sexta-feira, outubro 14, 2016

As convicções e o fascismo

, por Mauro Santayana

por Mauro Santayana
Em seu site
(Revista do Brasil) - Os países, como as pessoas, precisam tomar cuidado com as suas convicções.
Convicções arraigadas, quando não nascem da informação, da razão, do conhecimento, costumam ser fruto do ódio, do preconceito e da ignorância.
Não é por acaso que entre as características do fascismo, a mais marcante está em colocar, furiosamente, a convicção acima da razão.
Foi por ter a forte convicção de que os judeus, os comunistas, os ciganos, os homossexuais, eram espécimes de diferentes raças sub-humanas, que os nazistas fizeram coisas extremamente "razoáveis", como guardar centenas, milhares de pênis e cérebros arrancados dos corpos de prisioneiros em vidros de formol, esquartejar pessoas para fazer sabão, adubar repolhos com cinzas de crematório, ou recortar e curtir pedaços de pele humana para colecionar tatuagens e fazer móveis e abajours, em um processo que começou justamente nos tribunais, com a gestação da jurisprudência racista e assassina das Leis de Nuremberg.
De tanta mentira, distorção,  hipocrisia, servidas - ou melhor, impostas, cotidianamente  - à população, nos últimos quatro anos, o Brasil tem se transformado, paulatinamente, em um país em que a realidade está sendo substituída por fantásticos  paradigmas, que são absorvidos e disseminados como as mais sagradas verdades, e adquirem rapidamente a condição de inabalável convicção na cabeça e nos corações de quem os adota, a priori, emocionalmente, sem checar, minimamente, sua veracidade ou sustentação.
Senão, vejamos:
Muitíssimas pessoas, no Brasil de hoje, têm convicção de que o PT quebrou o país.
Assim como têm convicção de que o Governo do Sr. Fernando Henrique Cardoso foi um tremendo sucesso do ponto de vista econômico, certo?
Errado.
Os números oficiais do Banco Mundial provam que o PIB  e a Renda per Capita em dólares recuaram no Governo do Sr. Fernando Henrique Cardoso, com relação ao de Itamar Franco (de 534 para 504 bilhões e de 3.426 para 2.810 dólares), e aumentaram mais de 300% no governo do PT, de 504 bilhões para 2.4 trilhões de dólares, e de 2.810 para 11.208 dólares, entre 2002 e 2014; com o salário mínimo subindo também mais de 300% em moeda norte-americana nesse período, de  88 para 308 dólares no ano passado, com um dólar nominal mais ou menos equivalente, que chegou a 4,00 reais tanto em 2002 como em 2015.
A queda atual da economia é um ponto fora de curva que irá se recuperar, mais cedo do que tarde, se não forem adotadas medidas recessivas, que mandem, mais uma vez, a vaca para o brejo. 
A maioria das pessoas - incluídos ministros do atual governo, que exageram os problemas,  para vender a sua "competência" e seus projetos, muitos deles ligados, direta e indiretamente à iniciativa privada - têm convicção que o Brasil está endividado até o pescoço, certo?
Errado.
Nona economia do mundo em 2016 - éramos a décima-quarta em 2002 - o Brasil ocupa, apenas, o quadragésimo lugar entre os países mais endividados do planeta.
Temos uma Dívida Pública Bruta com relação ao PIB (66%) mais baixa que a que tinhamos em 2002 (80%); e menor que a dos EUA (104%), Zona do Euro (Europa) (90%), Japão (220%), Alemanha (71.20%),  Inglaterra (89.20%), França (96,10%), Itália (132.70%), Canadá (91.50%).
Além de possuirmos mais reservas internacionais (370 bilhões de dólares) que qualquer uma dessas nações e de não estar devendo - somos credores do FMI - um centavo para o Fundo Monetário Internacional.
E, mesmo assim, ninguém fica fazendo, nesses países que citamos, o mesmo carnaval - verdadeiro massacre - que se faz aqui, com relação à questão da dívida pública.
Uma grande pilantragem midiática que ajuda a justificar, entre outras coisas, o absurdo teto de despesas públicas proposto pelo atual governo - que não existe em nenhum país desenvolvido e irá engessar e tolher o desenvolvimento nacional nos próximos 20 anos -   os juros pornográficos        que a nação paga, a cada 12  meses, aos bancos, e a privatização e entrega de empresas estatais brasileiras a países estrangeiros.
Muitas pessoas também aparentam ter desenvolvido a convicção, no Brasil de hoje, de que o PT é um partido que é contra as Forças Armadas, bolivariano e comunista, certo?
Errado.
O PT sempre trabalhou com o tripé capital estatal, capital privado nacional e capital estrangeiro,  e apoiou - a ponto de estar sendo execrado por isso - as maiores empresas privadas do país, e não apenas as de controle brasileiro - expandindo para elas o crédito subsidiado do BNDES, aumentando a oferta de crédito na economia, melhorando a situação do varejo e da indústria, fomentando a indústria automobilística, triplicando a produção e as vendas de caminhões, automóveis e equipamentos agrícolas, com linhas especiais de financiamento, e fortalecendo o agronegócio injetando bilhões de reais no Plano Safra, duplicando, praticamente, a colheita de grãos depois que chegou ao poder, sem atrapalhar o mercado financeiro, que teve forte expansão após 2002.
E, na área bélica, prestigiou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, lançando e bancando, por meio da adoção da Estratégia Nacional de Defesa, o maior programa de rearmamento das Forças Armadas na história brasileira.
Nem nos governos militares ousou-se investir, ao mesmo tempo, em tantos projetos estratégicos como se fez nos últimos anos, como é o caso do programa de construção de 36 caças-bombardeiros com a Suécia.
Ou o do submarino atômico - além de outros quatro, convencionais - como se está fazendo  em Itaguaí, no Rio de Janeiro, com parceria francesa.
Ou o da construção de mais de mil blindados multipropósito Guarani, em um único contrato, com a IVECO, com design e projeto de engenheiros do Exército Brasileiro.
Ou o do maior avião já construído no Brasil, o KC-390 da EMBRAER, produzido para substituir os Hércules C-130 norte-americanos, capaz de realizar missões também múltiplas, como o transporte de paraquedistas e blindados e o reabastecimento de outras aeronaves em voo.
