domingo, setembro 04, 2011

As biolutas e a constituição do comum > Giuseppe Cocco




Os moradores que defendem suas comunidades no RJ, os operários que se revoltam em Jirau e os ativistas dos Pontos de Cultura e dos pré-vestibulares afirmam em suas lutas as dimensões produtivas da vida. Nesse sentido, as biolutas são, produtivas e reivindicativas. Na luta contra a fragmentação, elas produzem o comum
Por Giuseppe Cocco

Crise. O mecanismo fundamental da atual crise do capitalismo global (aquela que começou em 2007 com o estouro da bolha imobiliária − subprime − nos Estados Unidos e agora se desdobra na crise da dívida soberana europeia e norte-americana) encontra-se na mobilização paradoxal do tempo de vida da população. Todo mundo trabalha o tempo todo, mas só se remunera o trabalho incluído na relação salarial. A expansão exponencial das finanças (do crédito espalmado em um sem-número de títulos derivados) permitiu governar esse descompasso: a população dos trabalhadores deve investir em sua “empregabilidade” (definida pelas várias formas de capital social, humano, intelectual etc.), ao passo que seu estatuto torna-se cada vez mais precário (a renda do salário diminui proporcionalmente ao lucro, o emprego é terceirizado, os serviços públicos são privatizados e a previdência, desmantelada). Esse novo tipo de trabalho vai ser controlado pelo dispositivo de um duplo endividamento: por um lado, moradia, saúde, educação, mobilidade, conexão e conectividade passam a ser pagos por meio do acesso ao crédito; por outro, a remuneração do trabalho toma a forma de um “prêmio” por objetivos alcançados que liga (endivida) a subjetividade do trabalhador ao projeto da empresa − a dívida monetária desdobra-se naquela subjetiva (e vice-versa) e as duas tornam-se impagáveis: crise! Ninguém é capaz de prever a duração desta crise e ainda menos de dizer como se construirá uma capacidade política, além de econômica, de gerenciar a multiplicação cumulativa das contradições sociais. Mas as lutas às quais estamos assistindo (desde as revoluções da África do Norte e do Oriente Médio até as manifestações de Wisconsin, nos Estados Unidos, passando pelos recentes tumultos de Londres, Roma e chegando à revolta de 20 mil operários da barragem de Jirau, no Brasil) indicam a urgência dos esforços de apreender o que são hoje a acumulação, o trabalho e a exploração.

Bioprodução. No capitalismo contemporâneo, a fonte do valor encontra-se nas formas de vida. Elas são a base da produção e ao mesmo tempo seu resultado. Produzem-se formas de vida por meio de formas de vida, em espiral: bioprodução.
No regime de acumulação da grande indústria fordista, produziam-se bens por meio de conhecimento (tecnologia). O capital se fixava e se concentrava em gigantescas plantas industriais nas quais o trabalho era massificado dentro de uma relação salarial verticalizada pela separação, de um lado, do trabalho intelectual (rigidamente encastelado nos escritórios de concepção dos tempos e métodos) e, de outro, de um trabalho manual relegado à mera execução de tarefas repetitivas. A mente era separada da mão: o melhor operário era aquele que não pensava. O capital fixo, que Marx chamava também de trabalho “morto” cristalizado nas maquinarias, ficava separado do capital variável (o trabalho vivo). O corpo dos trabalhadores era “esmagado” e tornado dócil pelo duplo mecanismo da individualização (cada um em sua estação com suas tarefas) e da serialização (todos igualmente desqualificados e intercambiáveis). Com o fordismo, o sistema de fábrica passou a disciplinar toda a sociedade (o consumo, a cidade, a escola). A produção ditava assim os “tempos” da reprodução; o tempo “livre” virava tempo “de lazer”, do consumo espetacular da norma disciplinar. A métrica do valor era nítida e passava pelos mecanismos dessa economia do tempo ou pelas quantidades marginais de bens produzidos. O tempo de vida era separado entre tempo de trabalho e tempo livre (lazer) e, em seguida, articulado (pelos cálculos de produtividade) entre tempo de trabalho necessário (o salário) e tempo de trabalho excedente (a acumulação). O valor era, pois, duplamente objetivado e mensurável: na dimensão temporal da mais-valia e na dimensão material (marginal) do bem que, uma vez validado socialmente pelo ato de venda, transforma a mais-valia em lucro. Todo valor era “produzido” dentro dos muros da fábrica e de sua relação salarial. O carro é valorizado na fábrica e passa a perder valor logo que o compramos. As autoestradas de rodagem são infraestruturas de validação social da produção fordista: nelas o valor é consumido para que o ciclo possa recomeçar, voltando ao seu cerne, a grande fábrica.
No capitalismo contemporâneo, produz-se conhecimento (formas de vida) por meio de conhecimento (formas de vida): bioprodução. Seu paradigma é a rede (a sociedade), e não a fábrica. Em suas “estradas” circulam informações. É uma mudança radical de paradigma: ao passo que o carro que circula nas estradas de rodagem se consome e quanto mais circula mais perde “valor”, a informação adquire valor porque circula e quanto mais se hibridiza na circulação mais se torna “valiosa”. Os dogmas da teoria econômica vão por água abaixo: as informações são cumulativas, não rivais e não exclusivas.
Diante da mudança de paradigma, a renovação de um ponto de vista de classe passa pela resposta a estas perguntas: 1) Que valor é esse que, circulando, aumenta em vez de se consumir? 2) Qual é o trabalho que produz esse valor? 3) Enfim, como funciona aexploração desse “trabalho” e, pois, a acumulação desse “valor”?
1) A fonte dovalorsão as formas de vida que se produzem e reproduzem, entre circulação e reprodução. Esse valor não pode mais ser definido pela “medida dos excedentes” (de tempo de trabalho), mas depende da desmedida dos suplementos de vida que são fruto da mistura de tempo de trabalho e tempo livre. A principal fonte de valor reside, portanto, na combinação social do saber-fazer do trabalho vivo, e não mais na combinação (assalariada) de capital fixo e trabalho de execução repetitivo e despersonalizado. O bem material (o carro, o sapato, a roupa, o telefone celular) passa a ser o suporte de todos esses elementos intangíveis que dependem, por um lado, da tecnologia e, por outro, das atividades de comunicação. Desse modo, empresas sem fábrica procuram conectar-se a determinadas dinâmicas de produção do intangível, enquanto terceirizam a produção material em qualquer lugar do planeta. Assim, a Volkswagenconcentra suas atividades nos serviços de design, distribuição, logística, propaganda e tecnologia para que os fornecedores dos diferentes módulos entrem com seus próprios operários na fábrica (em Rezende, no Rio de Janeiro) e montem os ônibus. A multinacional Nike procura a parceria da Central Única de Favelas (Cufa) ou do cantor Mano Brown para desenvolver produtos ligados a valores do “mundo” (cultura) da periferia. A firma carioca Osklen lança um sapato “Samba” (o “mundo do Carnaval”) e os chinelos Havaianas vendem mundo afora o “mundo da praia do Rio de Janeiro”. Os serviços também precisam dessa alavanca cognitiva: a abertura da primeira agência do Banco Santander no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro (meses antes da ocupação militar de novembro de 2011) foi preparada por propagandas interpretadas pelo líder do AfroReggae: o banco multinacional “significa” sua expansão nas periferias como “inclusão social”; quanto à Nextel, ela mobiliza o rapper MV Bill ou um jovem talento do futebol: a telefonia móvel como serviço do “sucesso” dos jovens pobres.

