primeira qualidade de intelectuais da ação! – parecem piores que obscenas e escandalosas. Elas insultam qualquer inteligência mediana e nos fazem pensar como é possível que alguém, algum dia, tenha levado a sério quantidade tão absoluta de imbecilidades.

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[Para ter experiência direta dessa emoção, basta reler, hoje, o ‘artigo’ do polítólogo-em-chefe do Estadão & Tucanaria Privateira, o tal ‘professor’ [só rindo] Bolívar Lamounier, publicado em 2010, e que leva o IMPRESSIONANTE título de
“A mexicanização em marcha”].
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Como aconteceu que, durante a Guerra do Vietnã, ideias tão ruins tenham tido tanta influência, tão perversa? Por que essas ideias foram tão impermeáveis a qualquer crítica? Por que não se as pôde desconstruir devidamente? Por que, em resumo, foi tão difícil para os norte-americanos, naquele momento, farejar a merda que lhe era impingida como ‘pensamento’?

Criar um Vietnã em câmera lenta, para o século 21

Essas perguntas absolutamente não interessam só por terem algum valor histórico. Elas são muitíssimo importantes ainda hoje, aplicadas ao trabalho de tecelagem da versão ‘século 21’, dos cientistas sociais e politólogos que operam HOJE, todos especializados em insegurança nacional, cuja CONVERSA TOTALMENTE FIADA serve de ‘fundamento’ HOJE para políticas que absolutamente NÃO SÃO mais coerentes que as políticas usadas para justificar o início e a continuação da Guerra do Vietnã.

Os sucessores dos Bundy-Rostow-Huntingtons subscrevem hoje as suas próprias pressupostas ‘verdades’. Dentre elas, a principal suposta ‘verdade’ é que um fenômeno chamado “Terrorismo” ou “Radicalismo Islamista”, inspirado por um pequeno grupo de fanáticos controlado por um pequeno grupo de ideólogos fanáticos escondidos em diferentes pontos no Oriente Médio Expandido é ameaça existencial, não só contra os EUA e seus aliados, mas – sim, sim, a coisa ainda vive entre nós! – contra a própria liberdade considerada em si.

E a ideia veio com o corolário essencial empoeirado e importado da Guerra Fria: a única esperança de se evitar esse resultado cataclísmico é os EUA resistirem vigorosamente contra a ameaça terrorista/islamista, onde quer que ela erga a cabeçorra.

Pelo menos desde o 11/9/2001, e pode-se dizer que pelo menos ao longo das duas últimas décadas, sem faltar um dia, os políticos norte-americanos tomaram essas ‘ideias’ como teorias fartamente confirmadas e sem erro possível. Acontece assim em parte porque pouquíssimos dos intelectuais especializados em insegurança nacional deram-se o trabalho de questionar as tais ‘ideiazinhas’.

A verdade é que esses especialistas impediram o estado de ter o DEVER de tratar dessas questões e problemas. Pense nessa canalha toda como ‘intelectuais’ devotados a fugir e renegar toda e qualquer atividade intelectual genuína. Mais ou menos como Herman Kahn e Albert Wohlstetter (ou o Dr. Fantástico), a função deles é perpetuar a empreitada em curso.

O fato de já ninguém ver com clareza de que empreitada afinal se trata, realmente facilita a vida deles. Antes se falava sempre de Guerra Global ao Terror, era uma Global War on Terror, GWOT. Hoje, já é Guerra Sem Nome. É mais ou menos como aquela famosa sentença da Suprema Corte sobre pornografia: não sabemos definir; só sabemos que é quando vemos ‘a coisa’. É assim, também, com o ISIL a mais recente manifestação etérea a capturar todas as atenções de Washington.

A única coisa que se pode dizer com certeza sobre a empreitada Sem Nome é que ela continua e não há fim à vista. Já está convertida numa espécie de Vietnã em câmera lenta, favorecendo reflexão espantosamente rarefeita sobre o curso até agora e sobre rumos futuros. Se ainda há “Brains Trust” funcionando em Washington, foi esquecido lá, no piloto automático. Hoje, a segunda e terceira gerações bastardas da RAND que ocupam vastos andares na zona noroeste de Washington – Centro isso, Instituto aquilo –  concentram-se dia e noite em discussões sobre os equivalentes atualizados para HOJE dos Strategic Hamlets, sem nem um instante de dedicação a qualquer pensamento mais fundamental, mais aproveitável.

O que me empurrou para essas maltraçadas linhas foi a notícia de que Ashton Carter está de volta ao Pentágono, como 4º secretário de Defesa do presidente Obama. O próprio Carter foi intelectual da ação do jeitão dos Bundy-Rostow-Huntingtons e fez carreira alternando períodos de ‘serviço’ em Harvard com idem ‘lá’ (no Pentágono). Carter também é ‘de Yale’ e também foi ‘professor da cátedra Rhodes, com um PhD de Oxford.