Para não falar da família de radares SABER, dos novos mísseis da AVIBRAS, do programa Astros 2020, da nova família de rifles de assalto IA-2 da IMBEL, capaz de disparar 600 tiros por minuto, e de outros projetos como o do míssil ar-ar A-Darter desenvolvido por uma subsidiária da Odebrecht, com a Denel, sul-africana.
Da mesma forma, muitíssimas pessoas têm convicção,  nos dias de hoje, que o PT é o partido mais corrupto do Brasil, certo?
Errado.
Em ranking publicado pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral em 2012 - que, estranhamente, parou de publicar rankings anuais por partido depois disso - o PT aparece apenas em nono lugar, em uma lista encabeçada pelo DEM.
Na lista de 50 políticos investigados na Lava Jato que estão com processos no STF, cuja maioria pertence ao PP, só 6 nomes são do PT, e do total de 252 candidatos impugnados por serem ficha-suja nas eleições de 2014, por exemplo, apenas 20 são do Partido dos Trabalhadores.
Dados que não mudam em nada o fato de que o discurso anticorrupção, no Brasil de hoje, só existe na proporção que ocorre, porque pertence e serve, como bandeira, desde o início - na tradição golpista da UDN - à direita e à extrema direita em nosso país.
A esquerda, que costuma cair com facilidade nessa esparrela moral dos imorais, principalmente quando pretende utilizá-la, como seus adversários o fazem, como arma política, precisa tratar de outros temas, sem deixar - prudentemente - de colocar suas barbas de molho.
Como, por exemplo, o futuro do projeto nacional-desenvolvimentista brasileiro, com foco, principalmente, nas áreas social, científica, da educação, da indústria bélica, naval e de petróleo e de infraestrutura.
Ou a defesa da Democracia, do Estado de Direito e da Soberania Nacional, em tempos de risco - quase certeza, a depender do avanço da imbecilidade vigente -  de inserção subalterna do país em um processo de globalização que não deixará outras opções, a não ser o fortalecimento ou a capitulação. 
Tudo isso, no contexto do urgente estabelecimento de uma aliança que permita manter a estabilidade da República e evitar a vitória da Antipolítica com a ascensão do fascismo - em aliança com partidos conservadores tradicionais - à presidência da República em 2018.
É nesse país ridículo, mal informado, rasteiramente manipulado, por segmentos da mídia mendazes e deturpadores, que alguns procuradores do Ministério Público Federal vieram a público, há alguns dias, para dizer que tem "convicção" de que o ex-presidente Lula é o Chefe Supremo, o "Capo di tutti capi"   da corrupção nacional, neste Brasil "casto" e "ilibado", nunca dantes atingido - como diziam no Caso do "Mensalão", estão lembrados? - por semelhante tsunami antiético.
Que ele, que nunca teve contas no exterior, como, digamos, Eduardo Cunha ou Maluf, teria recebido "virtualmente", para o padrão de consumo de nossa impoluta elite, acostumada a apartamentos em Paris, Miami e Higienópolis, um modesto apartamento de 215 metros quadrados, de cooperativa - no qual nunca dormiu e do qual não sem tem notícia de escritura em seu nome.
Além de um sitiozinho mambembe, até mesmo para o gosto de nossa pseudo classe média paneleira, que também não está em seu nome.
E de uma ajuda para a guarda de seus documentos presidenciais - de inestimável valor histórico, por abarcarem oito anos de história nacional - tudo isso apresentado como a parte do leão, do "Pai", do "Comandante", de um suposto esquema de propina que o mesmo MPF afirma - ainda sem provas cabais - ter movimentado a extraordinária soma de 42 bilhões de reais em desvios da Petrobras (antes eram 6 bilhões, segundo "impecável" "auditoria" da "competentíssima", jamais multada, "honestíssima", "imparcialíssima", consultoria norte-americana Price Watherhouse).
Cinismo por cinismo, poderíamos dizer que, na hipótese, difícil de provar, que tivesse recebido os alegados 3.7 milhões em propina pelos quais foi acusado, em um negócio de mais de 40 bilhões, Lula seria o mais "ingênuo" senão um dos mais "modestos", políticos brasileiros, considerando-se a quantidade de empregos, negócios, projetos, obras, programas, que ajudou a proporcionar à economia nacional nos anos em que esteve à frente da Presidência da República.
E o PT, que teria pedido apenas miseráveis 5 milhões de reais para pagar contas atrasadas devidas a publicitários, em um  contrato de aproximadamente 1 bilhão de dólares para a construção de duas plataformas de petróleo pela empresa do Senhor Eike Batista - um sujeito que resolveu depor "espontaneamente", depois de ter recebido bilhões do BNDES, durante anos, em apoio às suas empresas falidas - teria sido, diante das franciscanas proporções da solicitação, de uma tacanhice digna de fazer corar outras legendas e personagens do espectro político nacional.
Ora, nos poupem.
Ninguém está aqui para santificar o Partido dos Trabalhadores ou o Sr Luís Inácio Lula da Silva, que, se tiver cometido algum crime, deve purgá-lo - respeitada sua condição de réu primário - na mesma proporção de seus erros.
O que nos indigna e nos tira do sério, trabalhando na área em que trabalhamos, é a desfaçatez, a caradurice, a hipocrisia institucionalizada, com que estão tratando a verdade,  a maior vítima desse atual "surto" de "convicções" brasileiro. 
Não nos venham com estórias da Carochinha  e mirabolantes apresentações que vão ridicularizar, pelo exagero, ausência de lógica, de proporcionalidade, razoabilidade e verossimilhança - como já mostram as matérias e editoriais dos jornais estrangeiros - o Ministério Público e o Judiciário brasileiros junto à opinião pública internacional.
Correndo o risco, seus "convictos" acusadores, de verem o tiro sair pela culatra, transformando Lula em uma espécie de símbolo, ou de herói, se for impedido de concorrer à presidência da República.
Ou em um mártir - caso alguma coisa ocorra a ele, eventualmente, na prisão - para boa parte do planeta.