2) Trabalhar, nesse contexto, significa produzir “suplementos” de vida, ou seja, produzir subjetividade: significação e conhecimento, relação e julgamento, cultura e natureza. Trata-se de um trabalho imaterial: recomposição da mão e da mente, de trabalho manual e intelectual, de tempo de vida e tempo de trabalho. O trabalho vivo, articulado em redes (redes de cérebros) passa a conter o capital variável e ao mesmo tempo o capital fixo. O trabalhador não é apenas aquele que está dentro da relação salarial, mas também se encontra difuso no conjunto das redes sociais, nos territórios metropolitanos, nas atividades de produção e reprodução, nas redes de terceirização. O trabalho intelectual, aquele que caracteriza a performance virtuosa de um bailarino, de um professor, de uma mãe de santo ou de um médico e que Marx dizia não ser produtivo por não objetivar uma obra separada do ato de sua produção, torna-se o paradigma do trabalho em geral. O trabalho imaterial – comunicativo, cognitivo, afetivo – assume as formas da execução virtuosa cujo produto é totalmente relacional e inseparável do processo de sua produção. A partitura que os trabalhadores virtuosos executam é o intelecto geral: o nível de educação, saber, cooperação que caracteriza as redes e os territórios, em particular aqueles desenhados pelas redes metropolitanas. É esse trabalho relacional e público do virtuoso que produz “mundos”, ou seja, “culturas”: o samba dos sapatos da Osklen, a cultura da praia dos chinelos Havaianas, a centralidade da periferia exaltada pela Cufa, as políticas de mediação dos conflitos articuladas pelo AfroReggae, as redes logísticas e de serviços que permitem às montadoras de não montar mais nada e concentrar suas atividades no intangível: projeto, design, marca, distribuição. O “carro” é material, mas nesse caso também o valor é cognitivo: o fato da tecnologia (incorporada no processo e no próprio bem) e do intangível.
3) No capitalismo cognitivo, a disciplina dos tempos e métodos é substituída por mecanismos de controle indiretos: obrigatoriedade dos resultados, prescrição da subjetividade e precarização. A exploração do trabalho imaterial investe a posterioriuma valorização que ocorre fora da relação salarial e/ou dentro dos processos de sua segmentação. Ou seja, na medida em que o valor tem como bases as fortes doses de subjetividade e, pois, de autonomia do trabalho imaterial, a exploração funciona como um aparelho de captura de duas “molas”: por um lado, pela fragmentação e segmentação sistemáticas das relações sociais (via privatizações e desregulamentação); por outro, pela multiplicação dos esforços de “colar” aos fluxos de criação e invenção que as redes (sociais e técnicas) proporcionam (via leis da propriedade imobiliária e intelectual). Os dispositivos de exploração do trabalho imaterial articulam-se assim nas infinitas modulações da relação paradoxal que liga entre si a precarização da relação salarial e a autonomia do trabalho: de um lado, fragmentos socializados pelos dispositivos privados e estatais (a telefonia móvel privatizada, as leis do copyright, as milícias nos territórios); de outro, a multidão de singularidades que cooperam entre si produz o comum por meio do comum (nos pré-vestibulares comunitários, nos pontos de cultura, nas comunidades do software livre, nas reservas, nos quilombos, nas favelas).

Biolutas. As finanças estão por toda parte e funcionam como mecanismo perverso de uma inclusão generalizada que mobiliza os pobres enquanto pobres, enquanto excluídos: inclusão dos fragmentos e exclusão das singularidades constituem duas faces de um mesmo investimentoparadoxal da subjetividade. As lutas de classe hoje definem esse limiar entre autovalorização do trabalho dos pobres e nova escravidão.Autovalorização: os informaisque todo dia inventam sua vida e suas condições de trabalho; os precáriosque, como anjos, desdobram-se nas atividades de cuidado das crianças, dos idosos e dos enfermos e proporcionam flexibilidade aos processos produtivos; os trabalhadorescognitivosque remixampermanentemente os saberes e os fazeres em novas e potentes soluções tecnológicas e culturais. Nova servidão ao capitalismo mafiosode ontem (as milícias) e de hoje (os donos das patentes, do copyright e dos serviços privatizados); àsprestações pessoais de tipo servil que caracterizam as sucessivas relações de terceirização; ao totalitarismo afetivo do projeto de empresa que leva seus empregados ao suicídio, como aconteceu nos centros de pesquisa da France Telecom, da Renault ou do fabricante chinês do iPhone. As lutas de classes no capitalismo contemporâneo são biolutas: elas ocorrem justamente em torno do duplo e paradoxal processo de inclusão e fragmentação da vida no trabalho. O sujeito dessas lutas é a multidão dos pobres: no governo Lula, eles passaram a ser chamados de “classe C”: com seu telefone celular, na favela pacificada, com o Bolsa Família, o acesso ao crédito e aos ensinos técnico e superior. Enquanto os pobres são reconhecidos como a mais nova jazida de um novo ciclo de acumulação, não são reconhecidas suas dimensões produtivas. O horizonte das políticas de distribuição de renda continua sendo o emprego e o mercado. A massificação do Bolsa Família não rompe com sua dimensão neoliberal: todos os meses, milhares de famílias – as mais vulneráveis, aquelas que mais precisam − são expulsas do benefício, sacrificadas no altar da condicionalidade. Da mesma maneira, os Pontos de Cultura são sacrificados no altar da restauração do deus ex machina: o “artista” criador. Os megaeventos (Mundial de Futebol, Olimpíadas) e até o programa de moradia popular Minha Casa Minha Vida são usados para “remover” (de maneira ilegal e autoritária) favelas e favelados de determinadas áreas em nome de uma valorização imobiliária que estremece as já dramáticas formas de segregação espacial dos pobres. Os megaempreendimentos são planejados segundo a mais pura lógica instrumental – exatamente como se fazia no regime militar do qual os economistas neodesenvolvimentistas gostam de fazer apologia: nem os índios e ribeirinhos de Belo Monte, nem os moradores de Santa Cruz (no Rio de Janeiro) da Companhia Siderúrgica Atlântica, nem os moradores de favelas e vilas, nem os operários de Jirau e tampouco os Pontos de Cultura entram nos cálculos a não ser como “obstáculos” a serem “removidos” ou pré-moldados nas pracinhas culturais que a Casa Civil impõe por meio do MinC restaurado. Mas os índios que resistem a Belo Monte, os moradores que defendem suas comunidades no Rio de Janeiro, os operários que se revoltam em Jirau, os ativistas dos Pontos de Cultura, dos pré-vestibulares e da cultura digital afirmam em suas lutas as dimensões produtivas da vida. Nesse sentido, as biolutas são, ao mesmo tempo, produtivas e reivindicativas. Na luta contra a fragmentação, elas produzem o comum: os territórios da mestiçagem entre cultura e natureza; a cidade dos pobres; um emprego decente; a rede dos movimentos culturais; o trabalho de amor dos professores dos pré-vestibulares, dos animadores dos Pontos de Cultura e dos hackers que colaboram gratuitamente em rede. Em contrapartida, indicam uma batalha fundamental, aquela do reconhecimento da dimensão de classe da “classe C”: não uma faixa de consumidores definidos pelas curvas do poder de compra de “mundos” impostos pelo capital, mas o trabalho dos pobres que produz uma nova terra e um novo povo: sua cultura, brasileira e antropofágica. Dos êxitos dessa batalha em prol do reconhecimento das dimensões produtivas da vida dependerá, pela instituição de uma Biorenda (uma Renda Universal de Existência), a solidificação das instituições do comum. Os “núcleos de Biolutas” que estão nascendo dentro e fora do PT pretendem ser “pontos” dessas linhas de inovação.

