quinta-feira, julho 11, 2013

Bob Fernandes / Espionagem da CIA, FBI, DEA, NSA...e o silêncio no Brasil.



Publicado em 10/07/2013

O ex-presidente Fernando Henrique diz: "Nunca soube de espionagem da CIA" no Brasil. O governo atual cobra explicações dos Estados Unidos, e a presidente Dilma trata do assunto com a cúpula do Mercosul no Uruguai. O Congresso envia protesto formal ao governo de Obama.

Vamos aos fatos. Entre Março de 99 e abril de 2004, publiquei 15 longas e detalhadas reportagens na revista Carta Capital. Documentos, nomes, endereços, histórias provavam como os Estados Unidos espionavam o Brasil.

Documentos bancários mostravam como, no governo FHC, a DEA, que combate o tráfico de drogas, pagava operações da Polícia Federal. Depositava na conta de delegados. Tempo em que a PF não tinha orçamento para bancar todas operações.

A CIA, via Departamento de Estado, pagou uma base eletrônica da PF em Brasília, até os tijolos.Para trabalhar nessa base, até o inicio da gestão do delegado Paulo Lacerda, agentes e delegados da PF eram submetidos ao detector de mentiras nos EUA. Em hotéis em Washington.

Isso até que viessem a gestão do ministro Marcio Thomas Bastos e do delegado Paulo Lacerda e orçamento adequado. Essa base na PF chamava-se CDO. Publicadas as reportagens, tornou-se SOIP, depois COE. Hoje é a DAT, Divisão Antiterrorismo.

chefiou o FBI no Brasil por 4 anos. Em entrevista de 17 páginas, revelou: serviços de inteligência dos EUA haviam grampeado o Itamaraty. Empresas eram espionadas. Nem o Palácio da Alvorada escapou.

Pelo menos 16 serviços secretos dos EUA operavam no Brasil. Às segundas-feiras, essas agências realizavam a "Reunião da Nação", na embaixada, em Brasília.

Tudo isso foi revelado com riqueza de detalhes: datas, nomes, endereços, documentos, fatos. Em Abril de 2004,publicamos os nomes daqueles que, disfarçados de diplomatas, como é habitual, chefiavam CIA, DEA, NSA e demais agências no Brasil.

Chellotti, diretor da PF, caiu depois de reportagem, em março de 99. Isso no governo de FHC, que diz desconhecer ações da CIA. Renan Calheiros, seu ministro da Justiça, foi convocado pelo congresso. Em público, se esquivou. A mim, disse: "Isso é assim mesmo, é do jogo".
Carlos Costa, que chefiara o FBI no Brasil, foi ouvido em sessão secreta do Congresso, já em 2004. E confirmou tudo o que dissera na entrevista. Sobre a presença do seu FBI, da CIA, DEA, NSA, e sobre a espionagem em geral.

Tudo isso sob quase absoluto e estrondoso silêncio. Um silêncio assustador à época. Tão assustador quanto a suposta perplexidade ao "descobrir", só agora, que os Estados Unidos, e não apenas eles, espionam o Brasil e o mundo. 

EXCLUSIVO: BOOZ ALLEN E PSDB, UM INTERCURSO ENTRE A ESPIONAGEM E A TUTELA NEOLIBERAL?

O Congresso não pode tergiversar diante do incontornável:uma base de espionagem da CIA operou diuturnamente em território brasileiro, pelo menos até 2002. A sociedade tem direito de saber o que ela monitorou e com que objetivos. Há outras perguntas de vivo interesse do momento político nacional. O pool de espionagem apenas coletou dados no país ou se desdobrou em processar, manipular e distribuir informações, reais ou falsas, cuja divulgação obedecia a interesses que não os da soberania nacional? Fez o que fez de forma totalmente clandestina e ilegal? Ou teve o apoio interno de braços privados ou oficiais e mesmo de autoridades avulsas? Ainda opera? Quem, a não ser uma Comissão Parlamentar de Inquérito, teria acesso e autoridade para responder a essas indagações de evidente relevância nos dias que correm? Há, ainda, coincidências que gritam por elucidação. A empresa que coordenava o trabalho de grampos da CIA, a Booz-Allen, na qual trabalhava o agente Snowden, é uma das grandes corporações de consultoria mundial. No governo FHC, ela foi responsável por estudos estratégicos contratados pela esfera federal. Inclua-se aí desde o "Brasil em Ação" (primeiro governo FHC) até o "Avança
Brasil" (segundo governo FHC) e outras, como as dos programas de privatização e de reestruturação do sistema financeiro nacional, com o descarnamento dos bancos públicos. Vale repetir: a mesma empresa guarda-chuva do sistema de espionagem que operou no Brasil até 2002, a Booz Allen, foi a mentora intelectual de uma série de estudos e pareceres, contratados pelo governo do
PSDB, para abastecer uma estratégia de alinhamento (‘carnal', diria Menen) do Brasil com a economia dos EUA. A turma da versátil Booz Allen trabalhava em segmentos estanques? Ou aqueles encarregados de assessorar o governo do PSDB também coletavam informes do interesse imperial no país e na América Latina?