quinta-feira, outubro 13, 2016

CRIANÇA FELIZ E COMBATIVA. SEGURA ESSA VICE GOLPISTA...

Mídia Ninja RN adicionou um novo vídeo.
"Agora imagina você, pobre, que não tem direito a estudar Filosofia e Sociologia, nem Artes, passar no Enem. Você não passa. Sabe quem passa? Quem tem dinheiro para pagar. Sabe por que eles têm medo de estudante que vai para a rua? Porque o governo quer máquinas. Máquinas programadas para obedecer a eles".
Maria Deusdédite da Silva Neta, aluna do 3°ano do curso de eletrotécnica do IFRN - Campus João Câmara, representante do Grêmio Estudantil Francisca Alves -GEFA
O VÍDEO É IMPERDÍVEL:
https://www.facebook.com/midianinjaRN/videos/1172598969452662/

terça-feira, outubro 04, 2016

É a Globo estúpido!

A tragédia brasileira. 
Um bico de Luz, 
a máquina de costura 
e a TV ligada na Globo. 


O Império contra-ataca




Há uma década, governos de esquerda, desafiando Washington e as corporações globais, assumiram o poder no Brasil, Argentina, Paraguai, Venezuela, Uruguai, Bolívia e Equador. Parecia que a maré estivesse virando, na América Latina. A interferência por Washington e a exploração por corporações internacionais, talvez afinal pudessem ser derrotadas. Governos latino-americanos, com governantes carismáticos como Hugo Chávez na Venezuela, Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, tiveram enormes vitórias eleitorais. Instituíram reformas socialistas que beneficiaram os mais pobres e a classe trabalhadora. Recusaram-se ao papel de fantoches dos EUA. Assumiram o controle dos recursos de suas próprias nações e do próprio destino. Foram a primeira revolta bem-sucedida contra o
neoliberalismo e a dominação pelas grandes empresas e bancos. Foi uma revolta que muitos norte-americanos sempre esperaram ver acontecer também aqui nos EUA.

Mas os movimentos e governos na América Latina tornaram-se presas das obscuras forças do imperialismo norte-americano e da ira e do poder dos empresários. Os truques que tantas vezes Washington e seus aliados empresários e banqueiros usaram estavam de volta – propaganda negra, manipulação dos veículos comunicação, na chamada "mídia"; suborno e corrupção de agentes do estado e políticos, generais, polícia, líderes sindicais e jornalistas; os golpes de Estado dentro dos Parlamentos nacionais; o estrangulamento econômico; o enxovalhamento de reputações de líderes democraticamente eleitos; a criminalização da esquerda; e o uso de esquadrões da morte para silenciar e fazer sumir os que lutassem em defesa dos mais fracos. É o mesmo velho jogo, o mesmo jogo sujo.

O presidente Correa, que ganhou o ódio eterno de Washington por ter garantido asilo político a
Julian Assange já há quatro anos, e por ter fechado a base aérea-militar de Manta em 2009, alertou recentemente que está em marcha uma nova versão da Operação Condor, na América Latina.

Operação Condor, que existiu nos anos 1970s e ’80s, é causa de torturas, assassinatos e do sumiço de milhares de organizadores sociais, líderes comunitários, estudantes, ativistas, políticos, diplomatas, líderes religiosos, jornalistas e artistas. Os chefes de inteligência de regimes da direita na Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai e, depois, no Brasil, supervisionavam campanhas de terror. Recebiam fundos dos EUA e apoio logístico e treinamento da CIA. Liberdade de imprensa, de organização, todas as formas do protesto pela via artística e de oposição política foram proibidas. Num esforço coordenado, esses regimes destroçaram, com brutalidade, todos os movimentos de esquerda em toda a América Latina. Só na Argentina, houve 30 mil desaparecidos.

A América Latina parece a caminho de ser novamente lançada num período de controle ditatorial e de exploração nua e crua pelas empresas em geral e pelos bancos em especial. Os governos de Equador, Bolívia e Venezuela, que está á beira do colapso, têm tido de enfrentar sucessivas tentativas de golpes de direita e enfrentam sabotagem econômica.

No Brasil, o Senado depôs por impeachment sem crime e sem prova alguma de qualquer malfeito, a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff.

Na Argentina, o novo presidente, Mauricio Macri, de direita, posto no poder pelos grandes hedge funds norte-americanos, imediatamente pagou seus benfeitores sob a forma de $4,65 bilhões entregues a quatro hedge funds, inclusive o Elliott Management, presidido pelo bilionário Paul Singer. O
pagamento aos hedge funds que haviam comprado a dívida argentina por centavos de dólar, significou ganho, para a empresa de Singer, de 2,4 bilhões, quantia 10-15 vezes maior que o investimento original. Antes disso, o governo de Cristina Fernández de Kirchner havia resistido, inclusive em tribunais internacionais, contra pagar o que os hedge funds, que ela chamava de "fundos abutres", reclamavam.

Entrevistei o ministro Guillaume Long, de Relações Exteriores e Mobilidade Humana do Equador, semana passada, para meu programa "On Contact".

Long, que é doutor pelo Institute for the Study of the Americas da Universidade de Londres, sugeriu à ONU que crie uma agência reguladora global de impostos. Disse que uma agência desse tipo poderia forçar corporações sonegadoras de impostos – que o FMI estima que custem aos países desenvolvidos mais de $200 bilhões ao ano, de impostos não pagos –, a pagarem aos países pelos recursos naturais que extraem e pelas perdas nacionais resultantes de negócios, quase sempre secretos, entre as grandes empresas e bancos. Também requereu à ONU a abolição completa dos chamados "paraísos fiscais", que há em vários países.

Há muito tempo se sabe que as políticas econômicas neoliberais dos anos 1980s e ’90s foram profundamente destrutivas na América Latina. Até controles econômicos muito débeis foram abandonados em nome do 'livre comércio' e da desregulação. Corporações internacionais e bancos receberam licença para operar livremente. "Essa desregulação, em ambiente já desregulado" resultou em anarquia, disse o ministro Long. "Os poderosos praticamente já não tinham qualquer controle ou quaisquer contrapesos que moderassem os seus poderes."

"O neoliberalismo é ruim, em praticamente todos os contextos", disse Long, quando conversamos em New York. "Foi ruim na Europa, tem sido ruim em outras partes do mundo. Desmantelou o Estado de Bem-estar. No contexto no qual já há estado fraco, onde as instituições não são consolidadas, onde há acentuados remanescentes feudais, como na América Latina, onde você realmente não tem contrato social forte com as instituições, com a modernidade, o neoliberalismo só faz esfacelar qualquer tipo de pacto social que haja. Sempre significa mais pobreza, mais desigualdade, enormes ondas de instabilidade."

Os países viram os serviços básicos, muitos já insuficientes e inadequados, reduzidos ou eliminados em nome de uma suposta 'austeridade'. As elites acumularam fortunas, ao tempo em que praticamente todos em volta mergulharam na miséria econômica. A paisagem política e econômica tornou-se instável. O Equador teve sete presidentes entre 1996 e 2006, ano em que Correa foi eleito. Em 1999, sofreu massiva crise bancária. Em desespero, Correa trocou a moeda nacional, que passou a ser o dólar norte-americano. O caos no Equador repetia-se na Bolívia e na Argentina. Em 1998, a Argentina entrou em depressão, que fez a economia encolher 28%. Mais de 50% dos argentinos foram empurrados para a miséria.

"A América Latina", disse Long, "chegou ao fundo do poço".

E foi desse fracasso generalizado do neoliberalismo, que a esquerda reagrupou-se e chegou ao poder.

"Os povos se relocalizaram, retomaram o pé da própria história, depois daquela crise avassaladora" – Long analisa. – "E decidiram reconstruir as próprias sociedades e combater contra o intervencionismo estrangeiro. Digo, mesmo, lutar contra o imperialismo. Ainda hoje, a principal questão é a desigualdade. A América Latina talvez não seja o continente mais pobre do mundo. Mas com certeza é o continente mais desigual em todo o mundo."