Giuseppe Cocco é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é autor, entre outros, de GLOBAL – Biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Record, 2005), escrito em conjunto com Antonio Negri.

sábado, setembro 03, 2011

Record News - 1/09/2011 - José Dirceu e a matéria da Veja



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Entrevista exclusiva: Zé Dirceu diz que vai à OEA e SIP contra Veja


Entrevistei o ex-ministro José Dirceu por telefone. Ele disse que está aguardando a investigação policial para processar a Veja, mas que vai, inclusive, à OEA e à SIP contra a revista. Dirceu cogita várias hipóteses para a tentativa de invasão do seu apartamento no Hotel Naoum, até a de terem tentado colocar uma escuta no seu quarto.
Também afirma que não recebeu solidariedade de nenhum diretor de grande veículo da imprensa nacional no episódio: “Eles querem me ver morto ou preso.”


Ministro, o senhor acha que a revista Veja só soltou esta matéria de capa no último final de semana em decorrência de o hotel ter registrado o boletim de ocorrência pela tentativa de invasão do seu quarto, já que as fotos que eles utilizam são de junho?

Não. Acho que eles iriam soltar a matéria de qualquer jeito. O que estavam discutindo é se faziam capa ou não. Quando fizemos o Boletim de Ocorrência, resolveram fazer capa. A matéria eles iriam fazer. Na verdade, o que precisamos avaliar é por que eles fizeram essa matéria. Se foi por causa do julgamento no Supremo ou se é uma tentativa de criar algo novo contra o governo. Porque se você analisar eles fracassaram na questão da separação da Dilma, de dividir a base dela, entendeu? De tirar o PMDB e o PR da base. E para piorar, para eles, o PV acabou decidindo apoiar a Dilma. Além de o Fernando Henrique e o Aécio terem feito este gesto de estender a mão, sem entrar no mérito da divisão do PSDB, com o Álvaro Dias e o Serra se posicionando contra.
O resultado final disso tudo é que a estratégia de rachar a base do governo não deu certo. E eles voltam para a estratégia deles.
Não sei se você se recorda, mas em setembro, quando fui à Bahia, fizeram toda aquela campanha de que eu estaria em uma linha de confrontar a Dilma. Agora voltam para isso.
Na verdade essa é a segunda hipótese. A primeira é que eles produziram esta matéria para tentar influenciar o julgamento no Supremo Tribunal Federal. Mas a coisa vai se complicar, porque tudo indica que eles plantaram uma câmera lá no hotel. É quase certeza isso.


O senhor esta falando da câmera no corredor?
Exato, que não é a câmera do hotel. A situação vai começar a complicar, porque vai se descobrir quem plantou a câmera lá. Brasília é muito pequena e eu estou sentindo empenho por parte da policia.


O senhor vai processar a Veja?
Isso eu tenho que fazer na hora que tiver a informação de que a câmera foi plantada e souber quem fez isso. Muita gente considera isso gravíssimo. A Veja não está tendo defensores neste episódio. A mídia não critica, mas também não a defende. A Folha, o Globo, o Estadão, por exemplo, não deram matéria, mas também não defenderam a Veja. Se nós conseguirmos provar que foi uma câmera plantada e viermos a descobrir o nome da pessoa que fez isso, daí eu já tenho dois dos melhores criminalistas do Brasil que vão trabalhar numa ação contra eles. Mas, só posso fazer a coisa na hora certa, porque se não eles vão transformar em censura e essas coisas todas. Já começaram a desviar o foco com a história da discussão da regulação da mídia no Congresso do PT. Todo encontro do PT aprova isso. E eu nunca liguei o assunto da Veja a regulação, porque o assunto da Veja é caso de policia, de delegacia. Não é uma questão política, o que a Veja fez é crime. Eles têm que ser processados por crime, não é porque falaram isso ou aquilo de mim. Isso é outra discussão. Se eu estou tendo influência no governo, se eu estou fazendo advocacia administrativa, em relação a esses assuntos ela pode falar o que ela quiser. E eu respondo. Mas o caso é outro… caso de polícia.


Não consigo entender por que eles guardaram essas imagens desde junho, o senhor tem alguma hipótese em relação a isso?
É mais provável que eles só vieram a receber essa fita agora. Alguém pode ter vendido essa fita para eles, porque necessariamente eles não têm de estar na origem da fita. Mas isso é tudo hipótese. Outra hipótese é que eles estavam tentando me grampear, porque o jornalista pode ter tentando entrar no meu apartamento para várias coisas. Pode ter tentado entrar para colocar droga, dinheiro ou ainda para colocar uma escuta. Hoje existem escutas muito sofisticadas.


Ou seja, para mover uma ação o senhor vai esperar a investigação policial avançar?
Temos que fazer uma ação muito bem feita, porque em geral a justiça é sempre pró-mídia, né?



Mas digamos que o caso Murdoch cria um novo tipo de jurisprudência…
Claro, a situação hoje em dia é melhor. Por isso estou pensando em ir aos Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) e fazer uma provocação a eles. E ao mesmo tempo fazer uma representação contra a Veja na SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Fazer o que eles fazem com a Venezuela e com Cuba. Aí é mais provocação, porque a gente conhece a SIP, né? (Se o leitor não conhece, vale a pena ler este texto do Altamiro Borges).


Ou seja, o senhor vai fazer uma ação política de cunho mais internacional?
Isso, pretendo fazer isso. Eu não vou deixar barato, não. Vou confrontar… vou enfrentar a Veja.


Por fim, o senhor teve alguma solidariedade de diretores de redação ou de proprietários de veículos comerciais tradicionais?
Não. Eles querem me ver morto ou preso.
PS: Na entrevista José Dirceu disse que apenas Reinaldo Azevedo, Lucia Hipólito e Augusto Nunes defenderam a revista Veja. E acrescentou: mas eles… Não sei porque cargas d´água eu saltei esse trecho na hora da transcrição.

http://www.revistaforum.com.br/blog/2011/09/02/entrevista-exclusiva-ze-dirceu-diz-que-vai-a-oea-e-sip-contra-veja/

4º CONGRESSO DO PT


From: MVM


Com presença de Dirceu, Dilma exalta governo Lula em congresso do PT (&) José Dirceu recebe apoio de Lula e Dilma e é ovacionado em congresso do PT -

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02/09/2011 -


Com presença de Dirceu, Dilma exalta governo Lula em congresso do PT

O governo Lula não é uma herança, porque eu estava lá. Os erros e os acertos (do governo Lula) são meus erros e acertos, declarou Dilma


Foto: Agência Brasil

Ao participar da abertura do 4º Congresso do PT nesta sexta-feira, em Brasília, a Presidente da República Dilma Rousseff reagiu sobre comentários de ter recebido uma "herança maldita" do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.




Dilma estava com um tom muito mais descontraído do que o habitual, falando de improviso, sentada ao lado do ex-presidente. Outras personalidades da legenda compareceram.




Para a presidente, o legado do governo Lula não é uma herança, pelo fato de ter participado dele. "Eu estou firmada sobre uma pedra muito sólida, que é a experiência de oito anos de um governo de que eu tive a honra de participar. Não é uma herança, porque eu estava lá. Os erros e os acertos dela (da experiência) são meus erros e acertos", declarou.