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22329

Empresa do espião Snowden foi consultora-mor do governo FHC

No governo de Fernando Henrique Cardoso, a Booz-Allen, na qual trabalhava o espião Edward Snowden, foi responsável por consultorias estratégicas contratadas pela esfera federal. Incluem-se aí o "Brasil em Ação" (primeiro governo FHC) e o "Avança Brasil" (segundo governo FHC), entre outras, como as dos programas de privatização (saneamento foi uma delas) e a da reestruturação do sistema financeiro nacional.
Da Redação
A rápida reação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso às denúncias de que os EUA mantiveram uma base de espionagem no país, durante o seu governo, suscita interrogações e recomenda providências.

Dificilmente elas serão contempladas sem uma decisão soberana do Legislativo brasileiro, para instalação de uma CPI que vasculhe o socavão de sigilo e dissimulação no qual o assunto pode morrer.

Entre as inúmeras qualidades do ex-presidente, uma não é o amor à soberania nacional.

Avulta, assim, a marca defensiva da nota emitida por ele no Facebook, dia 8, horas depois de o jornal "O Globo" ter divulgado que, pelo menos até 2002, Brasília sediou uma das estações de espionagem nas quais funcionários da NSA e agentes da CIA trabalharam em conjunto.

‘Nunca soube de espionagem da CIA em meu governo, mesmo porque só poderia saber se ela fosse feita com o conhecimento do próprio governo, o que não foi o caso. De outro modo, se atividades deste tipo existiram, foram feitas, como em toda espionagem, à margem da lei. Cabe ao governo brasileiro, apurada a denúncia, protestar formalmente pela invasão de soberania e impedir que a violação de direitos ocorra...”, defendeu-se Fernando Henrique.

O jornal afirma ter tido acesso a documentos da NSA, vazados pelo ex-agente Edward Snowden, que trabalhou como especialista em informática para a CIA durante quatro anos, nos quais fica evidenciado que a capital federal integrava um pool formado por 16 bases da espionagem para coleta de dados de uma rede mundial.

Outro conjunto de documentos, segundo o mesmo jornal, com data mais recente (setembro de 2010), traria indícios de que a embaixada brasileira em Washington e a missão do país junto às Nações Unidas, em Nova York, teriam sido grampeadas em algum momento.

Espionagem e grampos não constituíram propriamente um ponto fora da curva na gestão do ex-presidente.

Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas de Luiz Carlos Mendonça de Barros, então ministro das Comunicações, e André Lara Resende, então presidente do BNDES, articulando o apoio da Previ para beneficiar o consórcio do banco Opportunity – que tinha como um dos donos o economista Pérsio Arida, amigo de Mendonça de Barros e de Lara Resende.

O próprio FHC foi gravado , autorizando o uso de seu nome para pressionar o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

Em outro emaranhado de fios, em 1997, gravações revelaram que os deputados Ronivon Santiago e João Maia, do PFL do Acre, ganharam R$ 200 mil para votar a favor da emenda da reeleição, que permitiria o segundo mandato a FHC.

Então, como agora, o tucano assegurou que desconhecia totalmente o caso, que ficou conhecido como ‘a compra da reeleição’.

As sombras do passado e as do presente recomendam a instalação de uma CPI como a medida cautelar mais adequada para enfrentar o jogo pesado de interesses que tentará blindar o acesso do país ao que existe do lado de dentro da porta entreaberta pelo espião Snowden.

O PT tem a obrigação de tomar a iniciativa de convoca-la.

Mas, sobretudo, o PSDB deveria manifestar integral interesse em sua instalação.

Soaria no mínimo estranho se não o fizesse diante daquilo que o ex-presidente Fernando Henrique definiu como exclamativa ilegalidade: “Se atividades deste tipo existiram, foram feitas, como em toda espionagem, à margem da lei...”

O Congresso não pode tergiversar diante do incontornável: uma base de espionagem da CIA operou em território brasileiro pelo menos até 2002.

A sociedade tem direito de saber o que ela monitorou e com que objetivos.

Há outras perguntas de vivo interesse nacional que reclamam uma resposta.

O pool de espionagem apenas coletou dados no país ou se desdobrou em processar, manipular e distribuir informações, reais ou falsas, cuja divulgação obedecia a interesses que não os da soberania nacional?

Fez o que fez de forma totalmente clandestina e ilegal? Ou teve o apoio interno de braços privados ou oficiais, ou mesmo de autoridades avulsas?

Quem, a não ser uma Comissão Parlamentar, teria acesso e autoridade para responder a essas indagações de evidente relevância política nos dias que correm?

Toda a mídia progressista deveria contribuir para as investigações dessa natureza, de interesse suprapartidário, com a qual o Congresso daria uma satisfação ao país depois da lenta e hesitante reação inicial do Planalto e do Itamaraty, cobrada até por FHC.

Carta Maior alinha-se a esse mutirão com algumas sugestões de fios a desembaraçar.

Por exemplo: o repórter Geneton Moraes Neto acaba de publica no G1 (um site do sistema Globo) um relato com o seguinte título: "O dia em que o ministro Fernando Henrique Cardoso descobriu o que é “espionagem”: secretário de Estado americano sabia mais sobre segredo militar brasileiro do que ele" (http://g1.globo.com/platb/geneton/).

A reportagem, que vale a pena ler, remete a uma entrevista anterior, na qual FHC comenta seu desconhecimento sobre informações sigilosas do país dominadas por um graduado integrante do governo norte-americano.

O tucano manifesta naturalidade desconcertante diante do descabido.