"O Equador produz petróleo" – continua o ministro Long. – "Produzimos 530 mil barris/dia. Recebíamos 20% a título de royalties, das multinacionais que extraem o petróleo. Hoje é o contrário. Pagamos uma taxa às multinacionais, pela extração, mas o petróleo é nosso. Tivemos de renegociar todos os nossos contratos de petróleo em 2008 e 2009. Algumas multinacionais recusaram-se a aceitar as novas regras, e deixaram o país. Nesses casos, nossa empresa estatal de petróleo entrou e ocupou os poços. Mas a maioria das multinacionais aceitaram. Pensaram "OK, podemos aceitar. Ainda assim é negócio lucrativo". Quero dizer, hoje as coisas são muito diferentes. Pagamos empresas privadas para extrair o petróleo, mas o petróleo é nosso. Nós o negociamos."

Long admitiu que houve graves revezes, mas insistiu que a esquerda não está quebrada.

"Depende de como você afere o sucesso" – disse o ministro. – "Se você o mede em termos de longevidade, e do tempo ao longo do qual esses governos permaneceram no poder – no caso do Equador, ainda estamos no poder e, claro, vamos vencer as eleições de fevereiro de 2017 –, nesse caso é coisa de, na Venezuela, mais ou menos 17 anos [que o governo de esquerda permanece no poder]; no Equador, agora, dez anos; na Argentina e no Brasil, são [ou foram] 13 anos."

"Uma das críticas que se fazem à esquerda é que são bem-intencionados, gente boa, com boas ideias, mas não os ponham no governo, porque o país explode," – disse Long. – "Mas no Equador tivemos crescimento realmente pujante, de 5 a 10% ao ano. Tivemos muitos excelentes indicadores econômicos. Diversificamos nossa economia. Mudamos, de importar, como antes, 80% de energia, para sermos hoje exportadores líquidos de eletricidade. Fizemos uma grande reforma na educação, na educação superior. Muitas coisas que são economicamente bem-sucedidas. A ortodoxia econômica neoliberal não colheu sucesso algum na década passada."

Long concedeu que seu governo, sim, fez inimigos poderosíssimos, não só por ter garantido asilo político a Assange em sua embaixada em Londres, mas também porque processou a Chevron Texaco, tentando que pagassem pelo dano massivo que a empresa provocou na Amazônia equatorial, quando a empresa perfurava ali, do início anos 1960 até que se retirou, em 1992. Deixou para trás cerca de 1.000 poços de dejetos tóxicos. Os vazamentos, no total, equivaliam a 85 vezes o vazamento provocado pela British Petroleum no Golfo do México, e a 18 vezes o vazamento do
Exxon Valdez. Um tribunal equatoriano ordenou que a Chevron Texaco pagasse $18,2 bilhões pelos danos, quantia posteriormente reduzida a $9,5 bilhões. Mas a petroleira recusou-se a pagar. O Equador recorreu a tribunais internacionais, para tentar arrancar deles o dinheiro.

Long disse que a diferença entre os vazamentos massivos em outras partes do mundo e o que houve no Equador é que, no Equador, não houve acidente. "[Os vazamentos no Equador] foram deliberados, um meio para tentarem cortar custos. Estavam lá no meio da Amazônia... Normalmente, o que se faz é extrair o petróleo e usam-se aquelas membranas de proteção, para impedir que o óleo se infiltre no solo. Não usaram as tais membranas. O petróleo chegou aos sistemas de água.
E poluiu todo o sistema do rio Amazonas. Criaram um gigantesco problema sanitário e de saúde pública. Detectou-se aumento no número de casos de câncer."

Long diz que evidentemente o seu governo sabia que a empresa Chevron Texaco tinha [e tem] "muito poder de lobbying nos EUA, em Wall Street, em Washington."

"Há muita coisa que não vemos" – disse ele da campanha para desestabilizar seu governo e outros governos de esquerda. "Benefícios que poderíamos colher, investimentos que não vêm, porque tivemos ação soberana, de preservar nossa soberania. No caso de [o Equador fechar a base aérea militar dos EUA em] Manta, gostamos de pensar que o governo dos EUA compreendeu, e tudo bem. Mas foi movimento pensado e definitivo. Dissemos 'acabou'. Inscrevemos em nossa Constituição, na nova Constituição, de 2008. Foi momento muito vibrante de nossa história. Criamos novas regras do jogo. A Constituição do Equador, hoje, é das mais progressistas do mundo. Declaramos os direitos da natureza. A nossa é a única constituição que declara os direitos da natureza, não apenas os direitos do homem. O território do Equador foi declarado livre de bases militares estrangeiras. Não havia outro modo: era isso ou isso. Mas há consequências para todas e quaisquer ações."

Uma dessas consequências foi uma tentativa abortada de golpe, em setembro de 2010, por membros da Polícia Nacional Equatoriana. Foi contida por força militar. Long acusou muitas das ONGs ocidentais que operam no Equador e em toda a região, de serem conduítes de dinheiro para os partidos de direita. Oficiais militares e da Polícia há muito tempo estão na folha de pagamento da CIA em toda a América Latina. Em 2008, o presidente Correa demitiu seu ministro da Defesa, o chefe da inteligência do Exército, vários comandantes do Exército e da Força Aérea e chefes do Estado-maior, sob a acusação de que os sistemas de inteligência do Equador estavam "completamente infiltrados e subjugados pela CIA."

"Há uma conspiração internacional em andamento agora, nesse momento, contra alguns governos progressistas" – disse o ministro Long. "Houve uns poucos revezes eleitorais na Argentina, e a Venezuela está em situação difícil. A mídia dá a tudo um tom especial, mas, sim, não há dúvidas de que a Venezuela enfrenta problemas graves. Há uma tentativa em curso para tirar o máximo possível da queda dos preços de algumas commodities, para criar caos social e derrubar governos. Já vimos um golpe parlamentar no Brasil. [A presidenta Rousseff] foi eleita com 54 milhões de votos. O Partido dos Trabalhadores, no Brasil [esteve] no poder durante 13 anos. O único modo que [a direita brasileira] tinha para tirar do governo os eleitos, era o golpe. Pelo voto universal não conseguiriam eleger-se."

Long disse que até com os revezes políticos que a direita sofreu, será difícil para os golpistas reinstituir políticas estritamente neoliberais.

"Há um campo político forte, disputado ainda pela direita tradicional e uma esquerda radical" – diz ele. – "Há uma esquerda radical que já provou que sabe reduzir a pobreza e a reduz, que sabe fazer e pode reduzir a desigualdade, que pode comandar a economia. Já há novos quadros com experiência de governo, ministros e pessoas que realmente assumiram responsabilidades de governar com a esquerda. Não há dúvidas de que, mais cedo ou mais tarde esses governos progressistas estarão novamente no poder."

Os Leviatãs empresariais e as agências imperialistas que trabalham a serviço deles estão novamente tentando reformatar a América Latina, para fazer do continente um paraíso para a exploração comercial empresarial. É a eterna história da luta do fraco contra o forte, do pobre contra o rico, do sem poder contra o poderoso, e dos que querem a própria autonomia, contra as forças do imperialismo.