Sentado atrás dos dois, o ex-ministro José Dirceu foi uma das personalidades que mais chamaram a atenção na noite. Depois de dizer que Lula foi um dos presidentes que mais combateram a corrupção no país esta semana durante entrevista na "Record News", Dirceu também afirmou que jamais conspirou contra Dilma, rebatendo acusações da revista "Veja".




Segundo Dilma, as críticas tentam invalidar conquistas do governo do PT durante os dois mandatos do presidente Lula.


"Nós mudamos a lógica de crescimento do país, e este país tem a força que tem porque temos esta herança, este legado", disse. "Muitas coisas que fazemos, só foram possíveis de realizar porque temos essa experiência, dos nossos acertos e dos nossos erros. Ela é que sustenta a nossa trajetória", completou.




Dilma ainda fez questão de ressaltar que não apoia a "execração pública" de pessoas suspeitas de corrupção. "Eu acredito na Justiça, e que ela não se faz com caça a bruxas, nem com colocação de pessoas à execração pública, com retirada de direitos. Principalmente, porque essas ações espetaculares acabam com a presunção de inocência".




A presidente disse também que o grande aprendizado dela com Lula foi o da necessidade de "ouvir o coração". "Um conselho que o presidente Lula me deu é que quando as coisas estiverem difíceis, quando eu tiver de decidir, e a razão não deixar o caminho claro, que eu devo seguir o meu coração. A voz do coração é aquela que diz o que nos temos que olhar, dar valor, levar em consideração, proteger e acolher os setores mais frágeis do nosso país".




Em um tom muito mais descontraído do que o habitual, falando de improviso, a presidenta declarou ainda que, no PT, sentia-se em casa. O ex-presidente Lula, que discursou antes de Dilma Rousseff, dirigiu-se a ela em um tom tranquilizador, dizendo que, com os partidos aliados e com o PT, não há problema que não possa ser vencido por ela. "Com os aliados e com o PT não há vulcão, tempestade e furacão que não possam ser vencidos".




Este 4º Congresso do PT também esfriou as especulações de que o ex-presidente Lula será candidato às eleições presidenciais em 2014. E firmou para a militância que a presidente é Dilma Rousseff. Ao mencionar, olhando para a sucessora, que o Brasil tem que ser o indutor do desenvolvimento na América Latina, Lula foi direto ao ponto: “Oito meses é muito pouco para quem irá governar por oito anos esse país. Só foram 10% do tempo que você vai ter".

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Assista o Vídeo:
José Dirceu recebe apoio de Lula e Dilma em congresso do PT
http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2011/09/02/04024D9C3162CC812326.jhtm?dirceu-ganha-apoio-de-lula-e-dilma-em-congresso-do-pt-04024D9C3162CC812326

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02/09/2011 -


PT abre congresso com desagravo a Dirceu e críticas à mídia


Os principais discursos foram do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff, mas a estrela da primeira jornada do 4º Congresso do PT, nesta sexta-feira (2), foi o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. Sentado logo atrás da ocupante do Palácio do Planalto, a quem abraçou várias vezes, ele ganhou afagos, declarações de apoio e motivou críticas à mídia pela cobertura que faz de suas atividades.


O primeiro a defender Dirceu - que integrou a mesa do encontro por ter sido presidente do PT - foi o líder da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Arthur Henrique: sugeriu um processo do partido contra a revista “Veja”, que acusou o ex-ministro de conspirar contra Dilma em um hotel de Brasília. Dirceu afirmou que a publicação tentou invadir seu quarto, onde se reuniu com ministros e líderes partidários, como mostram imagens divulgadas na revista.


Em seguida, o presidente do PT, Rui Falcão, citou o colega como um dos que “contribuiu para que o partido se tornasse referência mundial”. Os militantes aplaudiram e gritaram “Dirceu guerreiro do povo brasileiro”. O dirigente petista fez novas críticas à imprensa, pedindo regulamentação do setor sem atingir a liberdade de expressão.


O principal sinal de que Dirceu estaria bem aninhado no Congresso veio do ex-presidente Lula. “Eu li em um jornal esses dias que ia ter uma nota de apoio ao Zé Dirceu com meu aval. Nunca falaram comigo. Mas já que estou aqui, digo: tem o meu aval”, afirmou. “Não é possível as pessoas construírem as mentiras que querem construir e depois a gente ter de explicar para a sociedade brasileira.”


Dilma também fez reverência ao citar os ex-presidentes do PT que estavam presentes. “Cumprimento em nome de todos eles o companheiro José Dirceu”, disse a presidente.



A Presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o ex-ministro José Dirceu participaram do 4º Congresso Nacional do PT





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Fotos:



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O ex-FHC-e-atual-naaaaada é N.Sra. de Guadalupe! [risos, risos]

Na Folha de S.Paulo:
A tradução que a Folha de S.Paulo publicou ontem do artigo “The New ‘Brazil’s Wall Street’ Problem”, de Mark Weisbrot, é RIDÍCULA. Pode ser lida (mas não se recomenda) em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3108201114.htm, e abaixo, cortada-colada para referência. 

O original, em excelente inglês, pode ser lido em Counterpunch, hoje, em
http://www.counterpunch.org/2011/09/01/brazils-wall-street-problem/

Na RIDÍCULA tradução publicada, há milhões de bobagens que DESTROEM o artigo, a maioria das quais são de responsabilidade exclusiva da tradutora: a tradução é simplória, ginasiana, insuficiente – se não for mal-intencionada. Sobra, do argumento do autor, o que sobraria se alguém cometesse o tresloucado gesto de entregar Wittgeinstein para ser traduzido por D. Danuza Leão.

A mais INACREDITÁVEL das tolices traduzidas e publicadas é: “FHC presidiu sobre um fracasso econômico” (sic). No original lê-se “FHC presided over an economic failure”. A tradução que a FSP publicou está ERRADA.

A tradução correta é “FHC presidiu um fracasso econômico” – no sentido de “FHC presidiu PESSOALMENTE e DIRETAMENTE um fracasso econômico, que é o que o autor escreveu: que FHC presidiu um fracasso econômico.

É preciso haver uma coalizão de incompetências – tradutor incompetente e revisor incompetente – sob a regência de editor salafrário e publisher ou burro ou pirado, além de incompetente –, para que um jornal que é VENDIDO a consumidores publique tão completa imbecilidade quanto "FHC presidiu sobre um fracasso", como se o sacripanta fosse superior ao fracasso econômico [risos, risos, pq, francamente, é engraçadíssimo!] que o sacripanta PRESIDIU por oito anos!

Para publicar aquele mostrengo à guisa de tradução, aquela coalizão de incompetências tem de pressupor também que o autor do artigo seria perfeito idiota, alguém que escreveria que FHC seria alguma espécie de Virgem de Guadalupe pairando sobre o próprio governo, como se nada tivesse a ver com o fracasso que FHC, sim senhores, presidiu, com a ajuda da social-democracia brasileira & escória udenista golpista adjunta eternamente amancebada com o Grupo GAFE (Globo/Abril/Folha/Estadão) da facinorosa mídia-empresa brasileira.

E a mesma coalizão de incompetências tem de pressupor também que sejam idiotas todos os leitores-consumidores PAGANTES da Folha de S.Paulo.