A mesma naturalidade com a qual comenta agora seu esférico desconhecimento em relação às operações da CIA durante o seu governo.

Ter sido o último a saber, no caso citado por Geneton, talvez seja menos grave do que não procurar, a partir de agora, informar-se sobre certas coincidências, digamos por enquanto assim.

Há questões que gritam por elucidação.

A empresa que coordenava o trabalho de grampos da CIA, a Booz-Allen, na qual trabalhava Snowden, é uma das grandes empresas de consultoria mundial.

No governo FHC, ela foi responsável por consultorias estratégicas contratadas pela esfera federal.

Inclua-se aí desde o "Brasil em Ação" (primeiro governo FHC) até o "Avança Brasil" (segundo governo FHC) e outras, como as dos programas de privatização (saneamento foi uma delas) e a da reestruturação do sistema financeiro nacional.

Todos os trabalhos financiados pelo BNDES. Alguns exemplos:

- Caracterização dos Eixos Nacionais de Desenvolvimento. Programa Brasil em Ação. BNDES. Consórcio FIPE/BOOZ-ALLEN. 1998;

- Alternativas para a Reorientação Estratégica do Conjunto das Instituições Financeiras Públicas Federais.

- Relatório Saneamento Básico e Transporte Urbano. Consórcio FIPE/BOOZ-ALLEN & Hamilton. BNDES/Ministério da Fazenda. São Paulo. 2000

Vale repetir: a mesma empresa guarda-chuva do sistema de espionagem que operou no Brasil até 2002, a Booz Allen, foi a mentora intelectual de uma série de estudos e pareceres, contratados pelo governo do PSDB, para abastecer uma estratégia de alinhamento (‘carnal’, diria Menen) do Brasil com a economia dos EUA.

Mais detalhes desse ‘impulso interativo’ podem ser obtidos aqui:

http://www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/article/viewArticle/267

Na aparência, sempre, a perfeita identidade com os inoxidáveis interesses nacionais.

O estudo dos Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento, por exemplo, foi realizado por um consórcio sugestivamente abrigado sob o nome fantasia de "Brasiliana".

Por trás, o comando a cargo da Booz-Allen & Hamilton do Brasil Consultores, com suporte da Bechtel International Incorporation e Banco ABN Amro.

O ‘mutirão’ (até a consultoria do banco) foi pago com dinheiro público pelo governo federal, sob a supervisão das equipes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

Os resultados do trabalho levaram a dois eixos centrais da concepção tucana de desenvolvimento: o "Brasil em Ação" e o "Avança Brasil".

Reconheça-se, tudo feito às claras, em perfeita sintonia entre o Estado brasileiro e a empresa guarda-chuva do sistema de espionagem em operação dupla no país.

Na pág. 166 de uma publicação do BNDES, a "contribuição" da Booz-Allen está explicitamente citada:

http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/revista/rev1406.pdf

Uma análise de como a turma da versátil Booz-Allen teve robusta influência na modelagem do sistema financeiro nacional (leia-se, menos bancos públicos, conforme o cânone da concepção de Estado mínimo) pode ser avaliada e aqui:

http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/3391/000337454.pdf?sequence=1

Um fato curioso e que não pode ser desconsiderado na avaliação criteriosa de uma incontornável CPI sobre o assunto: a ex-embaixadora dos Estados Unidos no Brasil Donna Hrinack, tão logo se despediu do cargo no país, sentou-se na cadeira de assessora qualificada da Kroll.

A Kroll, como se sabe, é uma empresa internacional de espionagem que operou a serviço de Daniel Dantas e de seu fundo, o Opportunity.

Trata-se, coincidentemente, de um dos braços financeiros mais importantes do processo de privatização no Brasil, estreitamente associado ao Citybank e, claro, a toda a "carteira" de acionistas que injetou dinheiro na farra neoliberal dos anos 90.

A Kroll foi usada para bisbilhotar autoridades e chegou a espionar ministros do governo Lula, como ficou evidente com a Operação Chacal, da Polícia Federal, deflagrada em 2004.

Como se vê, as revelações de Snowden, ao contrário do que sugere a nota de FHC, definitivamente, não deveriam soar como algo inusitado aos círculos do poder, em Brasília. Se assim são tratadas, há razões adicionais para suspeitar que um imenso pano quente será providenciado para evitar que as sombras fiquem expostas à luz.

A questão, repita-se, não se esgota em manifestar a indignação nacional pelo que Snowden denunciou.

O que verdadeiramente não se pode mais adiar é a investigação pública do que foi espionado, com que finalidade e a mando de quem.

Isso quem faz é uma Comissão Parlamentar de Inquérito. 


Fotos: EBC 


Tela Quente - Enquanto o barco afunda, a orquestra continua tocando.

“@O__Lobo Globo criou a empresa Empire (Império, em inglês) nas ilhas Virgens britânicas. --------> viomundo.com.br/denuncias/func…” Nome apropriado.


Dos irmãos Marinho, José Roberto (à esquerda) é citado nominalmente no processo que sumiu A funcionária da Receita Federal Cristina Maris Meinick Ribeiro foi condenada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro por, entre…

Obrigado! “@pagina2: Grande @rogeriocorreia_ Um dos melhores quadros da esquerda - rogeriocorreia.com.br/noticia/proces…”

Voltar para todas notícias terça-feira, 09 de julho de 2013, 10:13 HS Jurado de morte, um auditor aposentado promete entregar, nos próximos dias, ao Congresso Nacional, os mais de 10 mil volumes originais dos processos…
Enquanto o barco afunda, a orquestra continua tocando. Alheia ao naufrágio iminente.