"Não há limites nessa luta até a morte" – disse
Ernesto "Che" Guevara. "Não podemos ser indiferentes ao que acontece em qualquer canto do mundo, porque a vitória de qualquer país contra o imperialismo é vitória nossa; assim como a derrota de qualquer país, nessa mesma luta, é derrota de todos."*****

quinta-feira, setembro 29, 2016

O Brasil caiu na clandestinidade


O Brasil dos brutamontes, por Wanderley Guilherme dos Santos

Por Wanderley Guilherme dos Santos
Há quem resvale à beira do ridículo, ou do adesismo, angustiado com o inexistente dilema de apoiar o governo Temer contra o que seria um golpe ainda mais reacionário do PSDB, de Aécio Neves e de Fernando Henrique Cardoso. Estava demorando aparecer o pretexto para a velha cantilena de ser preciso combater a reação por dentro. Em geral, o combate se dá por dentro de bons hotéis, bons empregos e bons salários.
Trapaça entre PMDB, PSDB e assemelhados é assunto de estrito interesse dos salteadores, que só discordam sobre qual o melhor caminho para espoliar economicamente os assalariados e manter os líderes populares indefinidamente afastados da competição pelo governo. Imaginar que os arrufos entre eles expressam pudores democráticos ou é autoengano ou tentativa de empulhar a boa fé dos democratas. Judas! Judas! Judas!
O Brasil caiu na clandestinidade e a disputa por poder não tem limites, nem constitucionais, nem de protocolos de acordos, nem de projetos administrativos. Os bocados de poder são apropriados e mantidos aos berros, enquanto outro berrante não prevaleça sobre os bezerros. O Ministro da Justiça distribui filipeta de candidato a vereador, é desautorizado por delegados e fica por isso mesmo; procuradores dão espetáculo de ignorância, afetação e desonestidade intelectual, recebendo aplauso de juízes, estes, defensores da tese fascista de que é democrático normalizar a exceção. Promovem desnecessários espetáculos de prisões preventivas, algumas talvez justas, para acobertar arbitrariedades sem conta convertidas em técnica de chantagem. Ministros do Supremo agridem colegas pelos jornais, algo que só faziam durante as sessões da Corte. Tudo diariamente registrado nos jornais; não há pudor nem temor de reação. Ninguém da direita reage a ninguém da direita, ainda não entenderam?
Os brutamontes atuais, no Executivo, Legislativo e Judiciário só entendem a linguagem da brutalidade, o resto é lantejoula. Os ativistas da reação precisam sentir medo. Tergiversar é subterfúgio de colaboradores.
http://jornalggn.com.br/noticia/o-brasil-dos-brutamontes-por-wanderley-guilherme-dos-santos

sábado, setembro 03, 2016

EDITORIAL – UM GOLPE COM SANGUE NOS OLHOS

O que é “baderna” diante de um complô de corruptos, grandes instituições financeiras, indústrias e mercados internacionais capazes de derrubar uma democracia? E que massa é essa de “soldados da arruaça” ou “fanáticos da violência” como diz a “Folha de S.Paulo” que, depois de apoiar o golpe – esta sim a violência superlativa – se vitimiza de forma patética ao ter sua fachada pichada por manifestantes?
Por Flávia Martinelli, para os Jornalistas Livres
Começou com sangue nos olhos. Um globo ocular dilacerado, cego e, por uma dessas ironias amaldiçoadas, esquerdo. Deborah Fabri, a estudante de 19 anos atingida por estilhaços de bala na primeira manifestação depois do golpe, foi perfurada em muito mais do que em seu direito de se manifestar. Figura de linguagem já não cabe mais na retórica da repressão inaugurada pelo golpista.
Houve também uma câmera fotográfica destroçada. A quantidade pedaços quebrados denuncia a ira do arremesso. E, ainda, centenas de olhos inflamados por spray de pimenta. Choro de gás e de inconformidade. “Mão na cabeça e cara virada pro muro, filho da puta! Olha pro chão, vândalo do caralho!”, é a clássica ordem de prisão policial da tropa de Geraldo Alckmin. E não dá para esquecer do olhar dos refletores do poder.
Lentes de TV estão seletivas. Só registram o vidro do caixa eletrônico quebrado. O noticiário da Globo adora um quebra-quebra. Os editoriais, espaços para a defesa do ponto de vista dos jornais, pedem mais repressão. A Folha e o Estado de S.Paulo tipificaram os manifestantes por um único grupo de meia dúzia de queimadores de lixo, pneus e quebradores de vidraças bancárias. Justificam a porrada, incutem medo na classe média, querem medidas mais duras para conter quem protesta.
O presidente golpista atendeu no mesmo dia. Temer autorizou as Forças Armadas a atuarem na Avenida Paulista no domingo (04/09) marcado para inúmeras manifestações. A “garantia da lei e da ordem” tem como desculpa a passagem da tocha olímpica no local. O governo do Estado gostou. Emitiu nota avisando que protesto não pode, não. Estão todos de olho, nas palavras dos jornais, nos “vândalos”, “arruaceiros”, “milicianos”, “fascistas”, “criminosos”, e, claro, “baderneiros”, definição preferida dos apoiadores do golpe.
Mas o que é “baderna” diante de um complô de corruptos, grandes instituições financeiras, indústrias e mercados internacionais capazes de derrubar uma democracia? E que massa é essa de “soldados da arruaça” ou “fanáticos da violência” como diz a “Folha de S.Paulo” que, depois de apoiar o golpe – esta sim a violência superlativa – se vitimiza de forma patética ao ter sua fachada pichada por manifestantes?
Os repórteres de gabinete não viram, por exemplo, que entre os incendiários de lixo havia um pai de família de 54 anos, professor da rede pública, puto por ter seu voto roubado. Se ele botou fogo para fazer barricada contra a tropa de choque, é miliciano e ponto final. E dá-lhe bomba, diz o jornal. E bomba na cara, age a PM.
“Nos últimos dias, eu testemunhei policiais fazendo mira na cabeça de manifestante”, diz a vídeorrepórter Kátia Passos que, muito antes de ser Jornalista Livre, há um ano, é mãe de uma estudante secundarista e registra praticamente todos os protestos de estudantes em São Paulo. “Nesses três últimos atos não teve conversa. Eu sempre falo com os comandantes como jornalista, ouço o outro lado. Não consegui trocar uma palavra. Eles se recusam a negociar.”
Kátia reconheceu todas as cinco forças da polícia nas manifestações: Tática, Tropa de Choque, helicóptero, cavalaria e Polícia Militar. “Não via esse esquema de repressão desde o massacre de 2013, quando os policiais perderam completamente o controle e saíram atirando a esmo. A polícia não está na rua para dispersar, mas para encurralar.”
No dia do golpe, (31/08), havia mais de mil policiais em ação na manifestação. Num trecho da rua da Consolação, sem saídas laterais, eles passaram a comprimir os manifestantes, cercando o grupo num círculo. “Bombas foram lançadas no meio da passeata. A única maneira de escapar era passar pelos cordões policiais com risco de levar tiro de borracha à queima-roupa”, lembra o Jornalista Livre Adolfo Várzea.
No dia seguinte, Lucas Porto, repórter, fotógrafo, rotineiro cinegrafista de transmissões ao vivo das manifestações do Jornalistas Livres chegou a ser, literalmente, caçado por uma matilha de oficiais. Lucas sabe que sempre esteve marcado. Mas dessa vez, o grupo de policiais não se contentou de correr em seu encalço. Lucas ganhou uma bomba exclusiva, só pra ele, numa calçada praticamente vazia. Só não foi apanhado pelos PMs porque outro Jornalista Livre, Caco Ishak, se colocou diante dos policiais. Caco foi atropelado por uma moto da tropa na calçada, derrubado no chão, imobilizado e levado para a delegacia. Só saiu de lá depois das 4 da manhã.
O parâmetro da violência policial deixa claro a que veio o golpe. É a opinião dos fotógrafos Christian Braga e de Sato do Brasil, ambos Jornalistas Livres. Christian vê uma escalada crescente de violência nesses últimos dias. “Tá punk, sim. E tem bala de borracha pra caramba, os caras nem pensam antes de atirar.” Sato estava próximo ao prédio da Folha de S.Paulo na última quarta-feira (31/08), quando os manifestantes picharam o portão blindado da entrada e jogaram pedras na fachada no jornal.
“Vi de longe quebrarem a câmera do fotógrafo ali. Ele estava sentado com as costas na parede. O policial simplesmente tirou o capacete da cabeça dele, arrancou a câmera, jogou no chão e pisou no equipamento.” Sato deu de cara com um PM e avisou: ‘Sou imprensa, sou imprensa’. Ele respondeu: ‘Foda-se, sai daqui! Quer tomar tiro na cara?’”. De fato. Àquela altura, a estudante Deborah já havia perdido a visão. Não era força de expressão. O golpe quer tirar sangue dos nossos olhos.
Vídeo e foto: Sato do Brasil / Jornalistas Livres