Aquela coalizão de incompetências, portanto, que distribua jornal gratuito, feito folheto de propaganda de mãe-Dinás e material de propaganda eleitoral pelas esquinas, se querem publicar a asnice que lhes dê na telha. Mas nem tentem convencer alguém de que o que hoje impingem a consumidores pagantes seja jornalismo. Não é, sequer, subjornalismo. É lixo. Papel-tela sujo.

Os consumidores assinantes pagantes da Folha de S.Paulo exigem ser reembolsados da grana que pagaram para ler a Folha de S.Paulo.

Infelizmente, não há chance de melhorar: para o dia seguinte, hoje, por exemplo, a Folha de S.Paulo já ameaçava ontem: “Amanhã, em Mundo, Clóvis Rossi”. NINGUÉM MERECE! Até quando?!

PS. Mark Weisbrot é inimigo figadal de um inimigo figadal da razão, do bom-senso, da racionalidade, da informação confiável e da democracia universal, Reinaldo Azevedo, que não perde vez de ‘denunciá-lo’ como perigoso ‘chavista’ (por exemplo, em
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/mark-weisbrot/).

É possível, portanto, que a Folha de S.Paulo, ao publicar esse tipo de tradução degradada do que Mark Weisbrot realmente escreva, esteja, sim, tentando enganar todos ao mesmo tempo: a Folha de S.Paulo finge que publica autores que manifestariam ‘o outro lado’; mas degrada de tal modo o que o autor escreve, que consegue que ‘o outro lado’ fique com cara do sempre mesmo e único lado, o lado da Folha de S.Paulo – que jamais é o lado da boa democracia civilizada.

Simultaneamente, dado que Reinaldo Azevedo espinafra autor publicado pela Folha de S.Paulo, tudo se passa(ria) como se Reinaldo de Azevedo e a Folha de S.Paulo fossem vozes de lados diferentes... quando são todos o mesmo, sempre o mesmo, lado: sujo, tresloucado, fascistizante, de desjornalismo acanalhado e acanalhante, sob diferentes máscaras de diferentes 'opiniões'. No máximo são vozes jornalísticas diferentes, da mesma opinião desjornalística e fascistizante.

A possibilidade de que, nessa coalizão de incompetentes e fascistas que militam no Grupo GAFE (Globo/Abril/Folha/Estadão), haja muitos incompetentes e/ou fascistas sinceros não melhora coisa alguma, em nada: nem por ser muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito sincero, algum fascista algum dia deixou de ser fascista.

O leitor consumidor pagante, que paga para ter acesso aos produtos dessa mídia-empresa – que se apresenta como mídia-empresa tecnicamente capaz e empresarialmente confiável, merecedora por isso da liberdade de manifestação que a lei lhe assegura, mas que, de fato, não passa de mídia-empresa de engambelamento da opinião pública –, é vítima desse golpe 'midiático' de 'dois lados' que são sempre o mesmo lado sujo, deseducativo, deformador, atrasante, emburrificador, alienante.

Quem sabe, um dia, o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) salva os brasileiros que pagamos para consumir jornalismo, desses "rogue" jornalistas, empresários e profissionais empregados?!
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Tradução publicada na Folha de S. Paulo, 31/8/2011 (em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3108201114.htm só para assinantes e abaixo, cortada-colada para que todos vejam. Quem não ler, talvez não acredite!)
MARK WEISBROT


O problema "Wall Street" do Brasil



Tirando os interesses do setor financeiro, não há razões para sacrificar crescimento para reduzir a inflação



A economia brasileira está crescendo mais devagar, mas o governo está reduzindo seus gastos para aumentar seu superavit primário, algo que pode desacelerar a economia ainda mais.
A produção industrial caiu 1,6% em junho, e a atividade econômica caiu pela primeira vez desde 2008.
Embora as cifras mensais sejam erráticas e não necessariamente indiquem qualquer tendência, o quadro maior provoca perguntas sobre se a política seguida pelo governo é apropriada, diante dos crescentes riscos e ventos contrários na economia global. Não me interprete mal. A política e os resultados econômicos do Brasil desde que Lula foi eleito, em 2002, têm tido uma melhora imensa em relação a FHC.
Este, que foi objeto de muito amor e afeto em Washington por ter implementado as políticas neoliberais do "Consenso de Washington", presidiu sobre um fracasso econômico. A economia cresceu meros 3,5% por pessoa durante seus oito anos. A performance de Lula foi imensamente melhor; com crescimento per capita de 23,5%, com um aumento real de 60% no salário mínimo e reduções consideráveis no desemprego e na pobreza, realmente não existe comparação. É provável que o mandato de Dilma tenha resultados ainda melhores.
Mas o Brasil tem um problema estrutural que é semelhante a um dos problemas maiores que temos nos EUA: o setor financeiro é grande demais e detém poder excessivo.
Como este setor não tem muito interesse no crescimento e desenvolvimento -é muito mais obcecado por seus próprios lucros e por minimizar a inflação-, seu controle sobre o Banco Central e a política macroeconômica impede o Brasil de realizar seu potencial. E o potencial do país é imenso: entre 1960-1980, a economia brasileira cresceu 123% por pessoa. Se o Brasil tivesse mantido esse ritmo de crescimento, os brasileiros hoje teriam padrões de vida europeus.
A inflação está em queda no Brasil no momento -nos últimos três meses foi de 4% ao ano, contra 7% no ano passado. Tirando os interesses estreitos do setor financeiro, não existem razões para sacrificar crescimento ou emprego para reduzir a inflação. O setor financeiro é também o maior vilão por trás da sobrevalorização do real, que está prejudicando a indústria e o setor manufatureiro brasileiros. O Banco Central combate a inflação elevando o valor do real, com isso barateando as importações. Mesmo quando o governo tenta puxar o real para baixo, a nível mais competitivo, o fato de o setor financeiro negociar com vários derivativos impede de fazê-lo.
Entre os anos 2002-2011, a Argentina cresceu 90%, o Peru, 77%, e o Brasil, 43%. Não há razão pela qual o Brasil não possa ter uma das economias de mais rápido crescimento da região, ou mesmo do mundo.
Nos últimos quatro anos, o setor financeiro do Brasil cresceu cerca de 50%, três vezes mais que o setor industrial. Hoje os salários dos gerentes de alto nível estão mais altos que os dos EUA.
Isto não é apenas um enorme desperdício de recursos -é muito mais destrutivo ainda devido à influência política desse setor.

Tradução de CLARA ALLAIN

Epitáfio para outro 11 de setembro


30/8/2011, Ariel Dorfman, The Nation (ed. impressa de 19/9/2011)
http://www.thenation.com/article/163056/epitaph-another-september-11?rel=emailNation

Naquele 11 de setembro, daquela manhã letal de 3ª-feira, acordei apavorado, ao som de aviões que sobrevoavam minha casa. Quando, uma hora depois, vi fumaça subindo do centro da cidade, soube que a vida havia mudado para mim, para meu país, para sempre.

Era 11 de setembro de 1973, o país era o Chile, e as forças armadas haviam bombardeado o palácio presidencial em Santiago, no primeiro estágio de um golpe contra o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. No fim do dia, Allende estava morto, e a terra na qual havíamos tentado uma revolução pacífica fora transformada em matadouro. Passar-se-iam duas décadas, a maior parte das quais vivi no exílio, antes de derrotarmos a ditadura e recuperar nossa liberdade.