CRISTINA MARIS MEINICK RIBEIRO passou alguns meses presa por surrupiar processo da Globo. Uma boa alma deu HC pra moça. Quem? Advinhem????


Barbosa grava vídeo supresa para advogado pai de Luciano Huck. f5.folha.uol.com.br/televisao/2013… Isso pode Arnaldo? E a liturgia do cargo, ministro ?

Luciano Huck pediu a Joaquim Barbosa que participasse de uma surpresa para o pai do apresentador do "Caldeirão do Huck "(Globo). Trata-se de um vídeo em que o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), entre outras…

Semana quente, com máscaras caindo

Sonegação Global  #PadrãoFIFA
O negócio suspeito da compra dos direitos de TV em 2002, que já tinha derrubado Ricardo Teixeira, pegou a chefe: a Rede Globo de Televisão. Sob o silêncio da mídia, 615 milhões (em 2006, hoje R$ 1,2 bi) deixaram de ser pagos pela emissora. Cristina Meirick, servidora da Receita, foi condenada a mais de quatro anos de cadeia por surrupiar o processo, que estava constando - há sete anos - como "em trânsito" na burocracia. A blogosfera levantou, achou os documentos e a "imprensa livre", até agora, nada.
Está tudo no Tijolaço:

E o Dr. Joaquim Barbosa, ex-herói da mídia, que teve de provar do próprio veneno? Jogo no Maracanã, no camarote global de Luciano Huck, com passagens do STF, atrasadão de R$ 580 mil em bolsa-moradia e licenças extintas e um mar de suspeitas, na base do "domínio do fato". O caçador virou caça, assim funciona a hipocrisia.

Acompanhe a nossa rede:

Nota do MP traz novas perguntas no caso Globo

9 de Jul de 2013 | 20:14

Embora deve ser saudada como a primeira manifestação de autoridades públicas sobre o episódio da sonegação, pela Globo, dos impostos devidos na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002, a nota oficial do Ministério Públicogera uma série de perguntas sobre o caso, porque é vaga e, lamentavelmente, só manifesta consternação pela divulgação de documentos que diz estar sujeitos a sigilo fiscal, enquanto a sonegação de uma quantia imensa de recursos que pertencem à população, que certamente provoca-lhes consternação maior fica sem uma palavra deste tipo.
O primeiro ponto é a afirmação de que “por determinação do Ministério Público Federal, nos idos de 2005, a Receita Federal foi instada a instaurar procedimento administrativo fiscal em relação à alegada sonegação envolvendo empresas da Rede Globo“.
Então, tem-se que foram os promotores que solicitaram a ação dos fiscais da Receita sobre a Globo. Muito bem, só poderiam ter feito isso se tivessem pressentido a ocorrência de crime fiscal.
Mas a nota diz que “os fatos chegaram ao conhecimento do MPF em audiência realizada em processo de cooperação às autoridades estrangeiras que investigavam denúncias referentes a outras empresas e que não tinham relação direta com a suposta sonegação. Imediatamente, o MPF encaminhou documentos à Receita Federal para avaliação do interesse fiscal”
Determinação para instaurar procedimento fiscal ou “avaliação do interesse fiscal” assim, vagamente?
E diz ainda que, “conforme estabelece o sistema normativo em vigor, não é possível ao MPF requisitar a instauração de inquérito policial antes da constituição definitiva do crédito tributário ou na hipótese de parcelamento ou quitação integral da dívida. Dessa forma, só cabia ao MPF o acompanhamento do procedimento fiscal, na eventualidade de se ter confirmada a suposta sonegação”.
Bem, ao que se sabe pelos documentos que vieram à luz, foi confirmada a sonegação. E houve a requisição de inquérito policial, a seguir?  Modestamente, parece que essa seria uma informação de interesse público e inquéritos policiais, salvo quando decretado sigilo, são públicos.
Depois após “uma das requisições de acompanhamento do MPF, foi informado o extravio dos autos do procedimento fiscal. Isto gerou investigação paralela para identificar os envolvidos, resultando em ação criminal – já com sentença condenatória – contra uma servidora da Receita Federal, bem como a identificação de inúmeras outras fraudes perpetradas por ela. O MPF ofereceu várias oportunidades para que a servidora cooperasse com as investigações e indicasse os eventuais co-autores do delito, porém a ré optou por fazer uso de seu direito constitucional ao silêncio”.
Então, ficamos assim? A funcionária surrupia e faz desaparecer um processo de mais de 600 milhões de reais contra a Globo, descobrem que ela também metia a mão em uns caraminguás de outras empresas, pedem para ela falar, ela não fala, acabou-se a história?
O MP tem poderes investigatórios – não foi para mantê-los que se lutou contra a PEC 37? – e não foi atrás de quem se beneficiava com o crime da barnabé pilantra? Houve quebra do sigilo telefônico e bancário da indigitada?
Com todo o respeito, os senhores promotores não podiam deixar de ver que essa senhora não deu “doril” a um processo de mais de R$ 600 milhões por esporte, ou por gostar de viver perigosamente. Negociou e recebeu – ou teve prometido receber – por isso. Não parece difícil saber a quem interessava o sumiço do processo, não é?
Ah, mas está tudo bem, porque “quanto ao procedimento fiscal extraviado, foi providenciada a sua reconstituição, com novo tombamento, e a tramitação seguiu seu curso regular”.
Isso não é o “arrependimento eficaz” de nosso Código Penal.
O MP poderia informar um pouco mais sobre “tramitação regular”? Ao menos dizer qual  é o novo número (tombamento) do procedimento fiscal?
Com a devida vênia, não se pode satisfazer a opinião pública com um “la garantía soy yo”.
Por último, a questão do sigilo fiscal, parece um pouco elástica a interpretação de que a aplicação de uma multa por sonegação de impostos se enquadre no que determina o art. 198 do Código Tributário Nacional, que institui o sigilo fiscal: “é vedada a divulgação, por parte da Fazenda Pública ou de seus servidores, de informação obtida em razão do ofício sobre a situação econômica ou financeira do sujeito passivo ou de terceiros e sobre a natureza e o estado de seus negócios ou atividades”.
Não se tratou ali, nos documentos revelados por Miguel do Rosário, em seu blog O Cafezinho,  da situação financeira da Globo nem do estado dos seus negócios ou atividades. Não estão nos jornais, todos os dias, débitos havidos com a Fazenda pela Vale ou pela Petrobras em razão de impostos devidos por  negócios feitos em triangulações no exterior? Será que a Globo não é uma empresa como elas?
Nós também não queremos, como os senhores com toda a razão não quiseram, uma “Lei da Mordaça”. E convenhamos: se com documentos e sentenças publicadas no Diário Oficial, a grande mídia ainda assim não publica uma linha, temos então de ter ações incisivas.
Porque não achamos justos que quando alguém grita “Pega, Ladrão!” o culpado seja quem gritou.
Por: Fernando Brito