quarta-feira, agosto 31, 2016

LEIA AGORA >> Durante algum tempo será possível impor uma narrativa salvacionista para o golpe, ainda mais contando com a aliança fechada com a Globo. Em que pese a predominância do oportunismo no curto prazo, a moral ainda é o grande fator unificador das sociedades civilizadas. Não é possível conviver eternamente com a mentira, a hipocrisia. A não ser que se desacredite totalmente do Brasil, como nação civilizada, que se ignore o que foi plantado nesses séculos, Machado de Assis, Villa-Lobos, Sérgio Buarque, Gilberto Freyre, Antônio Cândido, que se ignore os compositores populares, os homens que cantaram a alma do país, Ary, Tom, Cartola, Chico, Caetano, Paulinho, a não ser que se esqueça Campos e Furtado, Merchior e Wanderley, os homens que à esquerda e à direita ajudaram na construção da Nação, será impossível acreditar na perenização desse golpe. Um país que deu Paulo Brossard não pode terminar em Magno Malta, que deu João Mangabeira não pode resultar em Janaina Paschoal, que deu Miguel Reali, pai, não pode se contentar com Reali filho, que deu Faoro, Pertence, Fonteles, não pode incensar Janot, que deu Juscelino, não pode aceitar Temer.

Xadrez da grande noite da humilhação nacional

O desafio é explicar um golpe que tem, na ponta da fiscalização do TCU (Tribunal de Contas da União) personagens como Aroldo Cedraz e Augusto Nardes, na ponta política, Michel Temer, Romero Jucá, Eduardo Cunha, Aécio Neves e José Serra todos envolvidos em inúmeras denúncias de irregularidades e de uso político indevido do cargo. E, na ponta processual o Procurador Geral da República Rodrigo Janot e o Ministério Público Federal, na ponta jurídica Gilmar Mendes e Dias Toffoli falando em nome da moral e dos bons costumes.
Como se explica que a moral e os bons costumes tenham se aliado ao vício para implantar o reino dos negócios escusos?
Hoje em dia, está claro que a disputa não é entre Dilma e Aécio, PT e PSDB, mas entre modelos de país e pelo assalto ao orçamento e ao patrimônio público. A aliança Temer-Janot permitirá ao novo grupo de poder destruir políticas sociais, desmontar o modelo de exploração do pré-sal, vender ativos públicos, ampliar os gastos públicos através das emendas parlamentares. É um pacto de negócios.
A grande questão é como um país, entre as dez maiores democracias do globo, com uma tradição cultural, histórica, permite que se destrua o ponto central da democracia – o voto popular – por uma frente desse nível. Mais do que uma tragédia, é uma humilhação!

http://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-grande-noite-da-humilhacao-nacional#.V8a5k26potE.facebook

Honrada Dilma Rousseff do Brasil enfrenta República dos Escroques

30/8/2016, Pepe Escobar, RT

Ver também

24/5/2016, "Brasil-2016: República das Bananas dos Escroques Provisórios", Pepe Escobar, SputnikNews (trad.
Blog do Alok)

28/8/2016, "Escroques do Brasil de banana à caça da Medalha de Ouro...", Pepe Escobar,
Strategic Culture Foundation (trad. Patria Latina)
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Imagem: Dilma Rousseff em parte final do debate e votação em que se julga seu impeachment. Brasília, Brasil, 29/8/2016, © Ueslei Marcelino / Reuters

Dilma Rousseff chegou à tribuna e olhou calmamente para a plateia lotada de seus acusadores. Saiu de cabeça erguida, depois de exortar aqueles senadores a votar pela própria consciência.

A maioria dos políticos ali presentes provavelmente nem tem ideia do que seja "consciência"; não passam de meninos de recados, corruptos. Mas o inconsciente coletivo brasileiro – Jung que nos ajude – será marcado para sempre.

A presidenta Dilma Rousseff, em discurso detalhado, ocasionalmente emocionado, defendeu-se com honra e dignidade de acusações de que teria cometido um "crime de responsabilidade". Na verdade, nem falava diretamente àquela fossa cheia de políticos; falava, sim, ao "Anjo da História" bem-amado de Walter Benjamin. A história a julgará com respeito e gentileza.

Mas nada está acabado até que um político suspeito cante. No momento em que escrevo, Rousseff está a caminho de ser derrubada da presidência da 8ª maior economia do mundo, por um bando de políticos, mistura de escroques e covardes. Dilma disse que só teme "a morte da democracia". O impeachment de Rousseff significa, na prática, que uma eleição democrática numa das maiores democracias do mundo será cancelada por um golpe parlamentar comandado por controle remoto por interesses oligárquicos. Não se trata, como jamais se tratou, de justiça; trata-se da política mais suja.