28 anos depois daquele dia fatídico de 1973, noutro 11 de setembro, também uma manhã de 3ª-feira, foi a vez de outra cidade também minha cidade ser atacada do alto, e choveu outro tipo de terror, mas, outra vez, o coração cheio de medo, confirmei que nada nunca mais seria como antes, nem para mim, nem para o mundo. Já não se tratava de uma pátria afetada, nem de um povo que sofreria as consequências da fúria e do ódio, mas o planeta inteiro.

Nos últimos dez anos, várias vezes me vi pensando, intrigado, sobre essa justaposição de datas; não consigo tirar da cabeça a ideia de que há alguma espécie de significado oculto por trás ou dentro da coincidência. É possível que minha obsessão seja resultado de viver nos dois países no exato instante dos dois massacres, de tal modo que essas duas cidades assaltadas constituem as pedras angulares da minha identidade híbrida. Porque cresci criança que aprendia inglês em New York e passei minha adolescência e o começo da idade adulta apaixonando-me em espanhol em Santiago, e porque sou tão norte quanto sul-americano, não posso deixar de tomar pessoalmente a destruição paralela de vidas de compatriotas inocentes, esperando que se aprenda o que haja para aprender da dor e da assustadora confusão.

Chile e EUA mostram, com efeito, modelos contrastantes de como reagir a um trauma coletivo.

Qualquer nação que tenha padecido sofrimento tão grande enfrenta séries fundamentais de perguntas que testam seus valores mais profundos. Como buscar justiça para os mortos e reparação para os vivos? Pode-se restaurar o equilíbrio de um mundo partido, cedendo à compreensível sede de vingança contra nossos inimigos? Não nos expomos ao risco de nos transformarmos neles, sob o perigo de nos convertermos em sombra perversa deles – não estamos ameaçados de ser governados pela nossa ira?

Se 9 de setembro puder ser visto como teste, parece-me, infelizmente, que os EUA fracassaram. O medo gerado por uma pequena gangue de terroristas levou a uma sequência tão devastadora de ações que excederam em muito o sofrimento pelo qual passamos no suplício original. Duas guerras desnecessárias que ainda prosseguem, um colossal desperdício de recursos que poderiam ter sido aplicados para salvar nosso meio ambiente e educar nossas crianças, centenas de milhares de mortos e mutilados, milhões de expatriados e deslocados, uma desgraçada erosão dos direitos civis nos EUA e o uso da tortura e da entrega de prisioneiros a torturadores estrangeiros, que acabaram por servir como carta branca para que outros regimes atacassem os direitos humanos. E por último, mas não menos importante, o crescimento de um já excessivo estado de segurança nacional que se alimenta numa uma cultura de mentiras, espionagem, incerteza e insegurança.

O Chile também poderia ter respondido à violência, com mais violência. Se algum dia houve justificativa para pegar em armas contra poder tirânico, a luta dos chilenos satisfazia todos os critérios. Mas o povo chileno e os líderes da resistência – com poucas tristes exceções – decidiram derrotar o general Pinochet pela não violência ativa, tomando de volta para nós o país que nos fora roubado, palmo a palmo, organização por organização, até derrotá-lo num plebiscito que ele poderia ter vencido, mas não venceu. O resultado não foi perfeito. A ditadura ainda contamina a sociedade chilena, mesmo muitas décadas depois de perder o poder. Mas, feitas todas as contas, como exemplo de como criar paz duradoura a partir de perdas e sofrimentos inenarráveis, o Chile comprovou-se decidido a não permitir que jamais voltasse a acontecer outro 11 de setembro de morte e destruição.

O que há de mágico nessa decisão de combater o mal por meios pacíficos é que os chilenos ecoaram, sem saber, mais um 11 de setembro, de 1906, em Johannesburg, quando Mohandas Gandhi persuadiu vários milhares de indianos como ele, num Teatro Império, a aprovar a resistência não violenta contra o governo daquele apartheid injusto e discriminatório. Aquela estratégia da Satyagraha, com o tempo, levaria à independência da Índia e a muitos outros momentos em que se conquistou paz e justiça pelo mundo; levou inclusive ao surgimento do movimento pelos direitos civis nos EUA.

105 anos depois do memorável convite de Mahatma, para que se imaginasse um meio para escapar da armadilha da ira, 38 anos depois daqueles aviões que me acordaram pela manhã, para ensinar-se que eu nunca mais conseguiria escapar do terror, dez anos depois de a New York dos meus sonhos de infância ser destruída pelo fogo, espero que o epitáfio perfeito para todos esses 11 de setembro sejam as palavras imortais de Gandhi: “A violência só derrotará a violência, quando alguém me demonstrar que alguma escuridão possa ser iluminada por mais escuridão.”

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É guerra TOTAL (Marca Registrada), monsieur

3/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online

Os vencedores desse negócio “cinético” no norte da África (o governo Barack Obama jura que não é guerra) – descritos coletivamente como “Amigos da Líbia” [ing. Friends of Libya (FOL)] – mostravam-se risonhos, de excelente humor, ao se reunirem em Paris na 5ª-feira, sem ar condicionado, mergulhados nos odores potentes dos Brie e Roquefort, para celebrar jubilosamente a “operação” sancionada pela ONU e implementada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para derrubar o governo na Líbia.

Pode-se chamar de Guerra R2P (“Responsabilidade de Proteger a Pilhagem ocidental”); ou Guerra da Air France; ou Guerra da [empresa] TOTAL; seja como for, os “Amigos da Líbia” deitaram e rolaram, de olhos postos na divulgação ‘midiática’ de sua glória.

O Grande Libertador de Árabes, presidente Nicolas Sarkozy, o Neonapoleônico, festejava: “Cerramos fileiras com o povo árabe, em suas aspirações por liberdade”. Bahrainis, sauditas, iemenitas, para não falar de tunisianos e egípcios, têm muitos motivos para estar muito intrigados.

Sarkô acrescentou: “Dúzias de milhares de vidas foram poupadas, graças à intervenção”. Até os ‘rebeldes’ já divulgaram que houve pelo menos 50 mil mortos, com a OTAN ainda ocupada, bombardeando com selvageria.

O emir do Qatar afinal admitiu que Muammar Gaddafi, ainda foragido, não teria sido derrubado sem a OTAN. Mas acrescentou que a Liga Árabe poderia ter feito mais. De fato, fez: ofereceu um voto-álibi espúrio que abriu caminho para a aprovação da Resolução n. 1.973, redigida por franceses e britânicos.

O primeiro-ministro interino do Conselho Nacional de Transição [ing. Transitional National Council (TNC)] Mahmoud Jibril garantiu que “O mundo apostou nos líbios, e os líbios mostraram sua coragem e tornaram real o sonho”. “Mundo”, agora, significa “OTAN e umas poucas monarquias atrasistas do Golfo Persa”. Quanto ao resto, caluda.

Mas o mais sinistro, ator perfeito para o personagem, parece ter sido o secretário-geral da OTAN general Anders Fogh Rasmussen: “Não temos nenhum tipo de plano para intervir nos conflitos na Região”. E aí veio o inevitável “mas”: “Mas, em termos mais gerais, acho que se definiu um modelo. Demonstramos habilidade para agir em apoio às Nações Unidas e demonstramos habilidade para incluir parceiros externos da OTAN nesse tipo de operações”.

África e Oriente Médio, para nem falar de, na prática, quase todo o sul global, fiquem avisados: o imperialismo humanitário, sob o disfarce de R2P, é a nova lei do mundo.