Revolta brasileira esquece do capital

Por Marcelo Semer, no blog Sem Juízo:

Por que grandes empresários se aliaram a manifestantes e imprensa cobriu protestos de forma ufanista?

Em setembro de 2011, centenas de norte-americanos ocuparam uma praça de Wall Street, centro financeiro da maior economia mundial, para apontar para o 1% mais privilegiado da população, que eles eram os 99% que os sustentavam. E que não estavam mais dispostos a fazê-lo.

Na maior das manifestações ocorridas em São Paulo, o prédio da poderosa Federação das Indústrias na avenida Paulista foi colorido com uma estilizada bandeira brasileira e se tornou parceiro e paisagem dos protestos.

Quando os indignados saíram às ruas na Espanha, foram as redes sociais que serviram de aglutinação e ao mesmo tempo relatavam as manifestações do 15-M em busca da Democracia Real, esvaziadas e distorcidas na imprensa.

No Brasil, apesar de uma tentativa inicial de criminalização, poucos eventos acabaram por merecer uma cobertura tão extensa e em certos momentos até panfletária da grande mídia.

O que fez com que grandes empresários pudessem se aliar aos manifestantes e a imprensa cobrisse os protestos de forma assim ufanista?

Foi o mesmo que motivou a classe média mais tradicional a abandonar sua atávica repulsa a movimentos sociais e atropelar os protestos que nasceram pela revogação do aumento da tarifa.

A crítica se pulverizou toda ela no processo político –poupando agentes e estruturas econômicas responsáveis, em grande parte, pela sua deterioração.

Indignados espanhóis e ocupantes norte-americanos também fizeram mordazes críticas à falta de legitimidade da democracia representativa.

Mas o que expunham era justamente o fato de que os políticos, que deviam representar a vontade da população que os elegera, haviam capitulado frente aos grandes interesses financeiros.

Não à toa, os norte-americanos ignoraram a Casa Branca, o Capitólio ou outras sedes de governo no simbolismo de seu protesto. Foram a Wall Street, onde entendiam se resolver os verdadeiros problemas da política.

Os indignados espanhóis se sentaram nas praças para criticar o bipartidarismo e não para pedir a substituição de um partido por outro. Tinham como um de seus principais slogans: “Não somos marionetes nas mãos de políticos e banqueiros”.

Por aqui, tivemos duas marcas distintas e ao mesmo tempo reveladoras da onda de manifestações.

A primeira é que a repulsa aos partidos não se limitou à autonomia da manifestação, mas beirou o ódio em algumas delas, sugerindo-se que, numa espécie de pátria unida, a bandeira do Brasil pudesse substituir a das legendas, álibi para a agressão de vários militantes.

A outra é que depuramos completamente o substrato econômico da crítica.

Nas limitações cada vez mais explícitas da democracia no capitalismo, questionou-se apenas o processo político. Excluímos da pauta a crítica à forte concentração econômica, possivelmente um dos fatores mais importantes de seu vício.

Isso teve consequências nos primeiros resultados pragmáticos.

A tarifa baixou para os usuários, mas não a remuneração dos empresários do transporte.

De uma manifestação que se iniciou com a libertária bandeira de uma vida sem catraca, os sinais que emergem no Congresso apontam paradoxalmente para o fortalecimento do tônus da repressão.