“Ash” – porque em Washington, quando acontece de você ser identificado só pelo primeiro nome (“Henry,” “Zbig,” “Hillary”) é sinal de que você REALMENTE-REALMENTE chegou-lá – é autor de quaquilhões de livros e artigos, inclusive uma coluna co-assinada com o ex-secretário da Defesa William Perry em 2006 na qual a dupla ‘exige’ guerra preventiva contra a Coreia do Norte. “Não há ação militar sem perigos” – reconheceu ele, valentemente, naquele momento. “Mas o perigo da inação continuada ante a corrida da Coreia do Norte para ameaçar nosso país é muito maior” – exatamente o mesmo tipo de lógica à qual periodicamente recorrem todos os Herman Kahn e Albert Wohlstetter.

Agora que Carter retomou as rédeas do Pentágono, está tendo muito trabalho, dia e noite, para dar a impressão de que é um verdadeiro neo-Aristóteles em matéria de pensamento. Como anunciava (ameaçava?) uma manchete do Wall Street Journal, “Ash Carter Quer Novos Olhos Contra as Ameaças Globais”. Claro que há uma pilha de ameaças globais. Claro também que o secretário de Defesa dos EUA tem mandado divino para enfrentá-las todas, claro, todo mundo sabe! Seu predecessor, Chuck Hagel (sem título de Yale) era dado a andar com cautela. Carter, não. Carter é o contrário. Já chegou mostrando que vem para agitar o pedaço.

Com esse objetivo em mente, logo no segundo dia de trabalho no Pentágono, já jantou com Kenneth Pollack, Michael O’Hanlon e Robert Kagan, todos intelectuais de alta patente na insegurança nacional, e velhos paus para toda obra em Washington. À parte o fato de os três prestarem serviços à Brookings Institution, os três orgulham-se de ter apoiado a Guerra do Iraque nos idos de 2003. Hoje, eles ‘exigem’ redobrados esforços contra o ISIL. Para termos certeza, nós todos, de que a orientação fundamental da política exterior dos EUA é firme, sólida, confiável (só temos de tentar mais, com mais empenho, mais empenho), onde encontrar melhores conselheiros que Pollack, O’Hanlon e Kagan (qualquer Kagan)?

Será que Carter contava com receber novos insights dos seus parceiros de jantar? Ou estaria ‘sinalizando’ para as redes de professores-adjuntos, professores-convidados, professores-doutores, professores-em-chefe e sociólogos-politólogos-comunicólogos que as verdades vigentes da insegurança nacional permanecerão sacrossantas? Decida você, amigo leitor.

Logo depois, a primeira viagem internacional de Carter ofereceu mais uma oportunidade para sinalizar suas intenções. No Kuwait, reuniu um conselho de guerra, de altos funcionários militares e civis para que o atualizassem sobre a guerra contra o ISIL. Em ousado movimento que o separou crucialmente das práticas padrão, o senhor do Pentágono PROIBIU RELATÓRIOS EM POWER POINT. Um dos participantes descreveu o evento como “seminário escolar de cinco horas” – todos puderam falar de coração aberto, lavar a alma. “Isso é revirar todos os paradigmas”, comentou, ainda tomado de assombro, um oficial sênior do Pentágono. Todos confirmaram que, sim, Carter desafiou seus subordinados a “olhar com outros olhos para esse problema”.

É claro que Carter pode ter dito “Vamos olhar a coisa como se fosse outro problema”. Mas essa seria postura radical demais para ser levada a sério – seria o equivalente de ele sugerir, lá nos idos dos anos 1960s que os pressupostos dos EUA para o Vietnã deveriam ser reexaminados.

Seja como for – e para surpresa de ninguém – o ‘olhar novo’ não levou a qualquer conclusão diferente da velha. Em vez de revirar algum paradigma, Carter reafirmou a existência do mesmo velho paradigma: a atual abordagem que os EUA têm implantado para enfrentar o ISIL é confiável e ótima. Só precisa de uns beliscões – a ‘deixa’ para os Pollacks, O’Hanlons e Kagans escreverem qualquer bobagem, só para manter o conversê fiado que tomou o lugar de debate sério.

E alguém precisa desse conversê fiado ‘jornalístico’ ‘intelectual’ ‘sociológico-politológico-histórico’ de araque sem fim? Ele melhora de algum modo a qualidade das políticas norte-americanas? Se os intelectuais da ação/da politologia/da defesa calassem o bico, de vez, os EUA seriam menos seguros?

Permitam-me propor um experimento. Ponham TODO esse pessoal em quarentena. Nada radical. Não é para sempre. Só até que a última neve do inverno degele na Nova Inglaterra. Mandem essa gente de volta para Yale para reeducação. E vamos ver se conseguimos sobreviver sem eles, por um mês, dois meses.

Enquanto isso, convidemos veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, para que ensinem ao país o melhor meio de enfrentar o ISIL. (...) Entrevistem, no horário nobre, domingo à noite, diretores de escolas públicas. Sabe-se lá... Quanta sabedoria pode haver, escondida por aí?! **********