Não há argumento tecnoburocrático que prove que a presidenta deva ser derrubada por impeachment, porque manobras no orçamento não fizeram correr um centavo, que fosse, para os bolsos dela, ou em detrimento do Tesouro – e, isso, em nação inacreditavelmente, espantosamente, infestada por corruptos e corrupção.

Se tivéssemos de eleger uma única sentença para explicar o golpe de 2016 no Brasil para público global, seria: O golpe parlamentar/institucional/do big business/big banking/mídia-empresa em curso no Brasil é a ferramenta usada pelos oligarcas brasileiros para esmagar o movimento rumo a distribuição mais justa de riqueza que se viu no Brasil desde o governo do presidente Lula, até a crise global do capitalismo que os EUA provocaram em 2008.

Vídeo, RT

Os governos Lula e depois Dilma adotaram modelo muito chinês, de "ganha-ganha". Houve uma espécie de pacto não escrito entre as classes no Brasil: os ricos ficarão ainda mais ricos, mas os pobres ficarão menos pobres.

Então, a crise atingiu furiosamente o Brasil, país dos BRICS. Não havia Plano B – além de exportar commodities. O boom terminou, e traidores/conspiradores na oposição viram ali uma abertura para assaltar o poder (para obter mais poder), nas pegadas de uma investigação da corrupção chamada "Car Wash" e altamente 'seletiva'. E, sim, sendo o Brasil uma KafkaLândia, a encenação de impeachment contra Dilma é, de fato, tática diversionista para "controlar" a Operação Car Wash, de modo a garantir que nenhuma investigação chegue a políticos da direita controlada pelos oligarcas.

Os abutres e seu plano máster

Emir Sader, um dos mais respeitados sociólogos brasileiros, resumiu o que há pela frente: conflito social e político grave; repressão militar/policial; rompimento do contrato social; país reduzido a mero vassalo dos EUA; e governo não eleito, ilegítimo, sem autonomia e soberania e geopoliticamente marginalizado. "Governado" sempre pelo atual interino, mas presidente já coroado Michel Temer, tipo corrupto, medíocre, covarde que sequer teve coragem para aparecer na cerimônia de encerramento das Olimpíadas, porque sabia que seria vaiado por um Maracanã lotado.

Bem-vindos ao pós-golpe no Brasil: terra de crise permanente, com governo impotente, ilegítimo e corrupto, recessão econômica e desemprego. Nas palavras de Sader, "o golpe descartará tudo que o Brasil construiu de positivo nesse século".

Temer O Usurpador não pode aspirar nem a alguma grandeza Shakespeareana de personagem trágico… Já foi associado a quase $3 milhões em propinas. O atual ministro de Relações Exteriores, José Serra, quadro da Chevron, já foi acusado de ter recebido mais de $6 milhões, também em contas no exterior.

E acusações ainda mais sérias chegaram bem perto de acontecer contra políticos dos partidos de direita – devastação impressionante, que ceifaria no mínimo metade dos congressistas. Até que foram magicamente "desqualificadas", porque foram (planejada e deliberadamente) vazadas. Aí está o âmago da coisa: no atual cenário de Kafka, só os "vermelhos" – o Partido dos Trabalhadores" – podem ser criminalizado. Muito disso tudo será mostrado em, pelo menos, quatro documentários que estão sendo feitos hoje, no calor da hora, sobre essa saga lamentável.

Imediatamente depois de Dilma ser derrubada, o Senado planeja lançar o que bem se pode descrever como orgia fiscal – baseada em aumento de salário dos ministros da Suprema Corte; esses salários por lei regulam o teto das remunerações de todos os servidores públicos no Brasil. Lembrem-se que Dilma está sendo derrubada 'porque' teria cometido crime de "irresponsabilidade fiscal".

Imagem: Tuíto

Muitos escroques e urubus disputarão o espólio da democracia morta. O que interessa é que quem mais lucrará com o impeachment será o Deus Mercado. Incluem-se aí o Big Business, a mídia-empresa (no Brasil, um monopólio de cinco famílias) e, claro, o Excepcionalistão. O mandato desses todos é bem evidente. A presidência é detalhe. Precisam controlar, isso sim, o Ministério das Finanças e o Banco Central.

As políticas deles estão prontas para serem implementadas: esmagar o incipiente estado brasileiro de bem-estar; manter os juros na estratosfera (para 'remunerar' bancos emprestadores); impor "ajuste fiscal" e permitir livre fluxo de capitais. São 'políticas' que só existem na vida real, em ditaduras.

Agora, reuniram o poder executivo, a ideologia neoliberal e todas as necessárias alianças políticas para fazer-acontecer. Acrescentem a isso ofensiva de vida ou morte contra o Partido dos Trabalhadores, como meio para 'responder' às acusações contra Temer O Usurpador e seu medíocre chanceler Serra.

Vídeo

O que mais acontecerá? O Congresso muito dividido, hiperconservador, se organizará como trincheira para defender os próprios privilégios e destruir qualquer ameaça que apareça contra eles. O advogado geral não cometerá a temeridade de investigar Temer O Usurpador e outros políticos. Por mais que haja séria evidência de corrupção contra eles todos, é impressionante o escudo jurídico/político/jornalístico impenetrável que blinda a galáxia dos escroques no Brasil. Pode-se falar de autoproteção em território de gangue de crime organizado.

No momento em que escrevo estão em andamento todos os tipos imagináveis de negócios por baixo dos panos. A única certeza inescapável é o assassinato de direitos democráticos e constitucionais e o desmonte dos programas sociais.

Como já detalhei [vide acima, "Veja também"], o plano máster do que virá é diretamente saído do manual de capitalismo de desastre; vender a preço vil as reservas de petróleo do pré-sal; vender todos os meios e ferramentas para desenvolvimento industrial do Brasil mediante a privatização mais hardcore; pôr fim a todas as proteções e defesas que zelam pela propriedade do know-how brasileiro em várias áreas; cortar fundo na educação, saúde, ciência e tecnologia. Ao mesmo tempo, a mais ensandecida "flexibilização" de direitos trabalhistas, que serão atacados por todos os lados; ataque regressivo contra as aposentadorias; sabotar o Mercosul – o mercado comum sul-americano – para ampliar a vassalagem e a subordinação a interesses nacionais norte-americanos.

No fim, Rouseff sairá de cabeça erguida. Quanto ao Anjo da História, não haverá piedade para os escroques.*****

segunda-feira, agosto 29, 2016

Todos juntos com Dilma no Senado!