Afinal, a maioria dos manifestantes não estava mesmo indignada com a desigualdade social –em relação à qual, aliás, alguns fazem mais parte do problema que da solução- e sim com os absurdos do “país da impunidade”.

Não à toa, a disparidade entre as balas de borracha que feriram nas avenidas e as de chumbo que mataram na favela provocaram tão pouca indignação.

Afinal, quando se trata de repressão e impunidade, sempre há um condimento seletivo.

É sintomático que os senadores tenham decidido tornar a corrupção crime hediondo, mas não pensaram no mesmo modelo para a sonegação fiscal, que desvia ainda mais recursos da educação e saúde, trending topics dos cartazes de protesto.

Segundo a proposta aprovada no Senado, até o excesso de exação, a cobrança dolosa e excessiva de tributo, pode virar crime hediondo. Mas a supressão premeditada do imposto, a sonegação, vai continuar sendo resolvida apenas com o pagamento atrasado dos encargos.

Excluindo o capital da crítica, o movimento corre o risco se limitar a criminalizar a política e os políticos, centrando os olhos da repressão nos agentes públicos. Como, aliás, é a tônica dos movimentos anticorrupção apoiados pela mídia. Corruptores são sempre tratados como vítimas.

A insatisfação coletiva mostra que é mesmo necessário encontrar mecanismos de permeabilidade da vontade social.

Mas, sobretudo, que é preciso defender o que é público da ganância dos interesses privados, atualmente, em todo o mundo, com maior força do que o próprio poder estatal. O mercado não disputa eleições, é verdade, mas influencia a todos que se elegem.

É gratificante que as pessoas queiram tomar as rédeas do poder de seu país.

Mas devem compreender, efetivamente, quem as impede.

Postado por Miro


terça-feira, julho 09, 2013

Edward Snowden fala sobre a NSA e suas “ajudantes/cúmplices”

Entrevistadores: Jacob Appelbaum [1] e Laura Poitras [2]

8/7/2013, Der Spiegel, Alemanha
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no bar do Xexé, na Vila Vudu: Não é grande entrevista, não traz novidade e parece mal editada, ou editada às pressas. Mas é sempre bom ler ou ouvir os caras falando de viva voz. Melhor que só ouvir o que algum williamwack qualquer pensar que pensa sobre as coisas.

Transeunte passa por "banner" de Edward Snowden em Hong Kong
Em entrevista feita através de e-mails criptografados, Edward Snowden discute o poder da Agência de Segurança Nacional dos EUA [orig. NSA], como está “na cama com os alemães” e o vasto escopo da espionagem contra a Internet, conduzida por EUA e Grã-Bretanha.

Laura Poitras
Pouco antes de se tornar nome conhecido em todo o planeta como “vazador de segredos norte-americanos estratégicos”, Edward Snowden respondeu a uma longa lista de perguntas. Foram-lhe encaminhadas por Jacob Appelbaum, 30, desenvolvedor de encriptação e de sistemas de segurança de programas para computadores. Appelbaum dá treinamento a grupos internacionais de direitos humanos e jornalistas sobre como usar a Internet anonimamente, sem se deixar identificar.

Appelbaum tornou-se conhecido fora os círculos especializados quando falou em defesa de Julian Assange, fundador de WikiLeaks, numa conferência de hackers em New York em 2010. Com Assange e outros coautores, Appelbaum acaba de lançar uma coletânea de entrevistas, editadas em formato de livro, intitulado Cypherpunks: Freedom and the Future of the Internet [Cypherpunks: Liberdade e o futuro da Internet].

Jacob Appelbaum
Appelbaum surgiu no radar das autoridades norte-americanas durante investigação sobre as revelações de WikiLeaks. Depois disso, distribuíram-se mandatos judiciais para as empresas Twitter, Google e Sonic, com ordem para que entregassem informações sobre as contas de Appelbaum nessas empresas. Mas Appelbaum descreve suas relações com WikiLeaks como “ambíguas”. Aqui explica como conseguiu fazer suas perguntas chegarem a Snowden.

Em meados de maio, a cineasta documentarista Laura Poitras fez contato comigo, conta Appelbaum. Disse-me que estava em contato com uma possível fonte anônima dentro da Agência de Segurança Nacional dos EUA, que teria aceitado que ela o/a entrevistasse.

Ela estava trabalhando para construir suas perguntas e pensara que seria importante propor algumas perguntas técnicas, para verificar que tipo de fonte teria à sua frente. Um dos objetivos era determinar se sua fonte era, ou não, alguém disposto a revelar informações qualificadas com vistas a informar a opinião pública – o que se define como whistleblower. [3] Pessoalmente, me preocupava o risco de alguma armadilha armada pelo Programa de Contrainteligência [orig. Counter Intelligence Program, COINTELPRO]. Enviamos nossas perguntas protegidas por criptografia eficiente para nossa fonte. Eu jamais ouvira falar de Edward Snowden, antes de que ele se autorrevelasse ao mundo em Hong Kong. E ele tampouco sabia quem era eu. Minha expectativa era que, quando se removesse o anonimato, encontraríamos um senhor com seus 60 anos, por aí.