Garantindo o butim

Horas depois do convescote à francesa, o diário Libération publicou em sua página na Internet uma carta datada de apenas 17 dias depois da Resolução n. 1.973. Na carta, o Conselho Nacional de Transição ratifica o acordo pelo qual cede nada menos que 35% da produção total de petróleo bruto da Líbia, em troca do apoio “humanitário” de Sarkô.

A carta é dirigida ao gabinete do emir do Qatar (rapaz de recados entre o Conselho Nacional de Transição e a França, desde o início) – com cópia para o então secretário-geral da Liga Árabe Amr Moussa – em papel timbrado da Frente Popular para a Libertação da Líbia.

O acerto confere exatamente com o que disse um funcionário de uma empresa de petróleo na Cyrenaica semana passada – que os “vencedores” da bonança do petróleo seriam as nações que, desde o início, apoiaram o Conselho Nacional de Transição.

Como era de esperar, houve dúzias de declarações para desmentir acordo, carta, tudo. O Quai d'Orsay – ministério de Relações Exteriores da França – disse que jamais ouvira falar de tal carta. Exatamente o mesmo, disse também Mansur Said al-Nasr, enviado especial do Conselho Nacional de Transição ao convescote em Paris. O homem do CNT na Grã-Bretanha, Guma al-Gamaty, acrescentou que todos os futuros contratos de petróleo serão distribuídos por “critérios de méritos”. E até a gigante francesa de energia, TOTAL, teve de se mexer: o presidente executivo da empresa, Christophe de Margerie, jurou que nunca discutiu negócios de petróleo com o CNT líbio.

Como se Sarkô e a empresa TOTAL fossem movidos por princípios altruístas, humanitários à moda de Rousseau, que jamais perderiam um segundo de tempo por causa de reles 44 bilhões de barris de petróleo.

Desde junho passado, a TOTAL já estava em Benghazi discutindo precisamente “petróleo”, com o CNT líbio. Já está em curso amarga “guerra de petróleo” intraeuropeia, entre a TOTAL e a italiana ENI.

A ENI – que opera na Líbia desde 1959 – já assinou acordo com o CNT para retomar os negócios e voltar imediatamente a fornecer combustível à Líbia – a ser pago futuramente, em petróleo. Quanto à TOTAL francesa, quer garantir fatia maior no bolo energético líbio; para isso, conta com receber novos contratos.
Deriva rumo às Arábias
É quase-oficial: a Líbia já não fica na África. Foi realocada (promovida?) para as Arábias. Talvez o rei saudita Abdullah tenha assinado o decreto, e ninguém nem percebeu.

Não há africanos nos “Amigos da Líbia” [ing. Friends of Lybia (FOL)]. A União Africana recusou-se a reconhecer o Conselho Nacional de Transição; só reconhecerá governo líbio se, por lá, aparecer governo legítimo.

Enquanto a OTAN seguia pela Air France – libertação vinda do céu, em classe executiva –, a União Africana desde o início clamou por um cessar-fogo, com início de negociações. Os “Amigos da Líbia” ignoraram imperialmente a União Africana.

É como se, hoje, só os africanos já soubessem que a missão de “proteger civis” da OTAN entrou em nova fase: bombardear Sirte – onde projéteis inteligentíssimos só matam apoiadores “do mal” (apoiadores de Gaddafi) camuflados em trajes civis, enquanto todas as boas pessoas escapam incólumes.

Também só os africanos parecem ter ouvido a ameaça de Ali Tarhouni – íntimo amigo do Qatar –, do Conselho Nacional de Transição; foi ameaça típica da era Vietnã. Falando das poucas cidades e regiões ainda leais a Gaddafi, Tarhouni disse que “Às vezes, para evitar derramamento de sangue, é preciso derramar sangue. Quanto mais depressa agirmos, menos sangue será derramado.”

Também provavelmente, só os africanos já sabem da limpeza étnica continuada, ininterrupta, da qual começam a aparecer cada vez mais notícias (não na imprensa-empresa), perpetrada pelos ‘rebeldes’. Como se o resto do mundo não soubesse que o povo da Cyrenaica sempre foi extremamente preconceituoso contra africanos subsaharianos.

Ou, quem sabe, só os africanos interpretaram corretamente a agenda dos “Amigos da Líbia” e viram ali, bem claros, o novo status da Líbia, de mal disfarçada colônia ocidental, e a fábula neo-Orwelliana do ‘imperialismo humanitário’.
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quinta-feira, setembro 01, 2011

Agora, é a vez da Síria


30/8/2011, M. K. Bhadrakumar, Voltaire.nethttp://www.voltairenet.org/It-is-going-to-be-Syria-s-turn

Se a semelhança entre os cenários da devastadora mudança de regime no Iraque e na Líbia significa alguma coisa, o futuro da soberania de Bashar al-Assad na Síria pode estar por um fio. O xis da questão – lembro eu – é que mudar o regime na Síria é providência absolutamente central para todos os objetivos dos EUA no Oriente Médio. As coisas estão de tal modo interligadas, que vários objetivos estratégicos podem ser obtidos numa só cajadada, dentre os quais, e importante, diminuir muito a influência de Rússia e China na região. Não é oportunidade que Washington deixe passar.

A imagens que chegavam de Trípoli ontem eram fantasmas estranhamente semelhantes a outros, já vistos. Buzinas soando, Kalashnikovs disparadas para o ar, jovens e crianças andando sem rumo pelas ruas de casas e prédios em ruínas, fotógrafos e cinegrafistas ocidentais vorazmente recolhendo fragmentos de frases em inglês de pé quebrado, da boca de qualquer personagem local disposto a divulgar os imorredouros ideais da Revolução Francesa de 1789 e da Magna Carta. Outro espaço, outro tempo, as imagens eram as mesmas, mas não se consegue localizá-las exatamente. Poderiam ser fiapo de lembrança, que se esgueira dos porões da mente, ou esquecido ou expulso da consciência? Agora, dia seguinte, já não há dúvida: os canais de televisão reprisaram cenas de Bagdá em 2003.

A narrativa que chegava de Trípoli é extraordinariamente semelhante a que recebemos de Bagdá: um ditador brutal e megalômano, que parecia onipotente, é derrubado pelo povo, e uma onda de euforia varre uma terra exaurida. Com as celebrações, o benefactor-cum-liberator ocidental avança para o centro do palco, assumindo seu posto no ‘lado certo da história’. No século 19, teria dito – no Quênia ou na Índia – que carregava sobre os ombros “a carga que cabe ao homem branco”. Hoje, diz que traz avanços ocidentais a quem clama por eles.

Mas é só questão de tempo, antes que a narrativa esvaia-se, e realidades aterrorizantes se imponham. No Iraque, vimos como uma nação que há apenas 20 anos começava a avançar rumo a padrões de desenvolvimento da OECD foi empurrada de volta à miséria e à anarquia.

Golpe de estado

A oposição democrática líbia é mito fabricado pelos países ocidentais e por governos árabes ‘pró-Ocidente’. Há fissuras profundas dentro da oposição líbia, e facções de todos os tipos, de liberais genuínos a islamistas e ao mais claro lumpenproletariat. E há as divisões entre tribos. As disputas internas entre as várias facções parecem receita para outra rodada de guerra civil, enquanto facções que não têm nem legitimidade nem autoridade disputam o poder.

A dimensão dessas fissuras apareceu muito clara, mês passado, quando o comandante-em-chefe Abdul Fattah Younes foi arrancado do front sob falso pretexto, afastado de seus guarda-costas e brutalmente torturado e morto pelos ‘rebeldes’ militantes de uma facção islamista.