Guilherme Boulos, do MTST, Chico Buarque, Lula e João Paulo, do MST.
Fotos: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

domingo, agosto 21, 2016

Cegueira e linchamento




O inglês Robert Fisk, em artigo no jornal londrino "The Independent", afirma que, segundo as duras conclusões do relatório Chilcot sobre a invasão do Iraque, o ex-primeiro ministro Tony Blair e seu comparsa George W. Bush deveriam ser julgados por crimes de guerra, a exemplo de Nuremberg, que se ocupou dos remanescentes nazistas.

O poodle Blair se deslocava a Washington para conspirar com seu colega norte-americano a tomada do Iraque, a pretexto de este país ser detentor de armas de destruição em massa, comprovado depois como mentira, mas invasão levada a cabo com a morte de meio milhão de iraquianos.

Antes, durante o mesmo governo Bush, o brutal regime de sanções causou a morte de 1,7 milhão de civis iraquianos, metade crianças, segundo dados da ONU.

Ao consulado que representava um criminoso de guerra, Bush, o então deputado federal Michel Temer (como de resto nomes expressivos do tucanato) fornecia informações sobre o cenário político brasileiro. "Premonitório", Temer acenava com um candidato de seu partido à Presidência, segundo o site Wikileaks, de Julian Assange.

Não estranhar que o interino Temer, seu cortejo de rabo preso e sabujos afins andem de braços dados com os tucanos, que estariam governando de fato o Brasil ou, uns e outros, fundindo-se em um só corpo, até que o tucanato desfeche contra Temer um novo golpe e nade de braçada com seu projeto de poder -atrelar-se ao neoliberalismo, apesar do atual diagnóstico: segundo publicação da BBC, levantamento da ONG britânica Oxfam, levado ao Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, a riqueza acumulada pelo 1% dos mais ricos do mundo equivale aos recursos dos 99% restantes. Segundo o estudo, a tendência de concentração da riqueza vem aumentando desde 2009.

O senador Aloysio Nunes foi às pressas a Washington no dia seguinte à votação do impeachment de Dilma Rousseff na exótica Câmara dos Deputados, como primeiro arranque para entregar o país ao neoliberalismo norte-americano.

Foi secundado por seu comparsa tucano, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também interino-itinerante que, num giro mais amplo, articula "flexibilizar" Mercosul, Brics, Unasul e sabe-se lá mais o quê.

Além de comprometer a soberania brasileira, Serra atira ao lixo o protagonismo que o país tinha conseguido no plano internacional com a diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, retomando uma política exterior de vira-lata (que me perdoem os cães dessa espécie; reconheço que, na escala animal, estão acima de certos similares humanos).

A propósito, o tucano, com imenso bico devorador, é ave predadora, atacando filhotes indefesos em seus ninhos. Estamos bem providos em nossa fauna: tucano, vira-lata, gato angorá e ratazanas a dar com pau...

Episódio exemplar do mencionado protagonismo alcançado pelo Brasil aconteceu em Berlim (2009), quando, em tribunas lado a lado, a então poderosa Angela Merkel, depois de criticar duramente o programa nuclear do Irã, recebeu a resposta de Lula: os detentores de armas nucleares, ao não desativá-las, não têm autoridade moral para impor condições àquele país. Lula silenciou literalmente a chanceler alemã.

Vale também lembrar o pronunciamento de Lula de quase uma hora em Hamburgo (2009), em linguagem precisa, quando, interrompido várias vezes por aplausos de empresários alemães e brasileiros, foi ovacionado no final.

Que se passe à Lava Jato e a seus méritos, embora supostos, por se conduzirem em mão única, quando não na contramão, o que beira a obsessão. Espera-se que o juiz Serio Moro venha a se ocupar também de certos políticos "limpinhos e cheirosos", apesar da mão grande do inefável ministro do STF Gilmar Mendes.

Por sinal, seu discípulo, o senador Antonio Anastasia, reproduz a mão prestidigitadora do mestre: culpa Dilma e esconde suas exorbitantes pedaladas, quando governador de Minas Gerais.

Traços do perfil de Moro foram esboçados por Luiz Moniz Bandeira, professor universitário, cientista político e historiador, vivendo há anos na Alemanha. Em entrevista ao jornal argentino "Página/12", revela: Moro esteve em duas ocasiões nos EUA, recebendo treinamento. Em uma delas, participou de cursos no Departamento de Estado; em outra, na Universidade Harvard.

Segundo o Wikileaks, juízes (incluindo Moro), promotores e policiais federais receberam formação em 2009, promovida pela embaixada norte-americana no Rio.

Em 8 de maio, Janio de Freitas, com seu habitual rigor crítico, afirmou nesta Folha que "Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador, talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo".

Lula não assumiu a Casa Civil, foi rechaçado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Gilmar Mendes, um goleirão sem rival na seleção e, no álbum, figurinha assim carimabda por um de seus pares, Joaquim Barbosa, popstar da época e hoje estrela cadente: "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro... Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar".

Sugiro a eventuais leitores, mas não aos facciosos que, nos aeroportos, torciam o nariz ao ver gente simples que embarcava calçando sandálias Havaianas, que acessem o site Instituto Lula - o Brasil da Mudança.

Poderão dar conta de espantosas e incontestes realizações. Limito-me a destacar o programa Luz para Todos, que tirou mais de 15 milhões de brasileiros da escuridão, sobretudo nos casebres do sertão nordestino e da região amazônica. E sugiro o amparo do adágio popular: pior cego é aquele que não quer ver.

A não esquecer: Lula abriu as portas do Planalto aos catadores de matérias recicláveis, profissionalizando-os, sancionou a Lei Maria da Penha, fundamental à proteção das mulheres, e o Estatuto da Igualdade Racial, que tem como objetivo políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e combate à discriminação.

Que o PT tenha cometido erros, alguns até graves (quem não os comete?), mas menos que Fernando Henrique Cardoso, que recorria ao "Engavetador Geral da República", à privataria e a muitos outros expedientes, como a aventada compra de votos para sua reeleição.

A corrupção, uma enfermidade mundial, decorre no Brasil do sistema político, atingindo a quase totalidade dos partidos. Contudo, Lula propiciou, como nunca antes, o desempenho livre dos órgãos de investigação, como Ministério Público e Polícia Federal, ao contrário do que faziam governos anteriores que controlavam essas instituições.

A registrar ainda, por importante: as gestões petistas nunca falaram em "flexibilizar" a CLT, a Previdência, a escola pública, o SUS, as estatais, o pré-sal inclusive e sabe-se lá mais o quê, propostas engatilhadas pelos interinos (algumas levianamente já disparadas), a causar prejuízo incalculável ao Brasil e aos trabalhadores.

Sem vínculo com qualquer partido político, assisto com tristeza a todo o artificioso esquema de linchamento a que Lula vem sendo exposto, depois de ter conduzido o mais amplo processo de inclusão social que o Brasil conheceu em toda a sua história.*****

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Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Seminário Empresarial Brasil-Alemanha Hamburgo-Alemanha, 04 de dezembro de 2009