As perguntas abaixo são excertos de entrevista maior, que cobriu vários tópicos, muitos dos quais altamente técnicos. Algumas das perguntas foram reordenadas, para garantir o contexto necessário. As perguntas focam quase exclusivamente as capacidades e atividades da Agência de Segurança Nacional dos EUA. É indispensável entender que essas perguntas não foram propostas em contexto reativo aos eventos das últimas semanas ou meses. Foram propostas em período de relativa calmaria, quando Snowden parecia estar curtindo seus últimos dias numa paraíso havaiano – paraíso que ele abandonou para que todos no planeta possam entender a atual situação como ele a compreende.

Em momento posterior, tive também contato direto com Edward Snowden, quando lhe revelei minha identidade. Nesse momento, ele manifestou desejo de ter seus sentimentos e observações publicadas, quando me parecesse chegada a hora certa.

NOTA DO EDITOR E TRADUTORES: O que segue são excertos da versão original em inglês, da entrevista. Possíveis diferenças de linguagem entre as versões em alemão e em inglês explicam-se pelo fato de que preservamos o mais possível os termos técnicos usados por Snowden em sua transcrição. Explicações sobre alguns dos termos usados por Snowden, e notas de edição, aparecem em Notas de Rodapé.

Entrevistador: Qual a missão da Agência de Segurança Nacional [National Security Agency (NSA)] dos EUA – e como o trabalho que faz pode ser considerado legal?

Snowden: A tarefa deles é saber tudo de importância que acontece fora dos EUA. É desafio significativo. Quando é feito para parecer que não saber tudo sobre alguém é crise existencial, você sente que agredir a lei é OK. Se as pessoas odeiam você por seguir as regras, quebrá-las torna-se questão de sobrevivência.

Entrevistador: Há autoridades alemãs ou políticos alemães envolvidos no sistema de vigilância da NSA?

Snowden: Há, claro. Estamos [4] na cama com os alemães e com a maioria dos países ocidentais. Por exemplo, nós os [5] notificamos quando alguém que queremos voa pelos aeroportos deles (o que descobrimos, por exemplo, do telefone celular da namorada de um hacker suspeito, num terceiro país absolutamente sem qualquer relação – e eles nos entregam os procurados. Eles não nos perguntam nada nem pedem que expliquemos como sabemos de alguma coisa, e vice versa, para isolar seus líderes políticos, de modo a não se poder dizer que sabiam que violavam a privacidade global.

Entrevistador: Mas se detalhes do sistema são agora expostos, quem será acusado?

Snowden: Em tribunais dos EUA? Você não está falando sério! Uma investigação descobriu especificamente quem autorizou a escuta clandestina de milhões de comunicações, sentença que, tudo somado, seria a mais longa da história do mundo, e nosso funcionário mais alto simplesmente mandou que a investigação fosse suspensa. Quem “pode” ser acusado dos crimes é imaterial, quando não se respeita a lei. Leis existem para você, não para eles.

Entrevistador: A NSA trabalha em parceria com outras nações, como Israel?

Snowden: Sim. Todo o tempo. A NSA tem um corpo massivo responsável por isso, o FAD, o  Foreign Affairs Directorate [Diretorado de Assuntos Estrangeiros].

Entrevistador: A NSA ajudou a criar o Stuxnet? (Stuxnet é um vírus de computador que foi usado contra o programa nuclear iraniano).

Snowden: NSA e Israel co-escreveram o programa do vírus.

Entrevistador: Quais os grandes programas de vigilância ativos hoje e como os parceiros internacionais ajudam a Agência de Segurança Nacional dos EUA, NSA?

Snowden: Em alguns casos, os chamados “Cinco Olhos Parceiros” [orig. Five Eye Partners[6]] vão além do que a própria NSA faz. Por exemplo, o Quartel-general de Comunicações do Reino Unido [orig. UK's General Communications Headquarters (GCHQ)] tem um sistema chamado TEMPORA. TEMPORA são os sinais que a comunidade de inteligência recebe primeiro [orig. first “full-take” Internet buffer], tudo, sem considerar tipo de conteúdo e dando atenção apenas marginal à Lei dos Direitos Humanos. Recolhe tudo, num rolling buffer para permitir investigação retroativa sem perder um bit. Atualmente, o buffer pode armazenar três dias de tráfego, mas está sendo aumentado. Três dias pode parecer pouco, mas lembre que não são metadados. “Full-take” significa que não perde nada e ingere completamente toda a capacidade de cada circuito. Se você manda um simples pacote ICMP [7] e ele passa pelo Reino Unido, nós o pegamos. Se você baixa algo e a CDN (Content Delivery Network / Rede de Entrega de Conteúdo) por acaso tiver servidor que sai do Reino Unido, nós o pegamos. Se o relatório médico de sua filha doente for processado num call Center em Londres... Bom, você já entendeu.

Entrevistador: Há meio para escapar disso?

Snowden: Como regra geral, se você tiver escolha, não deve jamais route pelo Reino Unido ou peer com o Reino Unido, em nenhum caso. Suas fibras são radiativas e até os telefonemas da Rainha para o rapaz que cuida da piscina estão logados.

Entrevistador: A Agência de Segurança Nacional e parceiros pelo mundo capturam coleções de dados de telefone, texto e dados?

Snowden: Sim, mas o quanto conseguem depende da capacidade de cada site individual de coleta – i.e., alguns circuitos tem fat pipes, mas sistemas de coleta pequenos, então eles têm de ser seletivos. É problema mais para sites de coleta em outras partes do mundo, do que para os domésticos, [8] e é o que faz as coleções domésticas tão aterrorizantes. A Agência de Segurança Nacional dos EUA não é limitada por poder, espaço, nem por problemas de resfriamento das máquinas.