A imprensa ocidental começou a discutir abertamente o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que arquitetou a intervenção e novamente interveio para desequilibrar o poder bélico contra Muammar Gaddafi. A ‘revolução’ mais parece golpe de estado instigado por Grã-Bretanha e França. Mesmo assim, a aliança ocidental precisou de terríveis longos seis meses para levar seus ‘rapazes’ até Trípoli. Gaddafi ainda os mantém ocupados, depois de sua saída em grande estilo. A espantosa verdade é que cabe a Gaddafi decidir quanto parar de lutar, apesar de ter homens e equipamento para prolongar por bom tempo o atual desafio.

O que Gaddafi decida fazer nas próximas horas terá grande influência sobre o acontecerá depois. Se haverá pesado derramamento de sangue, provavelmente haverá vingança dos vitoriosos sobre os vencidos.

Em termos políticos, a queda iminente de Gaddafi não implica vitória da oposição. Sem o apoio tático da OTAN, a oposição teria sido derrotada. A grande questão, portanto, é que papel terá a OTAN, na Líbia, no futuro. E há também a questão de se, agora, a OTAN dirigirá suas atenções à Síria.

A OTAN cerca (e ocupa) o mundo árabe

Cumprida com sucesso a missão de derrubar o governo Gaddafi na Líbia, seria de esperar que OTAN deixasse o teatro líbio. A Resolução n. 1.973 da ONU foi violentada. Mas que ninguém espere a retirada da OTAN. O leitmotif da intervenção ocidental na Líbia foi o petróleo líbio.

Movimento recente de Gaddafi, de aproximar-se dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) e trazê-los para o setor líbio de petróleo, obviamente ameaçou os interesses ocidentais.

A retórica pró-democracia que emana de Londres e Paris sempre soou como toada oca. A intervenção da OTAN na Líbia extrapolou os limites da legislação internacional e da Carta das Nações Unidas. A OTAN está hoje na ridícula posição de ter de extrair a legitimidade necessária para permanecer na Líbia, dos mesmos sinistros elementos que subiram ao palco como forças ‘democráticas’, mas não têm apoio popular – sob o pretexto de que ainda há trabalho a fazer.

Há, sim, ainda, trabalho a fazer. Pode ser, outra vez, do começo ao fim, o Iraque e o Afeganistão. Mais cedo do que se supõe, aparecerá resistência contra a ocupação estrangeira. As tribos líbias têm fama na história e no folclore da resistência. Por outro lado, um grande paradoxo da geopolítica é que quanto mais se aprofunde a anarquia, mas a ocupação encontra pretexto ideal. A história da Líbia não será diferente da de Iraque e Afeganistão.

A intervenção ocidental na Líbia introduz novos padrões na geopolítica do Oriente Médio e África. Levou a OTAN até o leste do Mediterrâneo e para dentro da África. É parte essencial da estratégia dos EUA pós-Guerra Fria, para converter a aliança transatlântica em organização global com capacidade para atuar nos ‘pontos quentes’ globais, com ou sem autorização da ONU. Não há dúvida alguma de que, no ‘novo Oriente Médio’, a OTAN terá papel de pivô.

É o que já se ouve, com ecos de horripilar, na fala do vice-primeiro ministro britânico Nick Clegg, à primeira vista, sobre a Líbia: “Quero deixar bem claro que a Grã-Bretanha não dará as costas aos milhões de cidadãos dos estados árabes que tentam abrir suas sociedades em busca de vida melhor.” Mas... e se estivesse falando da Síria? Com certeza absoluta, Clegg não estava oferecendo serviços de ‘abertura’ aos cidadãos árabes das sociedades de Arábia Saudita, Bahrain ou Iêmen, para dar às tribos que lá vivem condições de vida europeia moderna.

Com a operação líbia aproximando-se do término, todos os olhos voltam-se para a Síria. O Wall Street Journal especula: “O sucesso dos líbios afeta a rebelião potencialmente mais importante na Síria (...) Já há sinais de que a Líbia inspira os rebeldes que tentam depor [Bashar al] Assad.”
[1] Mas acrescenta o detalhe, sem o qual a ideia propagandística não estaria devidamente proposta: “Há diferenças cruciais entre Líbia e Síria, e será difícil replicar em Damasco o modelo da revolução líbia.”

Apostas altas na Síria

Sim, mas a mente ocidental é famosa pela capacidade de inovação. Não há dúvidas de que a Síria está no coração do Oriente Médio e conflitos que irrompam ali quase com certeza engolfarão toda a região – inclusive Israel e, possivelmente, também o Irã e a Turquia.

Por outro lado, os movimentos coordenados do ocidente nas últimas semanas ampliando sanções contra a Síria, são muito semelhantes ao que se viram no prelúdio da intervenção na Líbia. Estão em andamento esforços sustentados para criar uma oposição síria unificada. Semana passada, encontro na Turquia – o terceiro em sequência – finalmente elegeu um ‘conselho’ que ostensivamente representaria a voz do povo sírio. Evidentemente, está em construção, cuidadosamente, um ponto focal, que, em momento conveniente, poderá ser cooptado como do interventor ocidental democrático que representaria a Síria. O apoio da Liga Árabe, para funções de folha de parreira, também está disponível. Os regimes árabes ‘pró-ocidente’ – autocracias – reapareceram à frente da campanha ocidental, como portadores do estandarte da representatividade na Síria.

Pode-se argumentar que a parte mais difícil seria obter mandado da ONU para intervenção ocidental na Síria. Mas a experiência líbia mostra que sempre é possível conseguir um álibi. Para isso, pode-se confiar na Turquia: quando há envolvimento da Turquia, é possível invocar o Estatuto 5 da OTAN.

O xis da questão é que é imperativo derrubar o governo da Síria, para que a estratégia dos EUA no Oriente Médio possa avançar, e Washington não aceitará obstáculos que algum dos BRICS crie, porque o que está em jogo é importante demais. Estão em jogo a expulsão, de Damasco, da liderança do Hamás; o rompimento do eixo sírios-iranianos; o isolamento do Irã, com o correspondente estímulo para derrubar o governo iraniano; enfraquecer e degradar o Hezbollah no Líbano; e reconquistar a dominação estratégica de Israel sobre todo o mundo árabe.

Claro que, na raiz disso tudo, está o controle sobre o petróleo, o qual, como disse George Kennan há 60 anos “é recurso nosso, não deles [dos árabes]”, considerado crucial para manter qualquer esperança de prosperidade sustentada do mundo ocidental. E ria de quem disser que governos ocidentais e seus cidadãos empobrecidos já não teriam apetite para guerras.

Finalmente, tudo isso implica, em termos geopolíticos, a reversão de qualquer influência que russos e chineses tenham obtido no Oriente Médio.

Já está em operação uma sutil propaganda ocidental que pinta Rússia e China como obstáculos à derrubada de governos na região –, porque estariam ‘do lado errado da história’. É esperta virada ideológica na muito bem-sucedida jogada-padrão da Guerra Fria, que jogou o comunismo contra o Islã.

A linguagem corporal nas capitais ocidentais não deixa dúvidas: de modo algum os EUA deixarão escapar a oportunidade que veem hoje, para eles, na Síria.



[1] 23/8/2011, Wall Street Journal, “Lybia and the Arab Spring”, em http://online.wsj.com/article/SB10001424053111903461304576524701611118090.html