Entrevistador: A Agência de Segurança Nacional está construindo um prédio gigante, para um novo centro de dados em Utah. Para quê?

Snowden: Repositório massivo de dados.

Entrevistador: Os dados coletados estão sendo armazenados para durar quanto tempo?

Snowden: Atualmente, as coleções full-take envelhecem muito depressa (poucos dias), por causa do tamanho, a menos que um analista tenha de trabalhar [orig. has “tasked”]  [9] um alvo ou comunicação, caso em que as comunicações “selecionadas” são armazenadas “para toda a eternidade”, independente de política, porque sempre pode haver ali alguma pista. Os metadata [10] também envelhecem, mas menos rapidamente. A Agência quer chegar ao ponto em que pelo menos todos os metadados sejam armazenados para sempre. Em muitos casos os metadados valem mais que o conteúdo, porque você pode recapturar o conteúdo a partir dos metadados ou, se não, pode simplesmente “marcar” todas as comunicações futuras que interessem à coleção permanente, uma vez que os metadados contam que parte do fluxo de dados você realmente quer.

Entrevistador: Há empresas privadas que colaboram com a Agência de Segurança Nacional dos EUA?

Snowden: Há. Mas nada mais difícil do que provar qualquer coisa nesse campo, porque a Agência de Segurança Nacional considera a identidade dos colaboradores privados de telecom como as joias da coroa de onisciência deles. Como regra geral, multinacionais com sede nos EUA não merecem nenhuma confiança, a menos que provem merecer. É triste, porque têm capacidade para oferecer os serviços melhores e mais confiáveis do mundo, se realmente quisessem fazê-lo. Para facilitar isso, as organizações de liberdades civis devem usar essas revelações para forçá-los aquelas empresas a atualizar seus contratos e incluir cláusulas obrigatórias em que declarem que não espionam seus consumidores. E as empresas têm de implementar mudanças técnicas. Se as organizações de liberdades civis conseguirem que uma empresa entre no jogo delas, mudarão para sempre a segurança das comunicações globais. E se não conseguirem, boa ideia seria criar a única empresa que venda e entregue a garantia de que os seus consumidores não serão espionados.

Entrevistador: Há empresas que se recusam a cooperar com a Agência de Segurança Nacional dos EUA?

Snowden: Há, mas não sei de nenhuma lista delas. Essa categoria crescerá muito se os colaboradores forem punidos pelos consumidores no mercado, o que deve ser considerada Prioridade Um, para todos que creiam na liberdade de pensamento.

Entrevistador: Que páginas não se deve visitar, se alguém não quiser virar alvo da Agência de Segurança Nacional dos EUA?

Snowden: Normalmente, você pode virar alvo específico a partir, por exemplo, do que poste no Facebook ou do que escreva em e-mails. Que eu saiba, a única coisa que garante que você não seja espionado é frequentar fóruns de jihadistas.  [11]

Entrevistador: O que acontece depois que a Agência de Segurança Nacional define um usuário como “alvo”?

Snowden: Ele vira “propriedade” da Agência. Um analista fará um relatório por dia (ou noutra escala, baseada no sumário da exfiltração) sobre o que mudou no sistema, com os dados que não tenham sido compreendidos pelos leitores automáticos, os PCAPS [12] etc.. Nesse ponto, cada analista pode fazer o que achar melhor – a máquina do usuário-alvo já não pertence a ele: pertence ao governo dos EUA.



Notas de Rodapé

[1]  Para saber quem é, veja 6/6/2012, redecastorphoto em: “Assange entrevista No. 8 – “Cypherpunks [1]” (Parte 1)”. [NTs]. 

[2] Ver sobre ela em: Laura Poitras 

[3]  Whistleblower, literalmente, é alguém que “toca o apito” e dá o alarme de uma situação de perigo iminente para todos. Se se diz que há “prisioneiros de consciência”, o whistleblower, atualmente, poderia ser dito “vazador de consciência”. [NTs].

[4]  “Estamos” = a Agência de Segurança Nacional dos EUA, NSA.

[5]  “Os [notificamos]” = [notificamos] autoridades dos outros países.

[6]  Os “Cinco Olhos Parceiros” são os serviços de inteligência de EUA, Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia e Canadá.

[7]  “ICMP” = Internet Control Message Protocol. Snowden aqui oferece resposta técnica, mas é claro que se refere a todos os pacotes de dados enviados para a Grã-Bretanha e da Grã- Bretanha.

[8]  “Domésticos” = nos EUA.

[9]  Nesse contexto, “tasked” refere-se à coleção completa e armazenamento de metadados e conteúdo para qualquer dos identificadores localizados pela Agência de Segurança Nacional ou seus parceiros.

[10] “Metadados” podem incluir números de telefone, endereços de IP e tempo de conexão, dentre outras coisas. A revista Wired oferece excelente material sobre metadados em: “Phew, NSA Is Just Collecting Metadata. (You Should Still Worry)” (ing.).

[11]  No original: “The only one I personally know of that might get you hit untargeted are jihadi forums” [NTs].

[12]  “PCAPS” é uma abreviatura da expressão packet capture [captura de pacotes de informações ou dados].